Cláudio Braga abraçado ao seu maior fã... o pai - Foto: IMAGO
Cláudio Braga abraçado ao seu maior fã... o pai - Foto: IMAGO

Cláudio Braga: «Nem tomámos banho… e depois toda a gente começou a chorar»

Até há um ano, o avançado não sabia o que era jogar numa primeira liga. Mla imaginava o português o sonho que estava prestes a viver, num dos campeonatos mais antigos e com mais tradição da história do futebol

Foi no sossego de Oliveira do Douro (Vila Nova de Gaia) que a A BOLA esteve à conversa com o melhor jogador do campeonato escocês.

— Se há um ano lhe dissessem que ia ser o melhor jogador da liga escocesa, o que respondia?

— Que eram malucos [risos]. Fui para o Hearts para tentar jogar e nunca pensei que ia ser o melhor jogador da liga, nem de perto. Até porque, tirando do Celtic e Rangers, são pouquíssimos os jogadores que conseguiram esse feito. Foi uma coisa que nunca esperava. 

— Como foi o processo de ida para o Hearts?

— Soube do interesse em dezembro [de 2024], quando estava na Noruega. Acabei por ir só em junho [de 2025], mas, no futebol, até haver o contrato, o interesse é só interesse… Eles queriam que fosse logo e eu também queria ter ido. Já tinha tido várias entrevistas, já conhecia o treinador, mas não aconteceu nada e fiquei um bocadinho ansioso...

— Estava com um mau pressentimento?

— Eles estavam mal, a meio da época [de 2024/25]. Eu queria muito ir, mas, ao mesmo tempo, não sabia o que ia acontecer. Não sabia se era a altura certa ou não. A verdade é que acabou por não ser. A altura certa foi mesmo em junho, porque, se calhar, se fosse a meio da época anterior, provavelmente, não ia dar tão certo. A minha interação com os jogadores também acredito que não fosse ser tão boa, porque o ambiente fica um bocado chato quando a equipa não está bem… Por isso, ainda bem que aconteceu assim.

— A verdade é que neste ano correu quase tudo na perfeição, menos aquele último jogo do título no Celtic Park… Como foi?

— O sentimento no final foi horrível, mas é isso mesmo: foi quase tudo perfeito. Ganhámos sempre, depois de perder ou empatar, ou seja, nunca tivemos dois empates ou duas derrotas seguidas, mas foi horrível estarmos tão perto de agarrar a taça e nos últimos segundos vermos tudo a mudar e o Celtic a festejar… A época não deixou de ser histórica e incrível, mas aquele último pedaço era o mais importante.

— Nesse último jogo, já depois de ter sido distinguido como o jogador do ano na Escócia, acaba por ficar no banco. Foi dos poucos jogos em que isso aconteceu. Porquê? 

— Foi meio-meio, por motivos físicos e táticos. Eu tinha uma dor há algum tempo e o treinador decidiu meter o outro ponta de lança e depois substituir-me quando os centrais já estivessem cansados, pois pensava que o outro avançado podia dar mais fisicamente no início e depois eu entrava mais fresco. Foi um bocadinho dos dois, mas, ao mesmo tempo, eu sentia-me bem e queria muito jogar. Era o jogo mais importante da minha vida. Mas foi decisão do treinador e está tudo bem. É óbvio que, sendo o jogo mais importante da minha vida e depois de ter jogado quase os jogos todos, ficou aquele sentimento amargo de não ter conseguido ajudar a equipa.

— O que é que sentiram, juntamente com os adeptos que se deslocaram a Glasgow?

— Quase nem estivemos com eles em Glasgow. Saímos logo do campo, porque os adeptos do Celtic fizeram invasão. Fomos logo para o balneário. Não houve palestra, não nos vestimos, nem tomámos banho, saímos logo para o autocarro, e só depois fomos recebidos por muitos milhares de pessoas, no Tynecastle Park [estádio do Hearts]. Aí é que bateu mais, quando saímos do autocarro começámos todos a chorar. Sentimos que desiludimos as pessoas, apesar de nunca ter sido algo que o clube pensasse. Depois de estar tão perto e perdermos, ver tanta gente lá, a sorrir, a apoiar, a cantar e a receber-nos daquela maneira… Até me estou a arrepiar. Foi mesmo muito bom. Não era o que queríamos, mas orgulhámos a maior parte dos adeptos.

