CEO da Visma-Lease a Bike, Richard Plugge, comenda os temas delicados do ciclismo

Chefe da Visma esclarece abandono de Simon Yates e... muito mais sobre ciclismo

Richard Plugge comenta retirada abrupta do vencedor do Giro 2025, a pressão que os grandes desportistas, «não só os ciclistas, têm de saber lidar», e alerta para o «declínio» da modalidade se a UCI não tomar medidas urgentes

A Visma-Lease a Bike chegou ao dia de imprensa ainda a assimilar a súbita retirada de Simon Yates. O CEO da equipa neerlandesa, Richard Plugge, esclareceu que não houve diferendo ou polémica na origem da decisão do corredor britânico, e se qualquer dos seus ciclistas disser que quer sair, os dirigentes aceitam-no, ainda que, conforme reconhece, no caso de Simon Yates tenha deixado uma lacuna no plantel que não pode ser preenchida a curto prazo.

«Se alguém diz: ‘Quero sair’, é uma escolha pessoal. É o que é, e temos de aceitar. Claro que teria sido melhor se ele [Yates] nos tivesse ligado em setembro ou algo assim. Mas foi uma boa conversa e a mensagem foi clara», revelou Richard Plugge, em declarações ao site Cyclinguptodate. 

Simon Yates ganhou o Giro no ano passado. IMAGO
Simon Yates ganhou o Giro 2025

O responsável neerlandês assegura igualmente que a Visma não substituirá Simon Yates no imediato: «Não, de momento, não. Todos acabaram de começar nas suas equipas. Não há muitos ciclistas no mercado, especialmente não com nível comparável. Assim, lidamos com o que temos, que é um grupo muito bom. Agora cabe aos estreantes elevar o nível, talvez um pouco mais cedo do que o esperado». 

Equipa Visma-Lease a Bike

O chefe da Visma explicou a perda de outros dois ciclistas importantes: «Queríamos mudar. Queríamos dar uma renovada à equipa. Foi pena o Olav [Kooij] e o Tiesj [Benoot] terem saído da equipa, tiveram boas oportunidades noutras equipas, mas com os outros queríamos mudar. Queríamos um novo grupo, a próxima geração da equipa».

Richard Plugge regressou ao mesmo tema que tem vindo a defender nos últimos anos: os orçamentos estão a aumentar, os níveis salariais estão a aumentar e a Visma precisa de se manter dentro daquilo a que chamou o «alcance» das equipas mais ricas, mesmo que o seu modelo não seja comprar superestrelas já feitas aos rivais.

Rebateu também veementemente as sugestões do MPCC (Movimento por um Ciclismo Credível) sobre o uso de analgésicos, descartando a ideia de um problema mais abrangente. Mas reconheceu a pressão mais ampla que os atletas modernos sentem, apontando para as redes sociais e o ruído constante em torno de figuras públicas, ao mesmo tempo que defendeu que cada história de reforma é diferente e não pode ser generalizada.

Richard Plugge felicita Wout van Aert após a vitória do belga na etapa de Paris (Montmartre) do Tour 2025

«Há muita pressão. Talvez esgotamento, como também nos disse Jonas, que estava quase a chegar ao limite. Não sei se é algo que nos acontece muito, mas tentamos estar atentos. Penso que fomos a primeira equipa a levar famílias para estágios em altitude, durante sete ou oito semanas. Então, tentamos cuidar disso, e acho que funciona. Mas os diferentes nomes que referiu são casos completamente diferentes. Simon Yates queria simplesmente reformar-se. E Fem [van Empel – n.d.r.: corredora da equipa feminina da Visma que se retirou sem termo devido a problemas de saúde mental] é um caso diferente de Tom Dumoulin [vencedor do Giro em 2017, que se retirou pelos mesmos motivos de saúde em 2020]. Alguns ciclistas reformam-se porque sentem que não podem viver essa vida para sempre. Mas também há muitos ciclistas que conseguem e gostam. Se ainda gosta, porquê parar?»

E acrescenta: «Acho que o desporto de alta competição é exigente. Se é ciclista, nadador, há muita pressão. Acabei de ver aquele vídeo do Beckham. É muita pressão. Sim, há muita pressão, mas também se trata da forma como se lida com ela. Não é só para ciclistas ou jogadores de futebol, a pressão sobre as pessoas com as redes sociais e todos terem uma opinião é uma coisa generalizada. Mas é muito exigente para os ciclistas, sim».

A questão central, no entanto, é o modelo de negócio. Plugge afirmou que o ciclismo «está em declínio», na direção errada e que a urgência de mudança está a aumentar, não só para as equipas, mas também para os organizadores. A sua mensagem foi clara: se a modalidade se quer manter entre as cinco mais importantes, precisa de reformas - e rapidamente.

Richard Plugge pede medidas urgentes à União Ciclista Internacional para «salvar» o ciclismo do «declínio»

«Na minha opinião, não se trata apenas das equipas. Trata-se também dos organizadores. E a UCI deveria analisar isso… Claro que existem medidas práticas que podem ser tomadas. Cabe à UCI mudar o modelo de negócios, talvez usando exemplos como a Fórmula 1. É preciso garantir que o ciclismo continue a ser um dos cinco principais desportos do mundo. Esse é o problema. No momento, estamos a perder audiência para outros desportos. Estamos a lutar entre nós dentro do ciclismo, quando deveríamos estar a lutar com o futebol e outros desportos. É assim que vejo a situação. Existem muitos exemplos melhores do que o que temos no ciclismo», defendeu Plugge.

Sobre as possibilidades para a Visma está a explorar para aumentar o orçamento estão a contratação de «mais patrocinadores e um melhor modelo de negócio», com «mais vendas de produtos», para «criar outras fontes de rendimento».

E explica: «A alimentação está a tornar-se um negócio lucrativo. Estamos sempre a falar com os nossos patrocinadores sobre como podemos crescer e aumentar o orçamento, para que nos possamos manter, como já disse, pelo menos ao alcance dos melhores. Precisamos de acompanhar o ritmo».