Tour 2026: uma máquina de fazer dinheiro
BORDÉUS — Mas não é qualquer um que pode entrar neste desfile. O investimento da marca pode custar entre 200 mil e 500 mil euros, pagos à ASO que, em 2024, teve um lucro líquido de 131 milhões de euros sobre uma faturação de 374,9 milhões — um crescimento de 16,8% face a 2023. Em 10 anos, as receitas do grupo — que também organiza a Vuelta e o Dakar — cresceram 80%, segundo o jornal L'Essentiel de l'Éco.
Tantos milhões multiplicam-se de três maneiras: os direitos de transmissão televisiva, que representam entre 50% e 55% da faturação; o patrocínio, entre 30% e 40%; e as taxas pagas pelas cidades e regiões que querem receber uma etapa do Tour.
Em França, uma cidade paga cerca de 100 mil euros para acolher a partida de uma etapa e 140 mil euros para receber a chegada — uma cidade que organiza as duas coisas gasta cerca de 250 mil euros, segundo Christian Prudhomme, diretor do Tour.
Contudo, quando a Volta a França sai para fora de portas, e tem acontecido muito nos últimos anos — este ano saiu de Barcelona, por exemplo — os valores sobem. A cidade espanhola de Bilbau gastou 12,2 milhões de euros para acolher a partida em 2023 e Barcelona, que se estreou este ano em 113 edições da competição francesa, terá pago entre 7 a 9 milhões de euros.
Está claro, portanto, que o Tour já não se mede apenas em quilómetros de asfalto. Em 2025, a corrida tornou-se também um fenómeno de audiências sem precedentes, confirmando o seu estatuto de maior espetáculo do ciclismo mundial — dentro e fora da estrada.
BORDÉUS — Com tantos milhões a rolar, seria de esperar que os ciclistas, os atores principais deste espetáculo recebessem uma fortuna. Porém, a realidade é que o prémio para o vencedor do Tour é de apenas 500 mil euros. O vencedor de Wimbledon, por exemplo, recebeu mais de 4 milhões de euros (4.171.800 euros), 8 vezes mais, e o finalista derrotado 2 milhões, enquanto o prémio para o segundo classificado no Tour é de 200 mil e o terceiro corredor leva 100 mil.
Ao contrário de outras modalidades, em que há distribuição dos direitos televisivos no ciclismo, as equipas não recebem qualquer parte. A totalidade — mais de 100 milhões de euros anuais, segundo estimativas — fica com o organizador. A dotação total paga aos ciclistas no final do Tour é de 2,3 milhões de euros. A proporção é pois de quarenta para um.
Essa dotação de 2,3 milhões representa, segundo a imprensa francesa, cerca de 2% dos direitos de televisão que a organização arrecada todos os anos.
O Tour de France não é apenas uma corrida de bicicletas. É, desde a primeira hora, uma máquina de vender coisas — e as bicicletas, por mais espetaculares que sejam a subir o Alpe d'Huez, continuam a ser apenas o pretexto para um gigantesca máquina de fazer dinheiro.
Tudo começou em Lille, no Grand Départ, onde mais de um milhão de espectadores se juntaram à beira da estrada para assistir à partida da etapa inaugural. Essa etapa reuniu ainda 3,3 milhões de telespectadores em França, com 37,7% de quota de audiência e um pico de 4,9 milhões, segundo o Total Velo.
O interesse, contudo, não esmoreceu ao longo das três semanas. A média por etapa fixou-se em 3,8 milhões de espectadores e 42,6% de share, enquanto o alcance total da corrida atingiu 45 milhões de franceses — mais quatro milhões do que em 2024!
O momento alto foi a chegada a Paris, com 8,7 milhões de telespectadores, e a etapa do Mont Ventoux que chegou aos 65% de audiência. A comparação histórica reforça a tendência: em 2023, o Tour tinha somado 42,5 milhões de telespectadores acumulados, com uma média de 4,2 milhões por etapa.
O fenómeno também ultrapassou fronteiras: na Europa, quase 150 milhões de pessoas acompanharam o evento, somando mais de 700 milhões de horas de transmissão em direto e Portugal é um bom exemplo, onde há uma elevada probabilidade de entrar num qualquer café ou restaurante durante o mês de julho e as televisões estarem sintonizadas na Grand Boucle.
Nas redes sociais, a explosão foi ainda mais evidente. Se a etapa inaugural gerou 1,3 mil milhões de vídeos vistos, o total da hashtag #TourdeFrance ao longo da corrida atingiu 1,5 mil milhões de visualizações — quase o dobro dos 818 milhões registados em 2024.
Por trás dos números, uma narrativa também ajudou a prender o público: o tetracampeonato de Tadej Pogacar e a estreia da inédita tripla subida ao Butte Montmartre na etapa final, em Paris, um golpe de teatro que a organização soube explorar.
Para trás ficaram os anos negros manchados pelos escândalos de doping. Hoje, o Tour é uma festa fora e dentro da estrada e usa uma equação simples: mais espetáculo na rua, mais consumo no ecrã e mais engagement digital.
A BOLA viajou a convite da Velux