O objetivo do FK Bodo/Glimt é ter sucesso desportivo de forma sustentada — Foto: IMAGO
O objetivo do FK Bodo/Glimt é ter sucesso desportivo de forma sustentada — Foto: IMAGO

O que o futebol português podia aprender com o Bodo

O Bodo/Glimt podia ser um grande exemplo para muitos clubes de cidades pequenas em Portugal. Só não é, muitas vezes, porque por cá continuamos a olhar para os clubes como fontes de rendimento ou como plataformas para alcançar estatuto social. Mercado de valores é o espaço de opinião de Diogo Luís, antigo jogador de futebol, economista e comentador

O Sporting saiu da Noruega com uma derrota pesada (0-3). Para chegar aos quartos de final, os leões terão de olhar primeiro para dentro e fazer um jogo quase perfeito frente à equipa sensação da UEFA Champions League. Mas o que faz do FK Bodo/Glimt um caso tão especial no futebol europeu?

Ligação à cidade

O primeiro ponto de partida para um clube crescer de forma sustentada é ter uma base de apoio sólida. O FK Bodo/Glimt está inserido numa cidade com cerca de 50 mil habitantes, a cidade de Bodo. À partida, a dimensão da população podia ser um entrave ao crescimento e ao sucesso do clube. No caso do Bodo/Glimt aconteceu exatamente o contrário. Essa base de apoio, pequena mas extremamente fiel, é hoje uma das maiores forças do clube. Para crescer, os clubes precisam de conhecer os seus pontos fortes e fracos — e saber potenciar uns e compensar outros.

Quem dirige o Bodo percebeu isso desde cedo. Por isso mesmo, o estádio tem apenas cerca de oito mil lugares. Um número aparentemente pequeno, mas ajustado à realidade do clube. Os adeptos estão sempre presentes, sentem orgulho na equipa e identificam-se com a Direção, com o treinador e com os jogadores. Essa ligação cria algo muito poderoso: o futebol torna-se também uma forma de projetar a cidade no mundo. Para termos uma ideia da dimensão, a cidade de Bodo tem praticamente o mesmo número de habitantes que Évora.

Joguei vários anos em Aveiro, uma cidade que hoje tem cerca de 80 mil habitantes. No início dos anos 2000 sentia-se claramente o orgulho e o sentimento de pertença das pessoas em relação ao clube da cidade, o SC Beira-Mar.

Era um clube especial. O problema do Beira-Mar, e de muitos outros clubes espalhados por Portugal, é que quem os dirige muitas vezes não percebe que a sua maior força está precisamente nessa ligação com a comunidade. Em vez disso, transformam-se os clubes em entrepostos de jogadores ou em plataformas para investidores. Os clubes que perdem a ligação com as suas gentes acabam, quase sempre, por ter o destino traçado.

Visão

Perceber que o meio envolvente é determinante para o crescimento sustentado de um clube é fundamental. Um clube não vive isolado: faz parte de uma cidade e de uma comunidade. Quanto mais forte essa ligação, maiores as hipóteses de crescimento.

Para que isso aconteça, é necessário criar condições que tornem a ligação entre o clube e a sociedade o mais forte possível. Aqui entram dois aspetos essenciais. O primeiro tem a ver com quem dirige o clube. Transparência na gestão, boas práticas e respeito pelos adeptos são fatores decisivos. Um clube com este tipo de mentalidade valoriza-se a si próprio, valoriza a cidade que representa e pode transformar-se numa verdadeira bandeira dessa cidade para o país e para o mundo.

O segundo aspeto passa por tornar o clube atrativo do ponto de vista desportivo. Para isso é importante que exista uma identidade clara e que os adeptos se revejam nela. Não existem fórmulas universais: cada clube e cada cidade terão de encontrar o seu próprio caminho. No caso do FK Bodo/Glimt, percebe-se que esse caminho foi trabalhado e consolidado ao longo do tempo.

Hoje os adeptos identificam-se com a forma como o clube é gerido e com a forma como a equipa joga. É uma equipa intensa, agressiva e sempre à procura do golo. O jogo torna-se emotivo e vibrante, e isso faz com que os cerca de oito mil adeptos que cabem no estádio queiram estar presentes jogo após jogo.

Projeto desportivo

O objetivo do FK Bodo/Glimt é ter sucesso desportivo de forma sustentada. O clube não dá passos maiores do que a perna e mantém sempre os pés bem assentes no chão. O facto de vários jogadores regressarem ao clube ao longo dos anos demonstra bem o ambiente de confiança e estabilidade que ali se vive. Muitos encontram em Bodo um contexto onde se sentem confortáveis, valorizados e seguros para evoluir.

O sucesso desportivo do clube não está assente em grandes compras ou vendas de jogadores. Está assente, acima de tudo, numa ideia de jogo clara, que vem sendo trabalhada, afinada e consolidada ao longo dos últimos anos. Muito deste trabalho tem também a ver com a estabilidade da equipa técnica, liderada por Kjetil Knutsen.

No futebol atual é raro ver um treinador permanecer tantos anos no mesmo clube, sobretudo quando começam a aparecer resultados e visibilidade internacional.

Naturalmente, Knutsen terá recebido e continuará a receber propostas mais atrativas financeiramente. Mas a solidez do projeto desportivo do Bodo/Glimt, a estabilidade do clube e a confiança no trabalho desenvolvido parecem compensar essas ofertas. Isso diz muito sobre o tipo de ambiente que foi criado no clube. O perfil de jogador está bem definido e bem identificado.

A base do sucesso está no coletivo. Os jogadores contratados encaixam nas ideias e na filosofia do treinador, do clube e até da própria cidade. Como disse o treinador do Bodo no final do jogo com o Sporting: «O Bodo é  isto. Jogamos sempre da mesma forma.»

É evidente que a equipa também estuda os adversários, mas a sua maior força está naquilo que sabe fazer e que tem vindo a consolidar ao longo do tempo. A coragem, a personalidade e até a ousadia que demonstram quando enfrentam equipas de maior dimensão são impressionantes. O treinador e os jogadores que compõem o plantel parecem feitos à medida deste estilo de jogo.

Tudo isto assenta numa forte cultura desportiva, onde os adeptos têm também um papel determinante. Gostam de ver a forma como a equipa joga, gostam de ganhar e gostam de ver a sua cidade nas bocas do mundo. Mas também têm a maturidade para perceber que nem sempre se ganha — e demonstram-no com enorme desportivismo.

Essa forma de estar acaba por reforçar ainda mais a identidade do clube e da cidade. O Bodo/Glimt podia ser um grande exemplo para muitos clubes de cidades pequenas em Portugal. Só não é, muitas vezes, porque por cá continuamos a olhar para os clubes como fontes de rendimento ou como plataformas para alcançar estatuto social.

No Bodo/Glimt, ganhar não é o objetivo principal. Ganhar é apenas a consequência de um trabalho sério, racional e sustentado que vem sendo feito há muitos anos.

A valorizar: Farioli
Nos momentos de decisão está a aparecer o melhor FC Porto.
A desvalorizar: António Miguel Cardoso
A forma como despede treinadores diz muito mais dele do que dos técnicos.