Festejos de Laura Luís - Foto: Valadares Gaia
Festejos de Laura Luís - Foto: Valadares Gaia

«Começava a ficar chato estarem sempre as mesmas nas finais»

Laura Luís é porta-voz da ambição do Valadares na antecâmara da final da Taça da Liga. O passado em Braga é calmante para um presente em Vila Nova de Gaia dominado pelo futuro do futebol português.

Valadares Gaia e Torreense fintaram o domínio verde e vermelho nas provas nacionais e marcaram encontro inédito na final da Taça da Liga. Poucas protagonistas do duelo de sábado (19h) têm tanta experiência nos grandes palcos como Laura Luís. A internacional portuguesa em 53 ocasiões, a avançada de 33 anos levantou todos os quatro títulos nacionais possíveis em terras lusas ao serviço do SC Braga entre 2017 e 2023.

Laura Luís destacou o peso da idade, relativizou o sonho europeu e atribuiu favoritismo ao Torreense na final, em entrevista a A BOLA.

— Uma final entre Valadares e Torreense reflete o crescimento do futebol português?

— É positivo e mostra evolução. Não digo que os ditos grandes estão piores, penso é que todos os outros estão melhores, temos um campeonato muito mais competitivo. Já vimos o Torreense a ganhar o Benfica na Supertaça e na final da Taça de Portugal. Este ano temos um FC Porto, na segunda divisão, contra o Benfica na final. Os clubes estão cada vez a apostar mais no futebol feminino e isso traz muito mais competitividade. Estarem sempre os mesmos nas finais começava a ficar um bocadinho chato. Qualquer jogo que o Benfica possa fazer na Liga BPI não é certo que vá ganhar. Isso também é fruto do investimento da Federação e do apoio que tem havido no futebol feminino. O campeonato português no geral é bom.

— A final poderá ter menos visibilidade, ainda assim?

— Um Benfica-Sporting vai trazer sempre mais adeptos, isso é óbvio. No entanto acho que por ser tão histórico para nós como para o Torreense vamos ter muitos adeptos. Tanto nós como o Torreense estamos a disponibilizar autocarros e tudo mais. Estou à espera de muita gente.

— A redução de 12 para 10 equipas na Liga foi benéfico para a competitividade da Liga?

— Não sei se é polémico ou não, mas sou contra a diminuição das equipas. No mínimo deveriam ser 12. O caminho deveria ser acrescentar e não retirar equipas, dando apoios para que estejam no mesmo nível. Só 10 não acho que seja bom. Na cabeça de quem decidiu o objetivo seria haver mais competitividade. Mas temos equipas na segunda divisão com qualidade para se baterem com pelo menos com equipas do meio da tabela para baixo na primeira. Para haver evolução temos de expandir.

Laura Luís ao serviço do Valadares contra o Benfica - Foto: Valadares Gaia

— Como é que analisa a equipa do Torreense e o encaixe com o Valadares?

— Tive o privilégio de ter sido treinada pelo Gonçalo Nunes [no SC Braga em 2022/23]. É um treinador tacticamente muito forte e que tem mesmo uma análise profunda às equipas que enfrenta. Vai muito bem disputado. O Torreense tem mais títulos que nós, é o favorito, mas vai ser bem disputado. Somos duas equipas muito parecidas. O Torreense irá fazer uma análise muito profunda à nossa equipa e tentar neutralizar mesmo os nossos pontos mais fortes. Somos duas equipas fortes fisicamente.

— Ambas as equipas estão na luta pelos lugares de Champions...

— Sinceramente não estamos coladas a esse objetivo. É algo com que podemos sonhar porque poderá acontecer, no entanto, não queremos criar pressão. O nosso principal objetivo é ganhar semana após semana. No final vamos fazer as contas. Não é um objetivo, é um sonho.

— Já ganhou todos os títulos em Portugal. A experiência é benéfica ou eleva a resposabilidade antes da primeira final do Valadares desde 2019?

— Siinto um peso um bocadinho diferente das minhas colegas porque já estive em várias finais, até com a idade delas, e sei como é que na altura fiquei, o nervosismo. A forma de lidar é completamente diferente. Sendo já experiente nesse ramo, o que quero para esta final é transmitir calma às minhas colegas, principalmente às mais novas também, porque temos muitas jogadoras que já vivem o clube há muito mais tempo. Vai ser um jogo histórico para o Valadares e pode atingir o segundo título de uma competição da Federação. O que eu mais quero mesmo é tentar ajudá-las a estar confiantes e não terem aquela pressão excessiva, isso não nos leva a lado nenhum.Temos uma equipa muito versátil, aos 34 anos arrisco-me a dizer que é dos melhores grupos que eu já tive.

— É uma das três jogadoras com mais de 30 anos do plantel e a segunda mais velha…

— Não sinto a idade que tenho e isso deve-se muito a elas, porque trazem frescura. Procuro aprender, mas também ajudá-las em tudo o que seja preciso. E pela minha experiência, e mesmo dentro de campo, tentar que... lá está, não é propriamente a voz de comando, isso nós temos as nossas capitãs. Não me sinto uma voz de comando, mas sinto que também estou a desfrutar do momento e a aprender com elas, que tanto me ensinam ainda hoje, sem dúvida. Este ano vejo as coisas de forma um pouco diferente. Esperava jogar muito mais, só que temos uma equipa muito competitiva. O treinador [Zé Nando] dá muitas oportunidades. Temos mesmo muita qualidade. Talvez a idade possa pesar nas decisões, mas que posso dar mais. Acho que ainda não estou assim tão acabada.

— Como é que foi trocar o Albergaria, que desceu, pelo Valadares que luta pela Champions?

— O percurso da minha carreira não é propriamente o habitual, mas foi consoante o que foi aparecendo no momento. Já há alguns anos que o Valadares tinha algum interesse em mim. Mesmo tendo descido de divisão, viram que a lesão já estava ultrapassada e voltaram a fazer uma proposta. Sempre achei o clube interessante, estão sempre atrás dos dois primeiros e são muito profissionais. Arrisco-me a dizer que se o Valadares tivesse as condições que outros clubes têm, estava ainda mais acima.