Como o ambiente influencia os resultados
ESTAMOS a caminhar para o fim da época desportiva. Nesta fase de decisões todos os pormenores contam. Aqueles que se mantiverem mais unidos, que souberem sofrer em conjunto e os que conseguirem gerir melhor a ansiedade, pressão e motivação, estarão mais perto do sucesso.
AMBIENTE NO GIUSEPPE MEAZZA
OBenfica deslocou-se a Milão com naturais expectativas de poder dar a volta a um resultado negativo de dois golos e alcançar aquilo que não consegue há mais de 30 anos, uma meia-final da melhor competição de clubes. A missão era complicada por vários motivos: em primeiro lugar, porque a equipa encarnada estava no pior momento da época, com três derrotas consecutivas. Numa fase mais avançada da Liga dos Campeões em que as equipas portuguesas, por norma, têm menos argumentos do que os rivais, para se obter sucesso, os índices competitivos têm de estar nos limites. Algo que não aconteceu com o Benfica. Em segundo lugar, pela frente encontrou uma equipa que também não respirava muita confiança, mas que se agarrou a esta competição como uma tábua de salvação, para a época negativa que está a realizar. Se coletivamente nem tudo é perfeito no Inter, em termos individuais, Simone Inzaghi tem muitas e boas soluções, seja para escolher um onze ou para mudar o rumo dos acontecimentos dentro dos 90 minutos. O terceiro motivo que teve influência no resultado, foi o facto do jogo decisivo ter sido no Giuseppe Meazza, estádio do Inter. Apesar de parecer insignificante, a realidade é que o ambiente que se viveu no estádio, ao vivo, foi qualquer coisa de arrepiante. Um estádio à antiga, com capacidade para 75 mil adeptos, dos quais 72 mil eram apoiantes da equipa da casa e que não se calaram um único minuto. A preparação do apoio à equipa do Inter foi pensada ao pormenor. Motivação, adrenalina, o estádio a abanar quando todos começavam a saltar nas bancadas, algo a que só tive oportunidade de assistir no velhinho Estádio da Luz. Os adeptos do Inter perceberam a oportunidade que tinham em mãos e fizeram questão de ser, como se diz na gíria futebolística, o décimo segundo jogador. Entraram em jogo, empurraram o clube quando sentiram que os jogadores da equipa italiana começavam a desconfiar de si mesmos e ajudaram a alcançar mais uma meia-final de uma grande competição, onde vão encontrar o rival de Milão. Do lado do Benfica, no estádio, percebeu-se que houve alguns jogadores que sentiram muito a pressão do ambiente ao seu redor. Talvez por isso, não tenham conseguido demonstrar o seu valor num jogo de grande exigência. Estes são os jogos em que se percebe se os atletas estão preparados, ou têm capacidade, para jogar num nível mais elevado, ou não.
COMPORTAMENTO INACEITÁVEL
E M 10 dias, os cerca de 3 mil adeptos encarnados passaram de uma fase de euforia para uma depressão. Com a noção da realidade, estavam menos crentes na passagem da eliminatória, mas mesmo assim não deixaram de marcar presença, apoiando e fazendo-se sentir, apesar de estarem em clara desvantagem. Houve, porém, um momento que marcou o jogo, pela negativa, fora do relvado. Um pequeno número de adeptos, sem motivo aparente, atirou tochas para o setor onde estavam os simpatizantes do Inter, fazendo com que as bancadas, em uníssono, assobiassem e se virassem contra aquela atitude que não pode ter lugar num estádio de futebol. Tenho a certeza que dos 3 mil adeptos que estavam no estádio, 2991 ficaram envergonhados e irritados com o comportamento de nove que colocaram em causa a integridade física dos adeptos do Inter. Não tenho dúvidas de que a UEFA irá aplicar um castigo exemplar para que estes comportamentos não voltem a acontecer.
