José Mourinho, treinador do Benfica - Foto: Miguel Nunes
José Mourinho, treinador do Benfica - Foto: Miguel Nunes

A posição de Sidny, Ríos que não é Rui Costa e o FC Porto de 2003: tudo o que disse Mourinho

Treinador do Benfica analisou vitória «merecida», mas «difícil», contra Estoril «bem treinado». Soluções para problemas físicos podem estar na Liga 2

— Que análise faz ao Benfica no primeiro jogo do ano, tendo em conta o desafio que a pressão alta do Estoril coloca?

O Benfica teve dificuldades. Fez muita coisa bem, mas também fez alguma coisa errada. Gosto sempre de relativizar as coisas e, às vezes, os adversários têm culpa nas tuas dificuldades e deficiências. Jogam bem, são bem treinados e têm bons jogadores. Criam dificuldades tanto na posse, porque é uma equipa que mesmo sem criar grandes oportunidades, esconde bem a bola e circula muito bem, mete muita gente por dentro e tem aqueles dois na frente [Marqués e Begraoui] que procuram atacar a profundidade. Na minha opinião, não é a melhor equipa para pressionar alto, porque têm muita qualidade na primeira fase e desmontam a tua pressão e a equipa fica partida. Isso aconteceu um par de vezes na primeira parte, na segunda já não. São também uma uma equipa difícil de analisar e preparar o jogo porque variam os comportamentos. Por exemplo com o SC Braga jogavam ao homem. Como disse na antevisão, têm uma maneira muito interessante de jogar e sabíamos que ia ser difícil. O que não podemos fazer é sofrer um golo quando e como sofremos. Depois de fazer o 2-0, não se pode sofrer, aos 47 ou 48 minutos, não se pode abordar um lance individual com aquela fragilidade, leviandade e pouca responsabilidade contra o jogador mais criativo e melhor no drible do Estoril. Uma coisa é chegar ao intervalo a ganhar 2-0, outra é 2-1. Ao intervalo, o meu trabalho taticamente foi analisar umas imagens muito rápido e fundamentalmente não deixar a equipa continuar frustrada, senti a frustração a entrar no balneário. No final de contas, estávamos a ganhar e era tentar avaliar aquela pressão que se sentia. É uma vitória que merecemos. Na segunda parte soubemos controlar bem o jogo e, quando acelerámos, tivemos êxito. Havia um bocadinho de dúvidas relativamente ao Sidny, primeiro jogo, em casa, com a camisola do Benfica, entrar num momento crucial. Retirou-nos as dúvidas logo no início, depois assistiu para o terceiro golo e o jogo acaba. Mas foi um bom Estoril e um bom jogo.

— Há novidades sobre o problema físico do Enzo Barrenechea? Pode explicar por que razão o Aursnes não começou de início?

— Diversos problemas. O Enzo já sabem mais ou menos desde ontem. O tempo de recuperação... vamos ver.... Depende da abordagem médica à situação. O João Veloso tem uma situação muito parecida no jogo da equipa B contra o Académico de Viseu na Liga 2, Com as semanas de três jogos que vamos ter em janeiro, mesmo que a abordagem seja conservadora, perde jogos e para nós é difícil porque não temos assim tanta gente. O António Silva sentiu o músculo no aquecimento, era ele quem ia jogar e não o Tomás. Na prática não foi um problema, são um bocadinho diferentes, mas em termos de qualidade não há grande diferença jogar o Tomás ou o António. O problema era que não tínhamos nenhum central no banco e também temos o Wynder com uma lesão importante. Por outro lado, queremos ajudar a equipa B a estabilizar-se na classificação porque é importante para o Benfica tê-la na Liga 2. Querer ajudá-los a ter jogadores com mais experiência entra um bocadinho em conflito. Entre mim e o Veríssimo não há nem nunca haverá conflitos é só uma comparação. O Aursnes tem um problema que se arrasta há algum tempo e a acumulação de jogos não ajuda. Quisemos evitar que jogasse, mas com o resultado em 2-1, com poucas opções para estabilizar o jogo e no momento em que meto o Sidny, que é sempre um ponto de interrogação na estreia, tinha que tentar equilibrar do outro lado. Se as coisas não tivessem a correr bem na esquerda, tinha um jogador na direita que fechava o espaço interior. Jogou 15 a 20 minutos sem grande esforço, mas neste momento é um jogador de risco.

— O Ian Cathro disse que gostava de agradecer ao José Mourinho por ter chegado onde chegou. Como recebe estas palavras de um treinador estrangeiro?

— São sempre palavras boas de ouvir, é melhor ouvir isso do que o oposto. Ele tem uma trajetória muito própria. Se de certa maneira abri portas a alguém que não foi um grande jogador, que venha mais do lado académico, é natural que tenha acontecido. Ele está muito bem formado. Tem experiência internacional, esteve muitos anos com o Nuno [Espírito Santo], esteve na Arábia, em Inglaterra, na Premier League que é um palco de experiência importante. Em Portugal está a deixar marca, seja do ponto de vista da comunicação, social, ou do campo. A equipa tem a impressão dele. O Estoril encontrou uma estabilidade onde não precisa de olhar para trás com medo, nem a responsabilidade de acabar nos três ou quatro primeiros, Encontraram uma plataforma de estabilidade onde desenvolvem um jogo que não é só bonito, às vezes é bonito, mas é fácil de ganhar. Jogam efetivamente bem, é agradável de ver e podem conseguir resultados importantes mesmo contra as equipas grandes. Por isso é que eu dizia que é uma vitória importante, difícil, mas merecida.

