Basquetebol português, motivos de reflexão

É preciso mobilizar toda a gente para se poder avaliar o ‘estado da nação’

APESAR da expetativa criada ter apontado para uma possível subida de divisão, recentemente, a nossa Seleção Nacional masculina de basquetebol de Sub-18 limitou-se a disputar a fase de classificação entre os 9.º e 16.º lugares no Campeonato da Europa, Divisão B. 

Debatendo este resultado com um companheiro de profissão, respondeu-me: «Não me admira! Somos a nível seniores a 58.ª seleção masculina do ranking da Federação Internacional de Basquetebol.» 

E completou com a sehguinte afirmação: «Somos todos responsáveis! A Federação porque não tem um Plano concreto que enquadre o futuro e o propósito da modalidade. Onde pretendemos estar dentro de três anos? E dentro de cinco? Qual é a ideia consistente com a qual todos os agentes da modalidade poderão trabalhar para um projeto de futuro que nos faça subir, digamos assim, 20 lugares nesse ranking internacional?»

Entretanto, por esta e outras razões, vários companheiros treinadores me desafiaram para abordar nesta página de opinião o estado atual da nossa modalidade tendo eu devolvido esse desafio perguntando: que vos parece? 

Temos mais e melhores clubes, associações regionais, árbitros, atletas, treinadores e seleções nacionais? Tristemente e, em termos gerais, as respostas recebidas não foram animadoras. 

Principalmente duas mais perturbadoras: temos financiamento como nunca, mas lamentavelmente deixámo-nos ultrapassar qualitativamente por diversas outras modalidades; transformámos gradualmente os órgãos responsáveis pela modalidade num grupo de amigos onde domina a burocracia e falta a existência de uma clara meritocracia.

Palavras que me fizeram recordar o ano de 2002 (há 21 anos|!), quando em conjunto com os companheiros treinadores de basquetebol, respetivamente, Teotónio Lima, Mário Silva e Jorge Henriques, publicámos um livro intitulado «Mudar é preciso, basquetebol português motivos de reflexão».

Ora, com base no que defendi há 21 anos, porque não propor agora uma discussão ao redor do atual estado da modalidade? No fundo, trata-se de mobilizar os diferentes agentes atuais da modalidade para iniciarem nas suas regiões a constituição de grupos de trabalho com o objetivo de avaliarem (como se diz agora) ‘o estado da nação’.

Como texto base para essa discussão, algumas das minhas propostas, datadas de 2002, cuja atualidade é igualmente bem perturbadora, como adiante se verá.

CHEGOU a hora de, no basquetebol português, fazer bem, as coisas certas. Apontando objetivos e interesses comuns. Como consegui-lo? Eis a questão para a qual necessitamos encontrar respostas. 


Antes do mais, por via de uma correta liderança por parte da Federação Portuguesa de Basquetebol. Capaz de mobilizar Liga Profissional, Associações, Clubes, Dirigentes, Treinadores, Jogadores, Árbitros, Jornalistas, Adeptos e pessoas em geral para quem o basquetebol represente algo de importante. 

Com o objetivo de atuarmos como um todo coeso. Transformando o conjunto de individualidades que sabemos possuir, num coletivo com objetivos e interesses comuns. O que exige conhecê-las bem, compreendê-las, aceitá-las como são e conseguir retirar-lhes em devido tempo o que de melhor possuem ao serviço do todo representado pela modalidade que nos une.

Apelando à participação e responsabilização de todos. Solicitando que cada um ajude a definir metas e caminhos que nos permitam atingir metas que nos mobilizem. Definindo tarefas. Regulando atitudes e comportamentos. Avaliando e distinguindo. Pela positiva e pela negativa, se necessário. Apontando modelos capazes de constituírem as referências que tanto têm faltado por vezes. Congregando por via da cultura e dos valores que há muito existem no basquetebol português. Definindo a missão que no futuro constitua o fator aglutinador de todos os agentes da modalidade. Observando. Ensinando. Corrigindo. 

Aceitando que a oposição é um fator de progresso. E que a complementaridade de funções e a existência de especialistas diversos acima de tudo enriquece a equipa do basquetebol português.

O confronto de ideias é hoje apontado como algo decisivo no interior dos coletivos que se destacam pelo seu sucesso. O basquetebol português, como um todo, deve ser a partir deste momento uma equipa de sucesso. Capaz de olhar para o que se faz ao mais alto nível europeu e mundial e daí retirar as conclusões necessárias. Que lhe permitam ter ideias claras quanto aos Modelos de jogo, jogador, equipa e preparação que pretende ver aplicado. E definir uma estratégia nacional e internacional que marque a diferença. 

Impõe-se desenvolver um persistente e paciente trabalho, ao longo do qual necessitamos descobrir como reagem cada um dos agentes da modalidade e do que são capazes de fazer. Conhecê-los nas suas mais variadas reações. Saber o que pretendem alcançar e como. Definir-lhes a tarefa que lhes pertence na equipa. Dar-lhes retorno constante sobre o que fazem bem ou mal. Salientar a importância da colaboração de todos. 