GERIR AMBIENTE NO BALNEÁRIO
BENFICA e SPORTING foram eliminados das competições europeias. Aquando do sorteio, tinham expectativas diferente. O Benfica vivia um estado de graça, e olhava para o Inter como um adversário acessível, já o Sporting, depois de ter ultrapassado o Arsenal, sentia que podia vencer qualquer rival, mas a Juventus seria mais um adversário de grande dificuldade. A realidade é que, de uma forma clara, o Benfica não conseguiu disputar a eliminatória uma vez que o Inter controlou as operações nas duas mãos. No caso do Sporting, o cenário foi diferente. Em função das exibições, se tivesse sido eficaz, hoje poderíamos estar a falar de uma passagem às meias-finais da Liga Europa. Com o fim da linha nas competições europeias, a questão que se coloca é: e agora, como vão os dois treinadores gerir a motivação, confiança e ansiedade dos jogadores? Roger Schmidt (RS) e Rúben Amorim (RA) têm missões diferentes. O treinador do Benfica deve tentar retirar alguns pontos positivos do jogo de Milão. A forma como a equipa conseguiu recuperar de duas desvantagens; os jogadores que entraram vindos do banco de suplentes acrescentaram valor à equipa e acabaram por ser determinantes (ex. Musa); o Benfica evitou a quarta derrota consecutiva, algo que só aconteceu por duas vezes na sua história; apesar do futebol praticado estar longe da dinâmica dos primeiros tempos de RS, a verdade é que o clube da Luz marcou três golos ao Inter e num contexto de Liga dos Campeões. Estes deverão ser os pontos em que RS terá de pegar e passar aos seus jogadores, tentando com isso reforçar a confiança perdida desde o jogo com o FC Porto. O objetivo será encarar as próximas seis batalhas com outra confiança e com um objetivo bem definido: vencer o Campeonato Nacional. Já Ruben Amorim terá de ser mais criativo. O momento do Sporting nas competições internas não é o melhor. O Sporting está a sete pontos do terceiro classificado quando faltam apenas 18 em disputa. A motivação para os jogos que faltam não será a melhor, uma vez que os objetivos que foram definidos no início da época caíram todos por terra. Assim, RA tem a difícil missão de manter todo o plantel focado e crente de que ainda é possível chegar ao tão desejado terceiro lugar, pelo menos enquanto matematicamente for possível.
SABER COMUNICAR
Acomunicação é fundamental em todas áreas. Quem melhor perceber a forma como se deve posicionar e interagir com o meio que o envolve, chegará mais longe. Os clubes não fogem à regra. O que é estranho é que em pleno século XXI, com o mundo global, continuemos a assistir a posicionamentos que já não deviam estar presentes no mundo do desporto. O futebol é cada vez mais um espetáculo que deve ser potenciado. Quem melhor do que os protagonistas para o poder promover? Os departamentos de comunicação dos clubes não foram criados para restringir a informação ou para criar grupos de guerrilha, mas sim para fazerem a ponte entre as instituições que representam e os meios de comunicação social, de forma a valorizarem essas mesmas instituições. A sua missão não deveria passar por criar obstáculos ou escolher quem pode, ou não, fazer perguntas. Cada interveniente está no direito de perguntar o que pretender e, do outro lado, os protagonistas podem responder, ou não, às questões colocadas. Em Portugal parece que ganha força a ideia de que: se dás uma informação que eu não gosto sobre o clube que represento, então não te vou deixar fazer perguntas ou vou dificultar-te o acesso à informação. No limite, enquanto não perceberem que a comunicação social é fundamental para projetar as marcas e os ativos dos clubes, todos irão sair a perder: os clubes porque perdem valor e adotam estratégias do passado, e que não fazem sentido no atual contexto global; os meios de comunicação porque ficam com a informação condicionada e, no limite, para a obterem até podem ter de perder independência; os protagonistas, porque não se vão conseguir aproximar dos adeptos nem criar mais empatia que os pode favorecer, tanto no que diz respeito à imagem como no apoio que sentem nos estádios. Afinal quem é que ganha com este tipo de forma de estar e atuar? Basta ler o artigo que publiquei no dia 2 de abril - Os parasitas e facilitadores no futebol, para percebermos quem tira proveito deste contexto que não nos permite dar um passo em frente no futebol português.
A VALORIZAR
José Mourinho. Grande jogo frente a uma bela equipa do Feyenoord. Chegou à 12.ª meia-final de uma competição europeia. Um jogo épico. Há equipas que nos momentos de decisão tremem. Mourinho tem o dom de saber gerir e motivar os jogadores nos momentos decisivos. Está a fazer mais uma grande época.
Rafael Leão. Nos dois jogos com o Nápoles foi determinante. Fez duas jogadas, uma em cada jogo, que correram o mundo, com uma delas a terminar no golo decisivo de Giroud. Técnica, força, velocidade, potência e descontração. Parece que faz tudo sem esforço. Como referiu Schweinsteiger, se Rafael Leão conseguir ser consistente nas exibições, será um dos top três do mundo.
Diogo Jota. Esteve lesionado uma grande parte da época. Regressou e depois de ganhar ritmo começa a demonstrar o seu valor e importância. Nos últimos dois jogos marcou quatro golos.
A desvalorizar
Manchester United. Depois do empate a dois em casa com o Sevilha, esta semana foi eliminado por 0-3 no terreno do adversário. Com um plantel recheado de qualidade, o Man. United voltou a desiludir no momento da decisão.