Jorge Jesus é uma decisão desportiva, estrutural e política — Foto: Maycon Quiozini
Jorge Jesus é uma decisão desportiva, estrutural e política — Foto: Maycon Quiozini

Tudo e todos precisam de estratégia

Estratégia é definir uma visão para 5 a 10 anos e garantir que as decisões do dia a dia caminham todas na mesma direção. 'O lado invisível' é o espaço de opinião em A BOLA de Rui Lança, diretor executivo de outros desportos do Al Ittihad, da Arábia Saudita

A palavra estratégia tornou-se uma das mais utilizadas no desporto, embora uma das menos compreendidas. Surge em campanhas eleitorais, apresentações institucionais e até de treinadores.

Usando como exemplo a recente nomeação de Jorge Jesus para selecionador nacional, por si só, esta decisão não representa uma nova estratégia, por muito mediática que possa ser. Representa por si só e apenas a escolha de um treinador. Pode fazer parte de uma estratégia mais ampla, mas isso só Pedro Proença e os seus pares saberão. Para o comum dos mortais, será apenas uma especulação.

Confundimos demasiadas vezes uma decisão com uma estratégia. Contratar um treinador, mudar um diretor desportivo ou apostar na formação pode estar alinhado com uma estratégia, mas nenhuma dessas decisões, isoladamente, constitui uma estratégia. Estratégia é outra coisa.

É definir uma visão para 5 a 10 anos e garantir que as decisões do dia a dia caminham todas na mesma direção, estão alinhadas e vão ao encontro do que a cultura organizacional fomenta diariamente. É alterar modelos de funcionamento, processos, o recrutamento e a forma como a organização toma decisões. Não deve depender apenas de uma pessoa e muito menos de um treinador.

Jorge Jesus é, naturalmente, uma decisão desportiva, estrutural e política. O seu currículo, experiência e personalidade são inquestionáveis, tem uma forma peculiar de contagiar quem o rodeia (que neste caso, serão todos os portugueses) e é legítimo que o presidente da FPF pretenda ter um novo selecionador. Mas a verdadeira questão não deverá ser quem ocupa o cargo. É perceber se esta decisão vai ao encontro da visão para o futebol português que sobreviva ao mandato do presidente e do novo selecionador. Só isso será uma verdadeira estratégia.

Qualquer estratégia é medida pela consistência e coerência das decisões. E tal como num objetivo demasiado estruturante, é aí que a maioria das pessoas e das organizações falha.

Por último, este caso, que pode ser transversal para muitos outros casos no desporto, dá-nos três ideias-chave: Jorge Jesus, como poucos, tem sabido ter e gerir a sua estratégia desportiva e comunicacional, honra seja feita. Em todas as organizações, a estratégia para ter o mínimo de aspiração a ter sucesso deve ser abarcada como de todos ou quase de todos. Por último, para quem lidera, não há obrigatoriedade de incluir todos nas decisões estratégicas, mas o compromisso de todos ganha-se por alinhamento, inclusão e cultura organizacional.

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