A liderança que nasce na superação
A história recente de Pedro Mano, guarda-redes da Seleção Nacional de futebol de praia, é um exemplo claro disso mesmo. Em 2024, na gala dos Beach Soccer Stars, o internacional português foi eleito Melhor Guarda-Redes do Mundo, distinção atribuída após votação dos capitães e treinadores das seleções nacionais da modalidade. Um reconhecimento que surge no mesmo ano em que Portugal voltou a afirmar-se entre as grandes potências da modalidade, conquistando o Campeonato da Europa.
Mas, para compreender verdadeiramente o significado desta distinção, é preciso olhar para além da gala, dos prémios e das estatísticas. Confessou-me o Pedro Mano
− Ser eleito o melhor do mundo significou muito para mim. Significou que todo o trabalho feito valeu a pena e que tudo aquilo que fui construindo ao longo do tempo foi bem feito e com bases fortes.
Para o guarda-redes, o prémio não é apenas um reconhecimento individual, mas também coletivo:
− Significa que tenho à minha volta pessoas que me ajudam, que me puxam para cima e que fazem parte deste caminho.
A liderança que hoje Pedro Mano representa na Seleção Nacional não surgiu por acaso. Nem foi construída apenas nos momentos de vitória. Em 2023, o guarda-redes viveu aquele que descreve como o período mais difícil da sua carreira. O rendimento não correspondia às suas próprias expectativas e a frustração acumulava-se. Chegou mesmo a ponderar abandonar a modalidade.
− O momento mais duro da minha carreira foi quando decidi parar. Sentia que o meu futebol não estava a fluir e que estava longe daquilo que eu próprio esperava de mim −, recordou.
Mas desistir acabou por não ser o caminho. A fé, a persistência e a confiança num propósito maior fizeram-no continuar. Revelou-me:
− Houve uma pessoa que me disse que Deus tinha algo grandioso preparado para mim e que, nos dois anos seguintes, eu seria considerado o melhor guarda-redes do mundo. Confiei, continuei a trabalhar e essa promessa acabou por se cumprir.
Mais do que um episódio pessoal, esta história explica muito do exemplo que hoje exerce dentro do grupo. Porque quem já esteve perto de desistir e conseguiu voltar mais forte passa a liderar pelo exemplo.
No futebol de praia moderno, o guarda-redes deixou de ser apenas um último reduto defensivo. É muitas vezes o primeiro organizador ofensivo, um jogador com capacidade para construir, assistir e até marcar golos. Pedro Mano é um dos melhores exemplos dessa evolução. Explicou-me:
− No futebol de praia moderno, o guarda-redes tem uma grande influência no jogo. Vivemos muitas vezes no limite, porque qualquer erro pode resultar em golo. Mas eu sempre gostei de viver nesse limite. É isso que nos torna diferentes e que nos permite fazer a diferença no jogo.
Essa influência também obrigou o guarda-redes português a reinventar-se. Durante muito tempo, o seu pé direito tornou-se uma arma temida pelos adversários, quer nos remates de longa distância, quer na construção ofensiva. Com o tempo, as equipas começaram a tentar neutralizar essa vantagem. A resposta de Pedro Mano foi simples: trabalhar ainda mais. Começou a desenvolver o pé esquerdo com a mesma intensidade e dedicação. Hoje, o resultado é um guarda-redes imprevisível, capaz de decidir um jogo com qualquer dos pés. Já não é apenas o remate forte de pé direito que preocupa os adversários. Agora tanto pode sair um remate, um passe de rutura ou uma assistência com qualquer dos pés. E essa imprevisibilidade tornou-o ainda mais completo. Mas há um detalhe ainda mais interessante nesta evolução: Pedro Mano não quis apenas responder às equipas adversárias, quis antecipar o jogo. Treinar o pé esquerdo foi também uma forma de tornar o seu jogo menos previsível e de aumentar as soluções ofensivas da seleção portuguesa.
Hoje, quando recebe a bola, as equipas adversárias sabem que podem surgir várias decisões diferentes: remate direto, passe vertical, assistência para finalização ou até condução para criar superioridade numérica. Essa versatilidade é uma das razões pelas quais se tornou uma peça tão influente no modelo de jogo da seleção.
Dentro da Seleção Nacional, os colegas sabem bem o impacto que a qualidade técnica do seu guarda-redes tem no jogo da equipa. Léo Martins, destaca sobretudo aquilo que Pedro acrescenta ao grupo fora do olhar do público. Contou-me:
− Aquilo que o Pedro Mano traz para o balneário é confiança. Confiança no grupo, no jogo e na ideia de que tudo pode dar certo. Mesmo quando estamos em desvantagem ele pede a bola e diz: ‘Podem jogar em mim.’
