A outra corrida do Tour que custa milhões
BORDÉUS — Todos os anos, no início de julho, milhões de pessoas instalam-se ao longo das estradas de França, e não só, para ver passar o Tour. Só que, segundo os próprios números da organização, quase metade dos entusiastas e entusiasmados fãs não está ali pela corrida. Está ali pela caravana. E é assim desde o primeiro momento.
Em Bordéus, onde A BOLA esteve a acompanhar o Tour, muito antes de os ciclistas se fazerem à estrada para a 6.ª etapa que terminou na capital mundial do vinho, desde cedo os fãs acotovelavam-se pelo melhor lugar, neste caso o local mais próximo possível do sítio por onde horas mais tarde, os principais patrocinadores iriam desfilar e distribuir brindes. Indiferentes aos 40 graus que aqueciam a cidade francesa e que obrigavam os carros dos bombeiros a integrar o desfile para molhar toda a gente recorrendo a mangueiras, atirando água sobre as milhares de cabeças que resistiam estoicamente ao calor, à espera dos ciclistas e, claro, do interminável e variado leque de coisas que horas mais tarde seriam atiradas para o meio das pessoas.
Na realidade, o Tour de France também não nasceu pelo amor ao ciclismo, mas sim de uma guerra comercial na imprensa. Foi criado em 1903 pelo jornal francês L'Auto para superar nas vendas o jornal rival, Le Vélo. Até a camisola amarela, hoje um dos símbolos mais reconhecidos do desporto mundial, nasceu de uma decisão puramente de marketing, ainda que naquela altura o conceito nem sequer fosse conhecido.
O L'Auto era impresso em papel amarelo, e a maillot jaune foi escolhida em 1919 precisamente para que o líder da corrida se destacasse no meio do pelotão — e, já agora, funcionasse como anúncio ambulante do jornal que patrocinava a prova.
Se a corrida nasceu para vender jornais, a caravana publicitária nasceu para financiar a corrida.
BORDÉUS — Em 1937, a presença de Joséphine Baker na partida do Tour levou os franceses à loucura. A cantora e dançarina — e dizem que espia da Resistência Francesa, além de ativista dos Direitos Civis — foi tão aplaudida como era nos espetáculos em Paris onde dançava vestindo apenas uma icónica saia de bananas.
Célebre, na década de cinquenta, tornou-se também a acordeonista Yvette Horner (primeiro contratada pela marca de fogões Calor e depois pelos aperitivos Suze) quando tocava em cima do tejadilho de um Citroen decorado a rigor.
14 milhões de brindes
Segundo dados oficiais da ASO — Amaury Sport Organisation, a empresa que organiza o Tour, a Vuelta, o Dakar e muitos outros eventos desportivos — cerca de 14 milhões de espectadores juntam-se à beira da estrada todos os verões! E 47% deles estão ao frio e à chuva à espera não da corrida, não para ver passar os ciclistas,mas que a caravana passe e pare.
Por isso, basicamente um espectador em cada dois está ali para apanhar um boné, uma t-shirt, um par de meias, porta-chaves, um apito ou amostras de salsichas, queijos, bolachas ou qualquer outra coisa por mais estranha que possa parecer e que pode ser um brinde no Tour.
BORDÉUS — Segundo alguns sites franceses, foi o próprio Henri Desgrange, o diretor do jornal L´Auto quem, à procura de mais financiamento, aceitou pela primeira vez a presença de veículos publicitários dentro do Tour, propondo às maiores empresas francesas da altura que participassem na sua invenção e alinhassem na ideia.
As primeiras marcas a entrar foram o queijo La Vache qui rit e as bolachas Delft. Curiosamente, já antes disso a chocolataria Menier distribuía tabletes de forma não oficial, mas, no ano seguinte, dizem os historiadores que distribuiu mais de 500 mil tabletes de chocolate e chávenas de chocolate quente aos ciclistas no cimo das subidas de montanha.
A ideia revelou-se tão oportuna e lucrativa que ainda hoje é descrita como «visionária».
A caravana deste ano conta com 180 veículos, distribuídos ao longo de 12 quilómetros de cortejo. Os carros alegóricos remetem para o Carnaval, com bonecos gigantes e coloridos, música divertida, tudo serve para chamar a atenção, como se fosse preciso, num espetáculo diário de 40 minutos.
Ao longo das três semanas que dura a Volta a França são distribuídos qualquer coisa como 16 milhões de objetos publicitários, tudo pesado ronda as 250 toneladas e deixa em polvorosa os ativistas ambientais, mas que é uma festa é, espalhada por 21 etapas, na outra corrida do Tour.