Como é diferente o futebol em Portugal

Todos sabem que há sempre um TAD perto de si, sempre pronto a aceitar providências cautelares e a resolver os casos em tempo inútil

AJustiça é importante de mais para ser apenas discutida pelos homens de leis e por políticos. Bem sei que há demasiadas opiniões de quem não tem uma ideia na cabeça, algumas com lugar cativo em programas de televisão, rádio e jornais, o que é próprio de um povo que se contenta com lugares comuns e especulações insensatas, mas o caso da justiça importa a todos nós. É como não saber muito de políticas de habitação, mas saber que não se tem  uma casa para morar, porque são poucas e, sobretudo, caras de mais. 

No que respeita à justiça, há uma perceção predominante. A boa justiça custa muito dinheiro, tem notórias vantagens se o estatuto social for apreciável e, sobretudo, se houver interesse na demora das decisões.

O sistema está feito - dizem os tais homens de leis - para garantir, até ao limite, a defesa dos cidadãos. Porém demasiada gente entende que está feito para garantir, a quem pode pagar aos melhores escritórios de advogados, a fuga às responsabilidades. 

Ora, o lóbi legalista e especialista em direito corporativo conseguiu transviar para o desporto e, em particular, para o futebol, o mesmo sistema de proteção na defesa dos acusados. Há anos que a justiça no futebol estava decidida à segunda feira e logo publicada para efeitos de conhecimento público. Agora, há demasiadas comissões de inquérito que procuram produzir provas, ouvindo intermináveis testemunhos de partes interessadas, passando por cima, ou pelo menos desvalorizando, os testemunhos essenciais das autoridades - polícias, árbitros, delegados, imagens televisivas ou vídeos - e contabilizando, apesar da frágil credibilidade, depoimentos de figuras devidamente preparadas e encenadas para dizerem o que a alguém, interessa que digam.

Além de tudo isto, ainda há o famoso Tribunal Arbitral do Desporto. Não é um órgão desnecessário, de todo, mas há que enquadrar o seu plano de ação de forma a que não se torne, como se está a tornar, num empecilho ou num bloqueador da ação de justiça em casos que não merecem particular relevância e que se integram apenas em ações evidentes de atitudes e comportamentos de indisciplina, muitas vezes, repetidas de forma quase provocadora.

Para esta próxima final da Supertaça, Benfica e FC Porto já tiraram partido desta bagunça justiceira do futebol português. Um belo exemplo de início de época e de tudo o que estará para vir, num campeonato mais decisivo em termos de futuro do que os anteriores, porque o principal objetivo dos grandes é cortar a meta em primeiro lugar na corrida da Liga dos cem milhões.

Com a brandura dos costumes em que está envolvida, atualmente, a justiça do futebol português, perdida em recursos bacocos, em obstáculos regulados, em desvergonhas várias, não admirará que a pressão exercida sobre os árbitros durante os jogos do campeonato se torne num espetáculo confrangedor e terceiro mundista. Vamos ver, cada vez com mais frequência, treinadores, adjuntos, médicos, roupeiros, jogadores suplentes e dirigentes de braçadeira oficial    a criarem um caos conveniente nas decisões que contrariam as suas vontades. Todos eles sabem que há sempre um TAD perto de si, capaz de aceitar providências cautelares como quem aceita tickets de supermercado, e julgar os casos em tempo inútil.

A primeira conclusão que mesmo os que não percebem nada de leis podem tirar é que sem correrem risco de serem tecnicamente desmentidos é que é diferente o futebol em Portugal. E é diferente porque os clubes o querem diferente na qualidade criativa das manhas e dos seus vícios tradicionais.


DENTRO DA ÁREA
Viktor Gyokeres muda o Sporting

Pode um só jogador mudar uma equipa? A resposta é afirmativa e o Sporting poderá vir a ser um exemplo muito claro de que tal pode acontecer. A perseverança de Rúben Amorim e de Frederico Varanda na escolha de Viktor Gyokeres pode trazer significativas e importantes mudanças na equipa do Sporting que em processo ofensivo passa a ter um futebol mais profundo, dinâmico e capaz de libertar jogadores como Pedro Gonçalves na sua veia goleadora. Robusto, móvel, com paixão pelo jogo e pelo golo, Gyokeres é mesmo reforço.


FORA DA ÁREA
Papa Francisco em Portugal

O Papa Francisco estará na próxima semana em Portugal para presidir às Jornadas Mundiais da Juventude. É muito mais do que um acontecimento religioso, é muito mais do que um acontecimento com reflexos óbvios na economia. Trata-se de uma visita de um Homem especial que luta, com coragem, por uma igreja mais próxima da mensagem de Jesus Cristo, aquele que se condenou à morte quando, há mais de dois mil anos, disse que um imperador romano valia tanto como qualquer escravo, porque era de Homens que, afinal, se tratava.