Agate Sousa sagrou-se campeã mundial do salto em comprimento na Polónia2026. IMAGO
Agate Sousa sagrou-se campeã mundial do salto em comprimento na Polónia2026. IMAGO

Agate Sousa: «Acreditaram em mim e isso não tem preço!»

A benfiquista que se sagrou campeã do Mundo, em março, está a três centímetros de concretizar o sonho que agora persegue. Rendida a Lisboa, aos pastéis de Belém e aos portugueses ignora os insultos racistas que diz não representarem os portugueses, nos quais se inclui desde 2024

Agate Sousa, sagrou-se campeã do mundo de salto em comprimento em pista curta, mas a sua ambição não se esgota na medalha de ouro. A saltadora de 25 anos, que recentemente participou no programa «Protagonista» da BTV, revelou que o seu grande objetivo pessoal continua a ser ultrapassar a barreira dos 7 metros.

Apesar de ter chegado ao Mundial com a melhor marca do ano (6,97 metros), a atleta confessou que a sua principal meta era superar os 7 metros em pista coberta, um feito que já alcançou ao ar livre com um salto de 7,03 metros. «Fiz 6,92 metros, foi o suficiente para ganhar a medalha de ouro e estou muito feliz por isso. Mas não desisti de ultrapassar a barreira dos 7 metros», afirmou a campeã, que ainda se encontra a recuperar de uma lesão.

Agate Sousa no Mundial de pista curta na Polónia, em 2026

A competir por Portugal desde 2024, Agate Sousa descreveu a emoção de ouvir o hino nacional no pódio. «É uma sensação maravilhosa. Sinto-me portuguesa, de alma e coração, e dar esta alegria aos portugueses é uma recompensa por todo o trabalho», declarou, sublinhando a sua gratidão pelo país que lhe deu «todas as condições para competir ao alto nível».

A atleta que nasceu em São Tomé e Príncipe recebeu a nacionalidade portuguesa há apenas dois anos, apesar de ter chegado ainda jovem ao GD Cavadas primeiro e depois o JOMA, antes de passar a representar o Benfica, que teve um papel fundamental na sua carreira, considerando a sua transferência para o clube da Luz como a «primeira grande medalha».

A saltadora agradeceu especificamente à coordenadora Ana Oliveira por ter acreditado no seu potencial. «A chegada ao Benfica foi como chegar a outro mundo. Tudo muito profissional e, como disse, mudou a minha vida», acrescentou.

«O Benfica é um clube maravilhoso, que nos dá todas as condições para evoluirmos, para treinarmos e para competirmos ao mais alto nível», elogiou a atleta.

Com os olhos postos no futuro, Agate Sousa já se foca nos Europeus ao ar livre, que se realizam em agosto. Consciente da responsabilidade acrescida pelo título mundial, a atleta acredita que, se apresentar a sua «melhor versão», terá «condições para lutar pelas medalhas» e tentar melhorar a sua marca pessoal.

Do lançamento do peso ao salto em comprimento

A carreira de Agate nem sempre esteve ligada ao salto em comprimento. Curiosamente, a sua primeira modalidade foi o lançamento do peso, uma escolha motivada pela sua aversão à corrida. «Eu não comecei no salto em comprimento, comecei no lançamento do peso. Eu não gosto de correr e, por isso, o peso parecia-me perfeito para mim», confessou. Em São Tomé e Príncipe, participava em provas esporadicamente e vencia, mas o seu futuro na disciplina era incerto devido à sua constituição física «muito franzina».

Foi um treinador que a aconselhou a mudar para o salto em comprimento, por ser «veloz e magra». A transição não foi imediata nem fácil. «Não foi amor à primeira vista», admitiu, explicando que a disciplina exige muita corrida, algo que nunca apreciou. No entanto, os bons resultados obtidos já em Portugal levaram-na a dedicar-se exclusivamente à modalidade, com o objetivo claro de se tornar «uma das melhores do mundo».

A chegada ao Benfica representou um ponto de viragem decisivo. «Foi como chegar a outro mundo. Tudo muito profissional e, como disse, mudou a minha vida», afirmou. O ambiente do clube exigiu um novo nível de seriedade, que se revelou «determinante» para a sua evolução. Com o apoio da estrutura benfiquista, começou a melhorar as suas marcas, superando a barreira dos 6 metros e, mais tarde, a dos 7 metros ao ar livre.

A atleta sublinha a importância do apoio que recebeu. «Acreditaram em mim, desde o início. Isso não tem preço, e, para um atleta atingir os seus objetivos, é fundamental ter uma retaguarda como a que eu tenho, no Benfica e na minha família». Esta aposta motivou uma mudança de mentalidade, sentindo uma «gratidão enorme» pelo clube e por Portugal, que «mudaram, para sempre, a minha vida».

«Tenho muito orgulho no que já conquistei, mas nada me faz esquecer que nada teria sido possível sem que o Benfica aparecesse e me levasse a este nível».

A vida em Lisboa e o orgulho em ser portuguesa

A viver em Lisboa, a atleta mostra-se encantada com a cidade, elogiando «o sol, as praias, a comida, os pastéis de Belém». Descreve-a como «muito bonita, muito acolhedora e com muita luz», sentindo-se acarinhada, especialmente pelos adeptos do Benfica que a reconhecem na rua.

Apesar de enfrentar comentários negativos nas redes sociais sobre as suas origens, a atleta minimiza o seu impacto, considerando-os obra de «uma minoria que não representa os portugueses e Portugal». Tais incidentes não diminuem o seu sentimento de pertença: «Não é isso que impede que tenha imenso orgulho em ser portuguesa, em dar alegrias aos portugueses e de me sentir muito bem a viver em Lisboa e a representar o Benfica».

Sobre a competitividade crescente na sua modalidade, a atleta reconhece o desafio. «Os concursos estão cada vez mais competitivos, existem atletas novas a aparecer e a tornar as medalhas cada vez mais difíceis de atingir». No entanto, a sua ambição permanece firme: «Se quero ser uma das melhores do mundo, tenho de estar nestas competições com o objetivo de as vencer».