Essa disponibilidade para assumir responsabilidades é, para o jogador português, uma das marcas da liderança do guarda-redes:
− Uma grande equipa começa sempre com um grande guarda-redes. Muitas das conquistas que alcançámos começaram exatamente aí.
Também André Lourenço, companheiro de seleção, reforça essa ideia:
− Ter o Pedro atrás de nós coloca-nos muito mais perto da vitória. A tranquilidade que transmite permite-nos jogar com mais confiança e arriscar mais.
Num jogo onde qualquer remate pode transformar-se em golo, essa segurança faz toda a diferença. Confessou-me o Léo:
− Sabemos que entre os postes está alguém que nos garante estabilidade. Isso permite-nos jogar mais libertos.
Já Bê Martins, eleito por duas ocasiões o Melhor Jogador do Mundo, destaca outra dimensão da liderança do guarda-redes: a forma como ajuda os colegas:
− Ele está sempre disponível para ajudar, sobretudo os mais novos. Antes dos jogos procura falar com eles, esclarecer dúvidas e ajustar detalhes.
Para o internacional português, o prémio de melhor guarda-redes do mundo é uma consequência natural daquilo que Pedro Mano representa:
− Para além de defender, ele acrescenta muito mais ao jogo. Faz assistências, marca golos e ajuda a controlar o ritmo da equipa. Por isso é mais do que merecido ser considerado o melhor do mundo.
Apesar do reconhecimento individual, Pedro Mano garante que a ambição da seleção continua intacta:
− A nossa seleção já ganhou muito, mas isso faz parte do passado. O que nos move é continuar a acrescentar novos títulos à história.
A mentalidade competitiva continua a ser a principal força do grupo. Acrescentou-me:
− Nunca estamos satisfeitos. Mesmo quando ganhamos, continuamos com vontade de ganhar ainda mais. Essa fome parece infinita e é isso que nos mantém competitivos.
Essa cultura foi transmitida pelos jogadores mais experientes ao longo dos anos e continua a marcar a identidade da seleção portuguesa. Hoje, o grupo mistura jogadores experientes com novas gerações, mas a mentalidade mantém-se intacta: competir sempre para ganhar.
A liderança de Pedro Mano não se esgota no que acontece dentro das quatro linhas de areia. Fora do campo, o guarda-redes assume também um papel importante na valorização da modalidade. Apesar do crescimento internacional do futebol de praia, o jogador reconhece que ainda há espaço para evoluir, sobretudo ao nível da profissionalização dos clubes.
− Sinto que o futebol de praia tem vindo a conquistar o reconhecimento que merece, sobretudo por parte das pessoas que estão realmente envolvidas na modalidade. Claro que há sempre espaço para melhorar, mas acredito que uma maior profissionalização dos clubes em Portugal poderia ajudar a modalidade a crescer ainda mais.
Ao mesmo tempo, deixa uma mensagem clara: profissionalismo não depende apenas da estrutura da modalidade:
− O facto de a modalidade não ser totalmente profissional não significa que os jogadores não possam ser profissionais. O profissionalismo depende muito da forma como encaramos o nosso trabalho.
No final, a história de Pedro Mano é também uma história sobre liderança. Não apenas a liderança visível dentro de campo, feita de remates improváveis, defesas decisivas e passes que desbloqueiam jogos. Mas também a liderança silenciosa que nasce da capacidade de superar momentos difíceis, de evoluir e de continuar a trabalhar quando poucos acreditariam. Quando olha para o futuro, o guarda-redes português não fala apenas de títulos:
− Gostava que me recordassem como alguém que marcou uma geração e que ajudou a tornar a nossa seleção mais forte. Alguém que dignificou o nome de Portugal pelo mundo.
Mais do que um prémio individual, ser considerado o melhor do mundo é uma consagração que representa algo maior: a continuidade de uma cultura vencedora que transformou o futebol de praia português numa referência mundial. E nas areias onde tantas histórias se escrevem, a de Pedro Mano já ocupa, com mérito próprio, um lugar entre as mais marcantes.
Nota final: Um muito obrigado ao Pedro Mano, Léo Martins, Bê Martins e André Lourenço por terem colaborado neste artigo.
«Liderar no Jogo» é a coluna de opinião em abola.pt de Tiago Guadalupe, autor dos livros «Liderator - a Excelência no Desporto», «Maniche 18», «SER Treinador, a conceção de Joel Rocha no futsal», «To be a Coach», «Organizar para Ganhar» e «Manuel Cajuda – o (des)Treinador».