A festa de Trubin pelo golo marcado ao Real Madrid, no Estádio da Luz - Foto: IMAGO

Benfica abriu a ferida que nunca chegou a sarar: raios-x à crise do Real Madrid

Derrota na Luz voltou a expor problemas estruturais nos 'blancos'. Xabi Alonso treinador pediu um Xabi Alonso jogador e nunca o teve. Cenário muito semelhante ao que levou à demissão de Florentino Pérez

Com a derrota na Luz o Real Madrid não entrou numa nova crise, simplesmente vê agravada a que já vem da temporada passada e da qual nunca saiu. A melhoria que parecia ter chegado com as três vitórias de Arbeloa podem não ter sido mais que um espelhismo feito em pedaços por José Mourinho e sus muchachos que puseram a nu todas as misérias que minam a equipa madrilena que bem pode agradecer a Courtois, Mbappé e à deusa fortuna não ter regressado a casa com um saco cheio de golos. O próprio jogador francês reconheceu que o quarto tento das águias foi «uma vergonha» para a equipa e que um 5-1 favorável ao Benfica teria sido o resultado justo ao intervalo, mas não é só ele a dizê-lo, há absoluta unanimidade, mesmo entre os madridistas, que a vitória do Benfica foi justa e deveria ter sido por uma maior diferença no marcador.

Com a derrota em Lisboa, Arbeloa deitou a perder uma boa parte da herança que recebeu de Xabi Alonso que, quando foi despedido, tinha a equipa no grupo dos top-8 da Champions e com vida na Taça do Rei, ambas coisas foram por água abaixo e só na liga o atraso em relação ao guia passou de quatro pontos para um graças em boa parte ao golo que Gonçalo Guedes marcou para a Real Sociedad e que ditou a derrota do Barcelona.

Modric era velho...

Parecia que Arbeloa tinha dado com a solução mas o que anteontem se viu na Luz foi mais do mesmo incluindo a complacência do técnico para com as vacas sagradas que se julgam intocáveis. De qualquer forma o problema que arrasta o Real Madrid não parece que seja devido ao treinador ou pelo menos que seja ele o único responsável. Há muitos mais fatores como a atitude geral dos jogadores, a falta de compromisso de uns quantos sendo e um dos mais assinalados Vinícius, um magnífico futebolista que, como se viu na Luz, foi incapaz de dar uma pequena ajuda defensiva que fosse ao seu colega Carreras, também há alguns que ou não estão em forma ou não têm o nível suficiente para serem titulares e falta um sistema de jogo, porque realmente não se sabe ao que joga esta equipa.

Detrás de tudo isto existe um claro problema de planificação, os quem têm de tomar as grandes decisões nem sempre terão acertado na confeção do plantel e a praga de lesões também não ajudou. As carências são, sobretudo, visíveis no meio-campo: Casemiro foi para o United, Kroos retirou-se de forma voluntária, Modric queria continuar mas não o deixaram por ser velho e havia que dar lugar aos novos. Mas, salvo de alguma forma Arda Guler, nenhum dos teóricos sucessores mostrou estar à altura do croata.

Falta, pois, um organizador de jogo, um patrão que saiba marcar os tempos e que evite que a equipa pareça, em muitas fases, estar partida pela metade. Para resolver o problema, o Xabi Alonso treinador pediu que lhe dessem o mais parecido ao Xabi Alonso jogador, indicou Zubimendi, mas o clube deixou-o fugir para o Arsenal e a questão ficou por resolver.

Semelhanças com 2006

O Real Madrid, que na temporada passada nada ganhou, está em risco de, este ano, lhe suceda algo parecido. A Supertaça e a Taça já lá vão, na Champions terá de disputar o play-off, hoje se saberá se terá de defrontar, outra vez, o Benfica mas, mesmo que passe esta fase, ou melhora muito ou não chegará longe na competição, restando a liga em que não será nada fácil ficar à frente do Barcelona. Para um clube que tem como lema ganhar, ganhar e voltar a ganhar ficar dois anos seguidos em branco é pouco menos que uma catástrofe.

Este domingo o Real recebe o Rayo Vallecano e não será de estranhar que, de novo, a equipa seja recebida com um sonoro concerto de assobios oferecido pelo desiludido público do Bernabéu que também poderá voltar a dirigir os seus gritos de protesto contra Florentino Pérez que aguenta muito mal ser posto em causa, sofre e é o pior que lhe podem fazer. O presidente, que já chamou a atenção dos futebolistas pelo fiasco de Lisboa, passa por um momento bastante difícil, muito parecido ao que viveu em 2006 e que o levou a demitir-se, reconhecendo a sua culpa de ter mal educado aos jogadores, a situação complicada que não se sabe como terminará.