De Francis a Mbappé, que caminho
PENSAR que há um estado que considera bom negócio contratar um artista por mil milhões de euros para o ter em exibição durante um ano dá vontade de sorrir. E de refletir. Que futebol é este? Melhor: Que mundo é este que aceita como normal ou aceitável - dentro das sacrossantas leis do mercado - uma anormalidade desta dimensão?
O mundo que aceita como razoável que um ser humano, não importa a profissão, possa ganhar 700 milhões de euros por ano (ou seja: 58,3 milhões por mês; 13,3 milhões por semana; 1,9 milhões por dia; 79.900 euros por hora; 1.332 euros por minuto; 22 euros por segundo…) é certamente um mundo muito diferente daquele onde vivia, em 1979, um cavalheiro britânico chamado Trevor John Francis - ele foi o primeiro futebolista a ser transaccionado por um milhão de libras (na altura: cerca de milhão e meio de contos…). Dirão os pragmáticos que é a vida, a evolução, o sacrossanto mercado em funcionamento. Dirão outros, como António Gedeão, que o mundo pula e avança/como bola colorida/entre as mãos de uma criança. Neste caso a criança é muito rica e pertence à família real saudita.
Vejamos então os atores deste novo folhetim que tem animado a Imprensa desportiva internacional: a Arábia Saudita, liderada pelo príncipe herdeiro e primeiro-ministro Mohamed bin Salman (o líder mais poderoso da península arábica); Kylian Mbappé, excecional futebolista francês que se encontra em litígio com a direcção do PSG.
Bin Salman, através do Al Hilal de Riade (clube treinado por Jorge Jesus), aproveitou o momento para dar uma prova ainda mais enfática da intenção saudita de forrar a Liga local com estrelas internacionais compradas no mercado europeu e torná-la uma das mais mediáticas do Mundo. Ofereceu 300 milhões ao Catar-PSG pelo futebolista (Al-Khelaifi aceitou, claro) e outros 700 ao jogador para o ter na liga saudita - uns jornais dizem que a proposta é por um ano, outros asseveram é por dois. Seja como for, é muito dinheiro.
Para os comentadores mais optimistas, Bin Salman, quinto filho do rei Salman bin Abdulaziz, é um líder visionário que quer arrancar a Arábia Saudita à idade das trevas e projetá-la, quanto antes, para a modernidade sonhada de 2030 (país civilizado, reformista e virado para o futuro). Depois da contratação hipermediática de Cristiano Ronaldo em janeiro passado, que foi uma espécie de declaração inicial de intenções (não levada muito a sério pelo orgulhoso futebol europeu, diga-se), Bin Salman tem reforçado a aposta no desporto-rei como veículo de promoção e alteração da imagem do país. A possível contratação de Mbappé insere-se na colossal carteira de investimentos da Arábia Saudita para este setor tão mediático que é o futebol e, ninguém duvide, integra a visão que Bin Salman apresentou para o país em 2016 e que nomeou Vision 2030 (ambicioso programa de transformação das estruturas sociais, económicas e políticas do reino saudita, envolvendo uma série de projetos em áreas facilmente mediatizáveis como o meio ambiente, o desporto, o turismo, o património cultural e até a exploração espacial).
É essa certeza de retorno/visibilidade, que leva o crown prince a permitir ao diretor financeiro do Al Hilal que ofereça a Kylian Mbappé o maior contrato da história do desporto. Quem passa os olhos pelos jornais, sites e noticiários desportivos da velha Europa, sabe que nunca se falou tanto da Arábia Saudita como agora.
O notícia desta proposta faraónica ocorreu no mesmo dia em que se soube da morte de Trevor Francis, o primeiro futebolista a ser negociado por um milhão de libras (em 1979, quando se mudou do Birmingham City para o Nottingham Forest de Brian Clough). Francis era um cavalheiro do futebol. Avançado fino, intuitivo, rápido e esquivo, marcou o golo que deu ao Forest a primeira Taça dos Campeões Europeus (em Munique, frente ao Malmo, no primeiro jogo que fez nessa prova…!) e depois de uma passagem mal sucedida pelo Manchester City emigrou para Itália, juntando-se a Vialli, Mancini e Graeme Souness numa esplêndida equipa da Sampdoria. Da transferência milionária de Francis à proposta de mil milhões do Al Hilal decorreram 44 anos, o que, em termos históricos, é um par de minutos (foi hoje, ao pequeno almoço). Como andámos depressa…
ALEXIA PUTELLAS ATÉ AOS 224 ANOS
SE Kylian Mbappé pode brevemente juntar-se a Rúben Neves e a Jorge Jesus na equipa do Al Hilal e usufruir, durante uns tempos, do maior ordenado jamais pago na história do futebol (à chegada a Riade, por exemplo, cada aceno de 5 segundos para os adeptos vai render-lhe 110 euros; e uma conversa de dez minutos com o mestre da tática acrescenta-lhe 13,320 euros à conta bancária), a média catalã Alexia Putellas, capitã do Barcelona, da selecção espanhola e geralmente considerada a melhor futebolista do mundo (ganhou a Bola de Ouro Feminina em 2021 e 2022), vai continuar a precisar de um gigantesco empréstimo bancário se quiser equiparar-se a Mbappé no ranking dos proventos. Ou então de jogar até aos 224 anos.
Informa revista americana Forbes (uma das bíblias do capitalismo) que Alexia Putellas é a terceira mais bem paga entre as futebolistas presentes no Mundial da Austrália/Nova Zelândia: ela ganha 3,59 milhões/ano no Barcelona, muito atrás das estrelas americanas Alexis Morgan (San Diego, 6,41 milhões/ano) e Megan Rapinoe (OL Reign, 6,41 milhões/ano). Quer isto dizer que a bela Alexia (29 anos) um dos ícones mais mediáticos do competitivo desporto espanhol, precisaria de jogar mais 195 anos com o ordenado actual (até 2218, portanto) para conseguir ganhar os 700 milhões que Mbappé pode empochar num ano (365 dias, portanto). Convenhamos. Há qualquer coisa aqui que não soa bem