Chefe da Visma esclarece abandono de Simon Yates e... muito mais sobre ciclismo
A Visma-Lease a Bike chegou ao dia de imprensa ainda a assimilar a súbita retirada de Simon Yates. O CEO da equipa neerlandesa, Richard Plugge, esclareceu que não houve diferendo ou polémica na origem da decisão do corredor britânico, e se qualquer dos seus ciclistas disser que quer sair, os dirigentes aceitam-no, ainda que, conforme reconhece, no caso de Simon Yates tenha deixado uma lacuna no plantel que não pode ser preenchida a curto prazo.
«Se alguém diz: ‘Quero sair’, é uma escolha pessoal. É o que é, e temos de aceitar. Claro que teria sido melhor se ele [Yates] nos tivesse ligado em setembro ou algo assim. Mas foi uma boa conversa e a mensagem foi clara», revelou Richard Plugge, em declarações ao site Cyclinguptodate.
O responsável neerlandês assegura igualmente que a Visma não substituirá Simon Yates no imediato: «Não, de momento, não. Todos acabaram de começar nas suas equipas. Não há muitos ciclistas no mercado, especialmente não com nível comparável. Assim, lidamos com o que temos, que é um grupo muito bom. Agora cabe aos estreantes elevar o nível, talvez um pouco mais cedo do que o esperado».
O chefe da Visma explicou a perda de outros dois ciclistas importantes: «Queríamos mudar. Queríamos dar uma renovada à equipa. Foi pena o Olav [Kooij] e o Tiesj [Benoot] terem saído da equipa, tiveram boas oportunidades noutras equipas, mas com os outros queríamos mudar. Queríamos um novo grupo, a próxima geração da equipa».
Richard Plugge regressou ao mesmo tema que tem vindo a defender nos últimos anos: os orçamentos estão a aumentar, os níveis salariais estão a aumentar e a Visma precisa de se manter dentro daquilo a que chamou o «alcance» das equipas mais ricas, mesmo que o seu modelo não seja comprar superestrelas já feitas aos rivais.
Rebateu também veementemente as sugestões do MPCC (Movimento por um Ciclismo Credível) sobre o uso de analgésicos, descartando a ideia de um problema mais abrangente. Mas reconheceu a pressão mais ampla que os atletas modernos sentem, apontando para as redes sociais e o ruído constante em torno de figuras públicas, ao mesmo tempo que defendeu que cada história de reforma é diferente e não pode ser generalizada.
«Há muita pressão. Talvez esgotamento, como também nos disse Jonas, que estava quase a chegar ao limite. Não sei se é algo que nos acontece muito, mas tentamos estar atentos. Penso que fomos a primeira equipa a levar famílias para estágios em altitude, durante sete ou oito semanas. Então, tentamos cuidar disso, e acho que funciona. Mas os diferentes nomes que referiu são casos completamente diferentes. Simon Yates queria simplesmente reformar-se. E Fem [van Empel – n.d.r.: corredora da equipa feminina da Visma que se retirou sem termo devido a problemas de saúde mental] é um caso diferente de Tom Dumoulin [vencedor do Giro em 2017, que se retirou pelos mesmos motivos de saúde em 2020]. Alguns ciclistas reformam-se porque sentem que não podem viver essa vida para sempre. Mas também há muitos ciclistas que conseguem e gostam. Se ainda gosta, porquê parar?»
E acrescenta: «Acho que o desporto de alta competição é exigente. Se é ciclista, nadador, há muita pressão. Acabei de ver aquele vídeo do Beckham. É muita pressão. Sim, há muita pressão, mas também se trata da forma como se lida com ela. Não é só para ciclistas ou jogadores de futebol, a pressão sobre as pessoas com as redes sociais e todos terem uma opinião é uma coisa generalizada. Mas é muito exigente para os ciclistas, sim».
A questão central, no entanto, é o modelo de negócio. Plugge afirmou que o ciclismo «está em declínio», na direção errada e que a urgência de mudança está a aumentar, não só para as equipas, mas também para os organizadores. A sua mensagem foi clara: se a modalidade se quer manter entre as cinco mais importantes, precisa de reformas - e rapidamente.
«Na minha opinião, não se trata apenas das equipas. Trata-se também dos organizadores. E a UCI deveria analisar isso… Claro que existem medidas práticas que podem ser tomadas. Cabe à UCI mudar o modelo de negócios, talvez usando exemplos como a Fórmula 1. É preciso garantir que o ciclismo continue a ser um dos cinco principais desportos do mundo. Esse é o problema. No momento, estamos a perder audiência para outros desportos. Estamos a lutar entre nós dentro do ciclismo, quando deveríamos estar a lutar com o futebol e outros desportos. É assim que vejo a situação. Existem muitos exemplos melhores do que o que temos no ciclismo», defendeu Plugge.
Sobre as possibilidades para a Visma está a explorar para aumentar o orçamento estão a contratação de «mais patrocinadores e um melhor modelo de negócio», com «mais vendas de produtos», para «criar outras fontes de rendimento».
E explica: «A alimentação está a tornar-se um negócio lucrativo. Estamos sempre a falar com os nossos patrocinadores sobre como podemos crescer e aumentar o orçamento, para que nos possamos manter, como já disse, pelo menos ao alcance dos melhores. Precisamos de acompanhar o ritmo».