— Como avalia a prestação de Manu Silva?

— O Manu posicionalmente é muito Enzo, são dois jogadores muito parecidos do ponto de vista posicional, são jogadores que dão equliíbrio à equipa. Nesse sentido, o Manu fez um bom jogo. A diferença é que o Enzo só não jogou três jogos desde o início da época, enquanto o Manu só jogou dois a titular. Isso vê-se no jogo, ao Manu ainda falta aquela intensidade e ritmo de jogo, mas fez o seu papel bem e deu o equilíbrio que a equipa precisava contra uma equipa difícil que deixa dois jogadores na frente. Ajudou-nos e fez um jogo equilibrado.

— O Sidny mostrou por que é que o Benfica o contratou? Veio dar outro tipo de ritmo à equipa?

— Para mim, para o Presidente, para o Mário Branco, para o Sabrosa e para os meus assistentes, que também participaram na análise ao jogador, não foi surpresa. Relativamente aos benfiquistas, só tens uma oportunidade de criar uma boa primeira impressão e ele conseguiu isso hoje. Agora se calhar as responsabilidades aumentam porque as pessoas começam a esperar mais dele. O Sidny onsidera que a sua melhor posição é a de lateral, seja à direita ou à esquerda. Para ser lateral comigo ainda falta qualquer coisa, falta trabalhar connosco para aprender como defendemos na linha de quatro. Como ala, tem motor nas pernas, velocidade, saída para os dois lados porque o pé direito e o pé esquerdo são iguais. Uma coisa é entrar a ganhar 3-0, outra é entrar a ganhar 2-1, sempre com o passado dos pontos perdidos nos últimos minutos. Entrou com enorme confiança, bateu um canto de pé esquerdo, um livre direto, agarra na bola e leva-a para o último terço. Isso demonstra também do maturidade emocional, apesar de ser um miúdo e ter só chegado agora ao nível do Benfica, parabéns a quem trabalhou com ele, seja na seleção, seja no Estrela.

— Há uma frase de José Mourinho lembrada por muita gente: «em condições normais vamos ser campeões e em condições anormais também vamos ser campeões»[proferida a 20 de fevereiro de 2023 ao serviço do FC Porto]. Numa época marcada por alguns escândalos de arbitragem, o Benfica pode ser campeão em condições anormais?—

— É uma frase antiga, em estados de maturidade diferentes. Mais maturidade, mais tranquilidade; menos maturidade, algumas declarações mais difíceis. Quando cheguei ao FC Porto encontrei uma equipa muito mal treinada e muito fraca, que tinha tanto espaço para melhorar e eu acreditava tanto no meu trabalho que nem foi um risco dizer aquilo. Sabia o que estamos a fazer para melhor a equipa para o ano seguinte, e depois os resultados confirmam. O Porto acabou por ser muito forte comigo e naqueles dois anos não era muito difícil ter afirmações deste tipo. Agora, pela maturidade e também pela situação, não vou dizer isso. Vou dizer que, começando uma época com uma pré-época bem organizada e com trabalho de escritório, todos embutidos no mesmo espírito, o Benfica tem obrigatoriamente boas possibilidades na próxima época. Este ano, a tabela demononstra que somos terceiros, a três pontos do segundo e a sete, oito ou dez do primeiro. O matematicamente possível alimenta-nos, não termos perdido no campeonato dá-nos essa esperança, mas não vamos esconder que o FC Porto está a fazer um campeonato extraordinário e que o Sporting tem uma grande equipa. Não vamos misturar as coisas por ter havido aqui e ali pontos caídos do céu, para ser simpático, que é uma grande equipa, com um bom treinador e bons jogadores. É difícil para nós este Sporting e este FC Porto, mas, como dizemos no balneário, vamos a eles.

— Richard Ríos foi fundamental para o Benfica conseguir dominar a partida e trazer outra tranquilidade ao jogo?

Uma força da natureza, quilómetros percorridos, montes de duelos ganhos, grande fisicalidade, atropela adversários, mas aqui e ali precisamos de ter mais bola, menos ganhar e perder. No Benfica tem de ser mais, não estou a falar especificamente só dele. Naquela zona do campo é preciso ter mais presença de espírito, mais Rui Costa. Mas é um jogador imprescidível para nós, está a crescer. Ele e o Dahl são provavelmente os dois jogadores que tiveram um maior crescimento.

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Prestianni foi titular em três dos últimos quatro jogos. Como avalia a evolução dele desde que chegou?

— Esquecemo-nos, mas o Prestianni tem idade para estar a jogar na equipa B e quase a ir à Youth League jogar com os meninos da idade dele. Às vezes eu próprio esqueceço-me e cobro dele coisas que, pela idade, não podemos cobrar. Ali há sempre o talento e a expectativa de coisas boas, mas também o espaço para erros. Ele tem aprendido a defender melhor. Numa equipa como a nossa, que defende zonal, é preciso conhecer o jogo e o posicionamento da bola. Ele está a crescer muito nesse aspeto, sem perder a irreverência e a qualidade técnica. Tem jogado mais nos últimos tempos e vai continuar assim, É um jogador que está a crescer.