— A verdade é que vão jogar a Champions League 20 anos depois. Quais são as expectativas? 

— Vou cumprir um dos meus maiores sonhos. Saber agora que é possível jogar é incrível, mesmo sendo uma pré-eliminatória… Vamos defrontar uma equipa forte, o Sturm Graz, mas sinto que, ao mesmo tempo, em Tynecastle somos muito fortes. Provámos isso no ano passado. Já perdemos alguns jogadores, é verdade, mas estamos a reforçar-nos e acho que em nossa casa pode acontecer tudo. Fora, temos de dar o nosso melhor, mas, acima de tudo, temos de aproveitar a oportunidade para tentar brilhar e levar este clube à fase liga.

Cláudio Braga é muito acarinhado pelos adeptos escoceses - Foto: IMAGO

— Frisou aí o ambiente de Tynecastle. Como são os estádios na Escócia no geral?

— Sempre cheios. O ambiente é fora do normal. Nunca vivi nada parecido. Vibra-se em todos os momentos do jogo, e não é só uma parte da bancada a vibrar, é toda a gente. É mesmo uma coisa fora do normal em todos os estádios, com todas as equipas. É óbvio que há equipas que têm mais adeptos do que outras e eu tive muita sorte porque o Hearts é das que tem mais. É completamente fora do normal a atmosfera em Tynecastle.

— Tem alguma história «fora do normal» que tenha vivido num desses estádios?

— Individualmente, a que fiquei mais constrangido, mas de forma positiva, foi quando o treinador me meteu no banco e os adeptos começaram a cantar a minha música logo quando começou o jogo. E eu só pensava: ‘foquem só no jogo, por favor’ [risos]. O carinho dos adeptos foi uma coisa que me marcou muito. Acho que é uma coisa que custa a ganhar em qualquer equipa, ainda mais numa como o Hearts. Vou levar isto para a vida.

— E na cidade? É abordado com frequência?

— Sim, acontece com bastante frequência, mas eu não sou muito de sair de casa, especialmente com a época que estávamos a ter, sou mais de casa-treino e treino-casa.

— Alguma história caricata que tenha acontecido com adeptos na rua?

— Toda a gente foi super tranquila. Mesmo os adeptos do Hibs [Hibernian], que é o nosso maior rival, pediam fotos e depois, claro, gozavam e brincavam um bocado. Por exemplo, quando perdíamos eu nem saía à rua, nunca na vida, também eram poucas as vezes [risos], mas toda a gente é muito simpática comigo. Mesmo os adeptos de equipas rivais: Celtic, Rangers, adeptos do Hibs, por exemplo, que, à partida, não, iriam ter uma interação muito boa. É como um Benfica-Sporting [risos], mas acabei por ser abordado sempre de forma positiva e isso também me enche de alegria.

— Como é o seu dia a dia na Escócia?

— Quando temos treino, levanto-me por volta das 8 da manhã, faço um pré-aquecimento no ginásio do clube e vou tomar o pequeno-almoço, que é incrível. Depois, vamos para o balneário, fazemos pré-ativação e vamos para o treino. Normalmente, faço ginásio depois do treino, almoço e segue-se algum tratamento que precise de fazer com o fisioterapeuta, além do banho de gelo. Por fim, vou para casa, moro a dez minutos do centro de Edimburgo. Quando a minha família vai à Escócia, saio mais, porque quero aproveitar com eles. A cidade é incrível, é uma das minhas favoritas no que toca à beleza. Depois também conheci um casal de portugueses em Edimburgo e ficámos muito amigos. Curiosamente, também são de Vila Nova de Gaia. O  meu primo também viveu comigo dois meses, foi fazer um estágio. Aí, a rotina mudou um bocadinho. Acabámos por fazer mais jantares e conviver.

Entrevista na íntegra

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