«Ataques» a Martínez, a «caçadeira» e uma garantia para o futuro: tudo o que disse Ronaldo
— O Cristiano Ronaldo já disse que este será provavelmente o último ano da carreira, neste momento o mais importante é chegar aos mil golos, ou vencer a Liga das Nações?
— O meu objetivo é conseguir as duas coisas. Tentar ganhar esta Liga das Nações, agora numa nova era. Aproveito para dar os parabéns ao míster Roberto Martínez pelo excelente trabalho que concretizou aqui na Seleção, sendo de outra nacionalidade, o que por vezes é difícil, pelos ataques constantes que lhe faziam, mas não quer adiantar esse tema. É uma nova era com Jorge Jesus, espero que as coisas lhe corram bem, tenho a certeza que vai fazer um excelente trabalho e estamos preparados. Fazer quatro jogos em 15 dias é difícil, mas o nosso plantel é bastante grande, tem bastante talento e vamos estar preparados.
— Sente que Jorge Jesus é o treinador certo, porque já o conhece, para o Cristiano tirar o melhor rendimento na Seleção nesta fase?
— Tenho a certeza que sim, acho que foi a escolha perfeita, pelas características que todos nós sabemos do míster. O passado é o passado, esta é uma nova era, com um ar, conceitos e táticas diferentes. Até um idioma diferente. Desejo que as coisas corram da melhor maneira, o míster já referiu que muitos jogadores que estão cá já trabalharam com ele e que isso vai ajudar a adiantar o processo. Por isso, estamos todos confiantes, com esperança de que as coisas vão correr bem. Será um desafio longo, o míster vai ficar bastantes anos e desejo-lhe o melhor.
— Neste Mundial ficou patente o carinho de todos em relação ao Cristiano. Como vê o nosso país que muitas vezes o critica quando perdemos, ou sempre que acontece algo de mal?
— Não posso ser sincero a 100%... tenho de ser, às vezes, politicamente correto. Também comentei isso bastante em casa, sempre fui bem recebido bem em quase todos os sítios, mas este ano foi possivelmente o ano em que senti mais carinho. Não digo que não o sinta em Portugal, sinto que os portugueses também gostam bastante de mim. À parte, entendo que alguns canais gostam de me atacar e tentam-me matar, já hà vários anos, mas isso não têm hipótese nenhum. Isso só com uma caçadeira e mesmo assim consigo desviar-me da bala. Já estou acostumado, mas fica-me gravado as pessoas que gostam de mim. A todos os estádios onde vou, até mesmo no FC Porto, onde podia haver aquela rivalidade por eu ter jogado no Sporting, sinto sempre carinho dos portugueses. Não é por meia dúzia de pessoas que não gostam de mim que isso vai mudar.
— Vai contar aos portugueses quando se retirar da Seleção?
— Não sei. Eu gostava de poder responder a essa pergunta, mas eu não sei. Aprendi, a partir dos 30 e muitos anos, a viver o momento, a não pensar no amanhã. Se me dizes que é possível, é, se é bastante provável, é. Mas quando vai acontecer, não sei. Mas avisarei o mundo, sim.
— Ronaldo está em forma para jogar os 90 minutos?
— Vê os jogos que fiz no Al Nassr? Porque não jogar os 90 minutos? Não todos os jogos, mas porque não jogar em alguns jogos os 90 minutos? Se virem os jogos do Al Nassr, vão saber. Tenho a certeza absoluta que não vou jogar os 90 minutos nestes quatro jogos da Seleção.
— Tem alguma obsessão por chegar aos mil golos?
— Quero chegar e vou chegar. Obsessão não, nunca faço as coisas com obsessão, porque se o fizer as coisas não saem como quero. O resto é desfrutar o dia a dia. Agora é a Liga das Nações com o novo selecionador, espero que as coisas corram da melhor maneira e que eu possa desfrutar. Mas quero alcançar muito esse recorde.
— O que encontrou nesta Seleção e que sentimentos tem por voltar amanhã a Alvalade, uma casa que foi sua durante tantos anos?
— É um sentimento especial porque foi quase lá que começou a minha bonita história no futebol e tenho muito orgulho por isso. Representar a Seleção, passado tantos anos, onde praticamente me estreei para o mundo é um momento bonito. E como digo, é sempre um prazer representar as cores do meu país, depois de tantos anos é como se fosse sempre a primeira vez. Entro em campo com aquele sentimento de alegria, paixão, muita emoção e o que mais quero é que entremos amanhã com o pé direito.
— Que diferença ainda quer fazer pela Seleção?
— Acho que venho à Seleção porque faço a diferença no meu clube e acho que sou uma mais-valia. Não só lá, mas também posso aportar muitas coisas aqui na Seleção. Tudo o que o míster precisar de mim, para jogar, sair, entrar ou não jogar, o orgulho que eu tenho por representar Portugal é mais do que qualquer jogador internacional. Acho que ninguém tem mais internacionalizações do que eu, isso diz muito do prazer e do gosto em vir à Seleção. Não é por mais nada, por mais do que vocês possam pensar, é mesmo pelo orgulho e paixão em vir à Seleção, não tenho outro interesse qualquer. Quero poder ajudar dentro de campo com as minhas exibições, não pelo meu currículo, e também fora de campo, por ser o capitão, por conhecer muitas dinâmicas do futebol na Seleção, e poder ajudar este grupo de trabalho.
— Fábio Silva disse que via Ronaldo como um mestre. Como os jovens olham assim para si, olha para a Liga das Nações como uma hipótese de poder passar a pasta do papel na Seleção para os mais jovens? Esta competição é um tubo de ensaio para o Ronaldo ir saindo e deixar os mais jovens entrarem?
— Se o míster não contar comigo, posso sair já hoje. Quando não quiserem contar comigo na Seleção, quando eu sentir que não estou aqui a fazer nada, que não dou nada dentro de campo, que não faça golos, que crie mau ambiente, ou que eles não me queiram, eu sou o primeiro a agarra na minha mala e vou-me embora. Se os portugueses contam comigo, é por isso que eu continuo na seleção, por causa disso só, não há mais interesses em comum. Se eu continuar a dar, basta veres os números, se sabes fazer contas, vês que eu estou bem e que faço a diferença. O dia em que não contarem comigo, não há problema nenhum. Ajudarei a Federação naquilo que precisarem de mim e serei o espectador número um desta Federação.
— A Liga das Nações joga-se até junho do próximo ano, garante que até lá não sairá da Seleção? E se vencer a Liga das Nações, pensa em participar no Euro 2028?
— Não penso no dia de amanhã. Já não tenho idade para pensar no futuro, para mim o presente é mais importante. Sei que muito de vocês estão doidinhos que eu não venha mais, sinto isso. Não são todos, são meia dúzia, mas eu foco-me nas pessoas que gostam de mim e que querem que eu continue aqui. Essa é a minha grande paixão para continuar a vir cá.
— Prefere marcar o golo mil pelo Al Nassr ou pela Seleção?
— Pela Seleção, claro. Para mim seria a cereja no topo do bolo. Seria o culminar de mais uma história bonita, não definitiva, mas bonita.