Os melhores atletas apresentam índices mais elevados de motivação intrínseca — Foto: IMAGO
Os melhores atletas apresentam índices mais elevados de motivação intrínseca — Foto: IMAGO

Autonomia, o que diferencia os melhores

O lado invisível é o espaço de opinião de Rui Lança, diretor executivo de outros desportos do Al Ittihad, da Arábia Saudita

A autonomia nos atletas é considerada um dos fatores que diferencia os melhores entre os melhores. Mais do que executar instruções, os atletas com níveis mais elevados de autonomia procuram compreender as diferentes vertentes do treino e da competição, tomar decisões e assumir responsabilidade pelo seu processo de evolução.

Neste contexto, o papel do treinador não é apenas ensinar ou transmitir informação, mas criar um ambiente que estimule a autonomia e o envolvimento ativo do atleta. Isto cria alguns desafios. Existem treinadores que procuram desenvolver essa autonomia e encontram atletas que não querem assumir esse nível de responsabilidade. Entre várias razões, porque autonomia implica responsabilidade na decisão. O inverso também acontece: contextos muito controladores acabam por limitar o desenvolvimento da autonomia, mesmo em atletas com potencial para a desenvolver.

Vários estudos demonstram que os melhores atletas apresentam índices mais elevados de motivação intrínseca. Estes atletas não treinam apenas por recompensas externas, como resultados ou reconhecimento, mas porque encontram significado e satisfação no próprio processo de treino e competição. A motivação intrínseca está associada a maior persistência, melhor capacidade de adaptação e maior qualidade no processo de aprendizagem.

Esta abordagem encontra forte sustentação na Teoria da Autodeterminação e as três necessidades psicológicas básicas: autonomia, competência e relacionamento. Quando estas necessidades são satisfeitas, as pessoas tendem a desenvolver níveis mais elevados de motivação intrínseca, envolvem-se na atividade pelo prazer, interesse e desafio que ela proporciona.

Não se trata de uma equação em que 1+1 é sempre igual a 2. No entanto, existem denominadores comuns que podem ser criados. Trago este tema porque parece cada vez mais evidente que vemos pessoas, no treino e na competição, a realizar tarefas apenas porque sim. Este fenómeno não se limita ao desporto, está presente em toda a sociedade e acaba por refletir-se também no sucesso desportivo que tantas vezes se discute nas grandes competições.

As organizações e os treinadores têm um papel determinante na criação deste contexto motivacional. Muito controlo, centrados apenas em instruções e resultados imediatos, tendem a reduzir a perceção de autonomia dos atletas. Pelo contrário, contextos que incentivam a participação ativa, a reflexão e a tomada de decisão favorecem o desenvolvimento de uma motivação mais autónoma. E este processo não acontece apenas num campo, numa pista ou num pavilhão, extravasa e muito esses espaços.

Isto traduz-se de diversas formas. Questionar e estimular o pensamento tático, envolver as pessoas na definição de alguns objetivos, permitir escolhas em determinados momentos e encarar o erro como parte natural do processo de aprendizagem.

Promover autonomia é uma estratégia. Ambientes que satisfazem as necessidades de autonomia, competência e relação, aumentam a probabilidade de desenvolver atletas e recursos humanos com maior motivação intrínseca e mais preparados para enfrentar as exigências do alto rendimento.