Cristiano Ronaldo aterrou finalmente no Mundial - Foto: IMAGO
Cristiano Ronaldo aterrou finalmente no Mundial - Foto: IMAGO

Com a entrada em cena de Cristiano Ronaldo, agora sim, este é o Mundial das superestrelas

Lionel Messi soma incríveis cinco golos (todos os da Argentina), Haaland (Noruega) e Mbappé (França) já marcaram quatro, cada um; CR7 bisou ontem e Yamal abriu caminho à goleada de Espanha

MIAMI — O Mundial 2026 entrou em modo de ebulição, dissipando qualquer névoa de ceticismo que pudesse pairar sobre os relvados norte-americanos: Se havia dúvidas de que esta competição alargada, disputada em muitos locais sob intenso calor e elevados níveis de humidade, e depois de uma época desgastante, não teria espaço para as grandes figuras do jogo, eis as primeiras duas jornadas da fase de grupos a dissipá-las.

Com o golo geométrico de Cristiano Ronaldo no imenso anfiteatro de Houston, juntamente com o rendimento imediato e avassalador dos maiores astros do futebol contemporâneo, o veredicto é claro e absoluto: este já é o Mundial das superestrelas.

Num torneio de exigência máxima, onde o desgaste físico e a pressão psicológica atingem níveis sem precedentes, os fora de série abandonaram o fato de repouso e assumiram o destino das suas nações com momentos de pura genialidade.

É fascinante notar que o aparecimento avassalador destas figuras não surge em contraponto ou negação ao rigor tático e ao espírito coletivo. Pelo contrário, as superestrelas deste torneio são a expressão máxima e a consequência direta de engrenagens coletivas perfeitamente oleadas, onde a liberdade do génio individual funciona como o golpe de misericórdia que valida todo o trabalho da equipa.

Campeão do Mundo em 2022, Messi está a desfrutar da sua última dança e soma cinco golos (todos os da Argentina) neste Mundial - Foto: IMAGO

Após cinco golos nos primeiros dois duelos, é impossível não começar por Lionel Messi, que aborda este Mundial com a aura mística de um maestro sénior, ele que já conseguiu sagrar-se campeão do Mundo e que agora pode desfrutar desta sua última dança no maior palco do futebol. 

Aos 38 anos, jogando numa posição ligeiramente mais recuada no apoio direto aos avançados, o astro argentino continua a ditar o ritmo cardíaco da albiceleste com uma clarividência assustadora.

Quando a Argentina se viu enredada numa teia tática asfixiante, com dificuldades para furar a muralha da Áustria, Messi resolveu o problema à sua imagem e sem pedir licença, somando dois golos aos três que já marcara diante da Argélia

Mbappé entrou a matar neste Mundial e leva quatro golos em dois jogos - Foto: IMAGO

Continuando, seguimos até ao francês Kylian Mbappé, um dos primeiros a ditar as regras desta simbiose perfeita. A seleção gaulesa entrou na prova sob o habitual e pesado escrutínio mediático, mas o camisola 10 dos Bleus rapidamente silenciou os céticos com exibições imperiais. O astro francês tem sido o dínamo ofensivo da sua equipa, somando quatro golos, dois diante do Iraque e outros dois frente ao Senegal.

Mbappé já não se limita a aproveitar o espaço em transições velozes; ele assumiu a responsabilidade de rasgar blocos baixos e compactos. O seu golo mais marcante neste arranque de torneio nasceu de uma diagonal curta e fulminante, após passe de Olise, seguida de um remate seco e indefensável ao ângulo superior esquerdo, desbloqueando um nulo diante do Iraque que parecia destinado a arrastar-se. Já a sua capacidade quase sobrenatural de atrair dois ou três defesas contrários tem libertado corredores vitais para a segunda linha francesa faturar.

Haaland, a máquina goleadora, já acertou quatro vezes nas redes - Foto: IMAGO

Continuamos esta viagem pelas estrelas, agora com paragem na Noruega, onde a força bruta da natureza se faz sentir nos pés e cabeça de Erling Haaland. Havia uma expectativa monumental para perceber como os noruegueses e o seu temível andróide do golo se comportariam no maior palco do planeta e a resposta foi dada com eficácia cirúrgica; contas feitas, são já quatro os golos do atacante do Manchester City nas primeiras duas rondas.

Num jogo de relevante importância, diante da Coreia do Sul, Haaland assinou uma obra de arte que define na perfeição o seu estilo de jogo. Após um passe longo e tenso, o avançado aguentou o violento impacto físico do defesa central, manteve o equilíbrio de forma impressionante e finalizou de primeira, com o seu pé esquerdo, sem qualquer hipótese de defesa, ajudando a garantir a vitória por 2-1. Haaland é ouro, platina e diamante na seleção norueguesa, transformando meias-oportunidades em golos que valem três pontos preciosos.

Aí está Ronaldo, aos 41 anos, a bisar no segundo jogo de Portugal no Mundial - Foto: IMAGO

E, finalmente, Ronaldo… Dos supercraques de duas gerações distintas (Messi e Ronaldo - Haaland e Mbappé), o capitão de Portugal é o mais velho (41 anos) e foi também o último a chegar ao Mundial. Mas fê-lo com estrondo com dois golos diante do Uzbequistão, dois instantes (a que se junta a permissão para Nuno Mendes marcar o livre que resultou no 2-0) que o levam a ser, na elite de supercraques de toda a história, o único que marcou em seis Mundiais.

Neste lote não podia faltar, pois claro, Lamine Yamal. Depois de ter sido poupado e lançado apenas na reta final do nulo na estreia frente a Cabo Verde devido a queixas musculares, Yamal agarrou a titularidade frente à Arábia Saudita e precisou de apenas dez minutos para fuzilar as redes. Numa exibição de luxo em Atlanta, o jovem prodígio abriu o caminho para a goleada espanhola por 4-0, carimbando com classe o seu primeiro remate certeiro na competição e libertando a vertigem ofensiva que faltava à La Roja.

Lamine Yamal marcou aos 18 anos e 343 dias pela Espanha no Mundial 2026 - Foto: Imago
Lamine Yamal marcou aos 18 anos e 343 dias pela Espanha no Mundial 2026 - Foto: Imago

Com este golo solitário — mas carregado de simbolismo —, o camisola 19 espanhol fixou a sua marca nos livros de ouro da FIFA ao tornar-se o oitavo marcador mais jovem de sempre na história dos Mundiais, com apenas 18 anos e 343 dias. Mais do que isso, ao inaugurar o marcador, Yamal tornou-se o único atleta a conseguir tal proeza numa idade tão precoce desde que um tal de Pelé o fez pelo Brasil em 1958, deixando claro que a sua viagem pelos relvados americanos não é uma mera etapa de crescimento, mas sim a afirmação definitiva de um génio que já joga de igual para igual com a eternidade.

A análise mais profunda a este arranque de competição revela que o impacto destas superestrelas vai muito além dos números frios das estatísticas. Ao contrário de edições anteriores, onde os grandes nomes brilhavam essencialmente em goleadas fáceis, neste Mundial os golos destes craques têm sido decisivos, inaugurando marcadores ou fixando vitórias tangenciais.

A grande mesa do futebol mundial está posta e os reis do jogo já estão a reclamar o trono. Este torneio não pertence aos laboratórios; pertence aos artistas que decidem o destino de um país num palmo de terreno. E ainda bem!

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