A Justiça e a justiça desportiva nem sempre lado a lado. Imagem gerada por Inteligência Artificial
A Justiça e a justiça desportiva nem sempre lado a lado. Imagem gerada por Inteligência Artificial

Pagar bem para falar menos? Era bom era...

FPF apresenta proposta para aumentar multas e sanções sobre uma série de comportamentos inaceitáveis. Mas é preciso, também, garantir que elas têm efeito prático na sua aplicação

Este título é um contrassenso, porque o que não falta por aí é gente que, se pudesse, pagava para ser ouvida e poder falar mais. Até para gritar. Está na natureza humana esta vontade de ser escutado.

Mas o futebol português, lamento, chegou ao limite. E por isso é de louvar a iniciativa da Federação Portuguesa de Futebol, da qual A BOLA dá conta, de propor o aumento (e de forma assertiva) do preço das multas e do peso das sanções por uma série de prevaricações que já não se deviam usar, nomeadamente coação, agressões, declarações ofensivas, violência nas bancadas, pirotecnia, comportamentos discriminatórios (racismo, xenofobia, homofobia, LGBTfobia) ou assédio sexual e moral.

Há ainda um ponto dedicado ao atraso no pagamento de salários, que pode vir a custar pontos.

Para já, ao que se sabe, é uma proposta federativa que poderá, de per si, ter efeitos nas suas competições caso seja aprovada. Naturalmente, espera-se — e espera a FPF em primeira instância —que a Liga Portugal abrace a causa e vá a tempo de votar favoravelmente estas propostas, por forma a fazê-las entrar em Assembleia Geral da FPF em tempo útil para passarem a vigorar já no início da próxima época.

Conhecendo algo do futebol português, creio que estaremos numa daquelas alturas em que todos fingem concordar nas questões de princípio mas alguém há de arranjar forma de protelar decisões. E decisões desta envergadura só terão efeito se penderem sobre os mais fortes, leia-se os clubes que disputam os campeonatos profissionais.

Tudo o mais será operação de cosmética. Por falar em cosmética, há outro tema que devia entrar rapidamente na ordem do dia: já existem mecanismos antirracismo, antipirotecnia, antiviolência. Estão nas leis e creio não estar em falência cognitiva se arriscar que já li várias notícias sobre, por exemplo, sentenças de interdições de estádios ou jogos à porta fechada por prevaricações nestas áreas. Umas mais mediáticas que outras.

Admito que uma ou outra possa ter sido levada à prática, mas nenhuma de primeira água no que à informação e visibilidade diz respeito.

Porque entre as decisões da justiça desportiva e os recursos que daí podem advir vai um mundo de atrasos e expedientes. Se há uma justiça desportiva, que ela se cumpra no seu âmbito. Caso contrário mais vale ir logo entupir os tribunais civis e não se fala mais nisso.