A eliminação do Benfica da Taça de Portugal, no Dragão, não foi apenas mais um jogo perdido. Foi um ponto final simbólico - Foto: Imago
A eliminação do Benfica da Taça de Portugal, no Dragão, não foi apenas mais um jogo perdido. Foi um ponto final simbólico - Foto: Imago

Benfica: quando a cabeça tem de mandar

'Crónicas de bancada' é o espaço de opinião quinzenal de Hugo Oliveira, sócio do Benfica e deputado à Assembleia da República

Há momentos numa época em que somos obrigados a fazer um exercício que custa mais do que qualquer derrota. Olhar para o clube que amamos e aceitar que o tempo da esperança imediata pode ter acabado. Não por falta de amor. Não por falta de vontade. Mas por excesso de realidade. E essa realidade, por mais que custe, acaba sempre por se impor, mesmo aos clubes grandes, mesmo aos adeptos mais resilientes.

A eliminação da Taça de Portugal no Dragão não foi apenas mais um jogo perdido. Foi um ponto final simbólico. Não porque o Benfica tenha sido inferior. Pelo contrário. Houve atitude, houve organização e, na maior parte do tempo, até superioridade. Houve uma equipa preparada para competir. Mas também houve aquilo que tem sido uma constante ao longo desta época: faltou qualidade na hora de decidir.

E quando falta qualidade, a atitude deixa de chegar. Pode ajudar a discutir jogos. Pode ajudar a equilibrar forças. Mas raramente chega para vencer títulos.

É duro dizê-lo numa fase ainda relativamente precoce da época. É duro dizê-lo quando os adeptos estão feridos, cansados e cada vez mais desconfiados. É duro dizê-lo sabendo que o treinador e os jogadores não podem, nem devem, alinhar neste discurso. Eles têm de continuar a correr, a lutar, a honrar a camisola em cada minuto. Isso é inegociável. É o mínimo exigível a quem representa o Benfica.

Mas quem dirige o clube não pode pensar com o coração do adepto. Tem de pensar com a frieza de quem tem a obrigação de preparar o futuro. E essa frieza não é desistência nem falta de ambição. É responsabilidade. É perceber que há momentos em que insistir no discurso da esperança permanente apenas adia decisões que têm de ser tomadas.

O Benfica ainda tem objetivos esta época. Passar à próxima fase da Liga dos Campeões. Lutar pelo melhor lugar possível no campeonato. Garantir, pelo menos, o segundo lugar que dá acesso à Champions da próxima temporada. Mas sejamos claros: esses objetivos já não são desportivos no sentido emocional. São financeiros. São estruturais. São meios para garantir estabilidade e margem de manobra na próxima temporada.

Porque, olhando para esta equipa, não se vislumbra capacidade para vencer o campeonato ou para uma surpresa europeia. Falta talento individual. Falta magia. Falta aquele jogador que, quando tudo está bloqueado, resolve sozinho. Falta o Rafa que acelerava quando ninguém conseguia. Falta o Di María que inventava quando o jogo parecia morto. Falta aquele rasgo que muda uma noite inteira e altera o destino de um jogo, mesmo quando o coletivo está preso.

E isso percebe-se mesmo nos jogos em que o Benfica está bem. Mesmo quando há atitude, mesmo quando há compromisso, mesmo quando a equipa está organizada, o problema aparece sempre no mesmo sítio. Na incapacidade de criar desequilíbrios. Na falta de magia no último terço. Na dificuldade em transformar posse e domínio territorial em oportunidades claras. Uma equipa que cria pouco, marca pouco e, por isso, ganha pouco.

Há também aqui uma questão de perfil. O Benfica construiu um plantel com muitos jogadores corretos, fiáveis, disciplinados taticamente, mas poucos capazes de desequilibrar por si próprios. Jogadores que precisam de contexto favorável para render, quando tantas vezes os jogos exigem precisamente o contrário. Exigem improviso, risco, talento individual que rompa com o guião.

Houve jogos recentes em que o problema não foi apenas a qualidade. Foi a atitude. As primeiras partes frente ao SC Braga, no campeonato e na Taça da Liga, são exemplos claros. Não se entra assim num jogo. Não se pode. E esses momentos contam, porque revelam fragilidades competitivas que não surgem por acaso. Revelam uma equipa que nem sempre reage bem à pressão.

Mas mesmo quando a atitude surge, como no Dragão, a história repete-se. A atitude sem talento raramente chega para ganhar títulos. Pode chegar para competir. Pode chegar para discutir. Mas dificilmente chega para decidir épocas.

É por isso que este momento da temporada tem de ser encarado como aquilo que verdadeiramente é: o início da preparação da próxima época. Não como abdicação. Não como rendição. Mas como planeamento. Como lucidez estratégica.

É agora que o Benfica tem de olhar para a formação e perceber quem pode fazer parte do futuro. É agora que tem de dar minutos, responsabilidade e contexto competitivo a jovens que podem crescer. Não para cumprir agenda, mas para criar soluções. É agora que tem de perceber quem já não acrescenta, quem chegou ao seu limite e quem pode ser útil noutro papel. É agora que estes meses têm de funcionar como uma pré-temporada prolongada para 2026/2027.

Porque, se o Benfica continuar apenas a reagir jogo a jogo, a tentar salvar emocionalmente uma época que, desportivamente, já não se salva, arrisca-se a chegar à próxima temporada com os mesmos erros, as mesmas ilusões e a mesma frustração acumulada. E isso seria repetir um ciclo que já dura há demasiado tempo.

O mercado ensina-nos isso todos os dias. Jogadores medianos custam hoje 20 ou 30 milhões. Exige-se que sejam craques instantâneos. E depois surpreendemo-nos quando não o são. O Benfica tem de ser cirúrgico. Tem de errar menos. Tem de contratar melhor. E isso não se faz em cima do joelho.

Eu sei que o coração do adepto não aceita isto. Sei que custa olhar para os meses que faltam e pensar mais no amanhã do que no hoje. Mas há momentos em que a cabeça tem de mandar. E, neste momento, mandar significa preparar o Benfica para voltar a ser dominante. Não em discursos. Não em promessas. Mas em campo.

Porque o Benfica não pode viver eternamente a tentar sobreviver a épocas falhadas. Tem de aprender com elas. E esta, goste-se ou não, é uma dessas épocas.