Ac. Viseu já venceu em Alvalade: «Foi numa terça-feira, tudo nos correu bem»
Há páginas no futebol português que desafiam a lógica e se eternizam na memória coletiva de uma região. Uma delas foi escrita na noite fria de 20 de janeiro de 1981, quando o Académico de Viseu viajou até à capital para derrotar o poderoso Sporting em pleno Estádio José Alvalade (1-0). No banco dos beirões estava uma lenda da casa: o carismático treinador Idalino Almeida.
A partida, a contar para a 17.ª jornada do campeonato da época 1980/81, colocava frente a frente David e Golias. De um lado, um Sporting recheado de estrelas, como Vaz, Francisco Barão, Manuel Fernandes, Augusto Inácio ou Eurico Gomes, e do outro uma formação operária, moldada pela liderança firme de Idalino Almeida, com ligação umbilical ao clube do Fontelo.
A vitória em Alvalade não foi apenas um brilharete isolado, mas sim o motor para uma campanha memorável. Sob a batuta de Idalino Almeida — o segundo treinador com mais jogos na história do clube, 170 —, o Académico de Viseu alcançou a manutenção nessa época.
Anos mais tarde, em 1984/85, Idalino Almeida cimentaria o estatuto de homem da casa e treinador das subidas ao liderar outra campanha notável, promovendo o clube da 3.ª Divisão à 2.ª Divisão Nacional, e colocando a Beira Alta no mapa do futebol português num terceiro momento no clube, quando em 2006/2007 alcançou o título distrital, garantindo, desse modo, o regresso aos nacionais.
Passados 45 anos desde a única vitória da equipa da terra de Viriato diante do Sporting, A BOLA falou com Idalino Almeida, que guarda na memória os pormenores do jogo como se tivesse acontecido ontem.
«Lembro-me com alguma saudade o que vai ficando para trás... O jogo foi no dia 20 de janeiro, numa terça-feira, a jornada foi adiada porque o Sporting tinha um jogo particular na véspera e adiaram o jogo por três dias. Tudo nos correu bem. Bela recordação», começou por dizer.
O valor dos homens da terra
«O extremo-direito Águas [Carlos Marta, que quando deixou de jogar passou para a política e foi presidente da Câmara Municipal de Tondela] foi quem marcou o golo, aos 77 minutos, o capitão era o médio centro Rodrigo, natural de Viseu (foi internacional júnior no ano do guarda-redes do Sporting Vítor Damas), sempre gostei de dar primazia aos jogadores da terra, dando continuidade à linha do professor José Moniz, que substituí no comando técnico em 1980/81, contei também com a ajuda do João Bastos, secretário técnico, outro viseense», continuou.
«Não há impossíveis...»
Idalino sublinhou também a importância para a região em ter uma equipa na Liga, salientando o trabalho da autarquia, na pessoa do antigo presidente Fernando Ruas e do atual, João Azevedo: «Foi meu jogador na 3.ª Divisão, no Penalva do Castelo, bom moço. Renovaram o estádio, está belíssimo, num espaço que é o pulmão de Viseu, o Parque do Fontelo.»
E, através de A BOLA, Idalino Almeida ainda deixou uma mensagem ao plantel dos viriatos para o duelo com os leões: «Acontece, de longe a longe, uma equipa menor ganhar a um grande, como na altura aconteceu. O Sporting era muito melhor, mas foi daqueles jogos em que nos saiu a lotaria. Continuem a trabalhar no ritmo que têm feito, à imagem do treinador, vê-se que há ali homogeneidade e um conceito sobre bons métodos de trabalho. Não são as grandes estrelas que às vezes fazem as equipas, mas sim o valor do grupo e, claro, não há impossíveis!»
Um visionário que foi mal interpretado
Idalino Almeida contou ainda como foi mal interpretado nas declarações prestadas após a vitória em Alvalade. «Houve polémica porque falei que o futebol estava num caminho diferente, porque os métodos de treino começariam a renovar-se, com o conhecimento dos treinadores com formação académica. Fui alvo de alguma chacota, até por dizer que os treinadores deviam ter conhecimento científico, de nutrição, de fisiologia, etc. E, de facto, tudo veio a confirmar-se», recordou, enumerando os treinadores/professores que passaram pelo Académico: Carlos Alhinho, José Moniz e, mais recentemente, Sérgio Fonseca, que devolveu o clube ao principal escalão nacional, 37 anos depois.
«Fui eu que o captei para as camadas jovens do Académico, em 1984. Começou como guarda-redes, depois foi para avançado-centro e ainda jogou a defesa-central, fez bonita carreira no clube. Depois licenciou-se em Educação Física. Fui eu que o alertei para tirar o curso, porque a vida de futebolista acabava por volta dos 30 anos, eu era formador de professores no Politécnico de Viseu e tive a honra de ser professor dele», contou Idalino Almeida, antes de concluir: «Ter uma equipa na Liga traz benefícios em várias áreas, além de ser o reconhecimento de uma região imortalizada por Aquilino Ribeiro, que escreveu As Terras do Demo.»
Bruno Pinheiro já empatou e perdeu, só falta ganhar
Bruno Pinheiro prepara-se para cruzar caminho com o Sporting pela quarta vez. Atualmente no comando técnico do Ac. Viseu, carrega na bagagem um registo de um empate e duas derrotas em três confrontos oficiais com os leões, procurando a primeira vitória diante do emblema de Alvalade.
O histórico começou a desenhar-se na temporada 2021/2022, quando liderava o Estoril. No primeiro embate, à 6.ª jornada da Liga, a equipa da Linha caiu em casa pela margem mínima (0-1), e na segunda volta do campeonato, na deslocação ao Estádio José Alvalade, o desfecho foi mais pesado, com os estorilistas a saírem derrotados por 0-3.
O resultado mais positivo do técnico frente aos verdes e brancos surgiu em 2024/2025, quando orientava o Gil Vicente. Num duelo taticamente rigoroso, a contar para a 15.ª jornada da Liga, Bruno Pinheiro conseguiu travar o favoritismo leonino em Barcelos, arrancando um nulo (0-0).
Agora, ao serviço dos beirões, Bruno Pinheiro, que celebra o 50.º aniversário no próximo dia 30, tentará vencer o Sporting pela primeira vez.