Como és como líder?
A liderança no desporto continua a apaixonar em todos os seus ângulos e facetas, especialmente a dos treinadores. Apesar de reconhecermos que é uma das competências mais importantes e fundamentais de quem está no comando, a maioria dos treinadores, diretores, capitães, etc., acaba por não investir na melhoria concreta e prática da sua liderança. Destaco duas razões principais para isso: o desconhecimento de como o fazer e, acima de tudo, o receio daquilo que vamos descobrir e destapar.
Com diferentes perspetivas e teorias aqui e ali, costumo defender que o mais importante neste tema é o ponto de partida: analisarmo-nos enquanto líderes de algo, qual o nosso perfil, os nossos comportamentos, abordagens, medos e conflitos, consoante os contextos.
A liderança não é uma prova de curta duração, embora também não nos dê assim tanto tempo. Cada derrota consome-nos muito mais tempo do que aquele que a vitória nos dá. E também não é uma corrida que se faça sozinho. Daí que a escolha das pessoas que estão connosco deva ser vista como um passo fulcral para o possível sucesso da liderança.
A liderança é um puzzle com muitas peças e, por vezes, somos pequenos nesse grande puzzle ou controlamos menos do que pensamos. Mas isso não é motivo para deixarmos de nos analisar constantemente sobre este tema, até porque o fazemos relativamente aos outros. Quando temos a oportunidade de escolher quem nos rodeia, muitas vezes optamos por pessoas parecidas connosco para integrar as nossas equipas. Errado, por várias razões: nem nós próprios nos conhecemos bem nesta área da liderança; e namorar connosco vai correr mal.
Devemos, sim, escolher pessoas que nos complementem (mas para isso preciso de saber, de forma concreta e com evidências, o que tenho e o que não tenho), que nos façam crescer, que sejam os nossos advogados do diabo, que nos equilibrem, que não nos digam apenas o que gostamos de ouvir e, sobretudo, que não nos omitam verdades em prol de estados de espírito falseados.
Como fazer então? Primeiro, perceber o nosso perfil, as nossas zonas de conforto e as zonas de conflito interno: o que dizemos, o que sentimos e o que realmente fazemos em determinadas subáreas do nosso comportamento enquanto líderes. E que melhor forma de nos analisarmos do que observarmos o que nos rodeia e percebermos que tipo de pessoas chamamos para perto de nós quando temos poder e quando temos o poder de escolher quem queremos connosco nas chamadas batalhas da liderança e na luta dos nossos objetivos e propósitos.
No desporto de alta competição, a confiança e a lealdade são variáveis fundamentais e, por vezes, quase parecem ser as únicas. A duração do projeto tem muito impacto na liderança. Um formato de empreitada empurra-nos para escolhas por vezes erradas no aqui e agora, em competências que não o conhecimento. Mas, ainda assim, que se escolha competência técnica e as outras. Vemos treinadores a desafiarem-se e a trazerem para junto de si a inquietude, a diferença, o ângulo distinto. São claramente a pedrada no charco da liderança no desporto.
Na área do dirigismo, vemos, infelizmente, mais escolhas assentes numa lealdade ao próprio e não à causa. Sei bem que há contextos e contextos, mas tornamo-nos mais propensos a desempenhos medíocres, à incapacidade de exigência e de coerência, quando as regras são alinhadas por interesses desalinhados.