Sem deixar de, se necessário, tornar claro que não há imprescindíveis. Face às alterações constantemente introduzidas no contexto em que a modalidade se integra, alguns sucessos obtidos podem, no futuro próximo, já não reunir condições de êxito. 

A atual realidade desportiva portuguesa e, nomeadamente, a económica e social (já em 2002!), apresentam-se turbulentas e imprevisíveis quanto baste, para nos obrigar a prever o pior. Temos por isso de saber antecipar possíveis crises e apontar caminhos que nos permitam gerir o inesperado com que obrigatoriamente vamos deparar. Ou nos adaptamos às novas realidades que estão sempre a emergir ou arriscamos regredir!

MAIS do que da expressão das individualidades que possua, os resultados a obter no futuro pela nossa modalidade vão depender do facto decisivo de o seu todo ter de ser maior que a soma das partes. Cada um dos seus membros não pode nem deve fazer nada que sobreponha os seus interesses individuais aos do coletivo. Nem que os prejudique individualmente e que por sua vez possa ser nocivo para o todo. 

Cada agente da modalidade deve assumir as suas responsabilidades, não só a nível individual, como muito em especial para com o todo. O clima de trabalho ideal é aquele onde cada um dos agentes da modalidade assuma as responsabilidades próprias e não se esqueça de ajudar os outros.

Especialmente que os mais competentes e as individualidades se apercebam que o basquetebol português no seu todo será tanto melhor quanto consigam contribuir para que todos os outros sejam melhores por via das ajudas que lhes derem sempre que  tal seja necessário. 

Incrementando diferentes formas de comunicação que conduzam a um nível de cooperação que faça aumentar gradualmente os necessários níveis de confiança e compatibilizando o mais e o melhor possível, os objetivos individuais com os coletivos. 

Mais do que saber (ter conhecimentos e experiências significativas), é preciso saber ensinar. O basquetebol português, mais do que de palavras, requer atitudes e comportamentos perseverantes e ambiciosos. 

A Federação Portuguesa de Basquetebol tem, assim, diante de si uma tarefa fundamental. 

Ajudar todos os agentes da modalidade a desenvolverem as suas competências de modo conforme com o potencial que possuem. Centrados na noção fundamental que nenhum deles é perfeito, mas que deve tentar sempre ser o melhor que lhe seja possível. Levando-os a acreditar que fazem parte de algo maior que eles (um Projeto a longo prazo, uma Federação com tradições e resultados prestigiados, etc.). 

Aqueles com quem trabalha devem confiar na sua autoridade sem que isso signifique aceitarem de modo passivo essa liderança. Sempre que assim o julguem necessário devem ser incentivados a questionarem-na.  Confiança e respeito não é, no entanto, algo fácil de conseguir. Ninguém confia instantaneamente. 

É preciso que a Federação Portuguesa de Basquetebol consiga ganhar essa confiança e esse respeito através das suas atitudes e comportamentos e das relações que vai estabelecendo com cada um dos agentes da modalidade. É fundamental que possua uma visão global do que se pretende vir a fazer e, principalmente, tenha a noção bem objetiva que, o que se fizer no início de cada época, irá influenciar profundamente tudo aquilo que posteriormente seja acrescentado. Pela positiva, ou pela negativa. Sendo inquestionável que deve pertencer à Federação Portuguesa de Basquetebol a liderança da modalidade, cumpre-lhe também reconhecer a importância de dar oportunidades para que todos os agentes da modalidade se sintam envolvidos nas decisões a tomar, participando nelas sempre que possível. 

Lendo o que então escrevemos, assalta-nos naturalmente a estranheza de passados 21 anos estarmos ainda perante um conjunto de motivos de reflexão perfeitamente atuais. E atenção! Será ainda importante acrescentar ao debate nacional mais algumas das respostas que fui recebendo.

Os jovens chegam às seleções com pouco conhecimento do jogo e da competição. Temos hoje, tanto no basquetebol masculino como no feminino, muita carência de atletas que revelem a maturidade competitiva necessária. 

No feminino, apesar de tudo, conseguem em algumas seleções um modelo jogo ajustado às exigências da competição, mas no masculino não. 

Impõe-se reformular os quadros competitivos regionais e nacionais. Temos de aproveitar a atual dinâmica do minibasket para criar uma estrutura profissional responsável pela dinamização da modalidade. 

Urge começar a potenciar os talentos de uma forma bem mais sistemática. A formação de treinadores continua sem valorizar (como devia!), que atletas e treinadores são homens e mulheres cujo corpo humano é, em simultâneo, uma estrutura física e biológica, mas também (e principalmente!) experiencial.

Têm a palavra aqueles que no basquetebol português considerem ainda valer a pena tentar as mudanças consideradas necessárias.