José Mourinho, treinador do Benfica
José Mourinho, treinador do Benfica

A machadada final que não o foi e o terramoto de Lisboa: tudo o que disse José Mourinho

A conferência de imprensa do treinador do Benfica após vitória na Madeira sobre o Nacional

José Mourinho, treinador do Benfica, não escondeu, em conferência de imprensa, a satisfação com a vitória sobre o Nacional, na Madeira, mas sobretudo com a exibição e a reação às adversidades — os madeirenses marcaram primeiro, mas Prestianni, aos 89', e Pavlidis, na compensação, fizeram a reviravolta.

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— Não permitimos ao Nacional criar nenhuma situação de perigo. Jogámos sempre no meio-campo adversário, a equipa muito organizada. No momento da perda de bola, a equipa muito organizada a recuperar e a não permitir ao Nacional qualquer tipo de contra-ataque. Acho que na primeira parte já deveríamos estar a ganhar. Na segunda parte, na minha opinião, entrámos tão bem quanto na primeira. É difícil falar do árbitro, mas há um penálti sobre o Barreiro ao minuto 50. Eu no jogo não me apercebi, fiquei com dúvidas. Mas depois de ver, no final do jogo, é um penálti claro sobre o Barreiro, mas deixamos passar isto. E depois, completamente contra a corrente do jogo, é um erro nosso. No único erro que nós cometemos na zona defensiva, o Nacional faz o golo. E depois aí estamos no limiar do risco e a equipa teve uma resposta extraordinária. Manteve a tranquilidade, mas começou a acelerar, começou a intensificar. Depois começa a apanhar uma equipa já em fadiga. E os nossos jogadores que entraram, os três que entraram, o Prestianni, o Ivanovic e o Schjelderup, entraram bem, deram outro andamento ao jogo. E depois há aquela coisa, quando se ganha nos últimos minutos há sempre aquele dramatismo, mas eu acho que a performance do Benfica, globalmente, é muito bem conseguida. Nós em Guimarães tivemos uma muito boa segunda parte, mas aqui tivemos um bom jogo durante os 90 minutos. É uma vitória obviamente difícil, mas é uma vitória muito, muito, muito merecida.

— Costuma no final dos jogos sair diretamente para o balneário, mas aqui foi ter com os jogadores, aplaudiu os adeptos... O que mudou?

— Vocês já me conhecem, não dou tangas, não invento histórias. Hoje, se nós perdemos este jogo, dou os parabéns aos meus jogadores. A única coisa que eles não fizeram, se nós tivéssemos perdido por 1-0, foi fazer golo. Eles fizeram tudo bem. Num campo difícil, com um adversário difícil, com um perfil de jogo que eu não comento, porque não tenho nada a comentar o jogo que fazem os meus adversários, difícil a perder 1-0 completamente contra a justiça do jogo, que é um golpe duro... Eu arrisquei, mas eles aceitaram o risco. O Sudakov começa na esquerda, depois passa para a posição 10, e depois nos últimos 15 minutos, quando entra o Schjelderup, passa para a posição 8. Só para dar um exemplo do nível de entrega dos jogadores. Hoje, se perco o jogo seria, obviamente, uma frustração grande. Não quero nem imaginar o que é que diriam todos aqueles que comentam futebol em Portugal. Não quero nem imaginar aquilo que diriam se nós perdêssemos o jogo. Mas, para mim, é importante aquilo que eu vejo, aquilo que eu sinto, e aquilo que eu vi, aquilo que eu senti, foi uma boa equipa a jogar bem, com as suas limitações, porque nós temos limitações. Quando nós jogamos contra uma equipa em bloco ultrabaixo, com gente grande, com defesas bons no jogo de área, às vezes falta-nos ali uma referência, com um perfil diferente daquilo que nós temos. Mas nós fomos à procura de soluções, demos largura, metemos gente a entrar de trás, metemos gente técnica a poder encontrar pequenos espaços dentro de uma defesa superfechada, e os jogadores mereceram. Por isso é que eu festejei tanto, porque quis, imediatamente, dar-lhes aquele reconhecimento, porque a vitória é deles. Nós treinadores, às vezes, fazemos substituição que dá, que não dá, mas são eles que dão ou que não dão, são eles que aceitam ou não o risco. Esta coisa dos treinadores que arriscam muito é tudo teoria, porque na prática, lá dentro, são eles que têm que aceitar tanto um perfil de jogo como outro perfil de jogo. E da mesma maneira que os jogadores do Nacional lutaram até ao fim pelo seu perfil de jogo, nós fomos com o nosso perfil até ao final, e na minha opinião merecemos ganhar.

— Esta atitude está mais perto daquilo que pretende o José Mourinho?

— Não é José Mourinho, é o Benfica. Jogando melhor, jogando pior, tendo mais talento, tendo menos talento, tendo mais jogadores disponíveis ou menos jogadores disponíveis, o Benfica tem de ir até ao fim. O Benfica hoje, se perde o jogo, é uma injustiça tremenda. Mas, independentemente de qualquer tipo de reação negativa que pudesse haver da parte dos associados, dos adeptos, obviamente da imprensa seria o terremoto de Lisboa mais uma vez, mas foram Benfica... E também eles assumirem o risco, terem a coragem de não terem problema de, 'ok, se perdermos 2-0 perdemos 2-0, mas 1-0 e desmoralizados e passivos, não'. A equipa assumiu esse risco muito bem. Estou muito contente, obviamente, com a vitória, que é de pontos que nós nos alimentamos, mas também gosto muito de estar contente com a maneira como a equipa jogou. Estou contente. Acho que os jogadores também mereciam isto. E Ajax fora de casa, e viajar só no dia seguinte, e ter um dia para treinar e pouco, e viajar de novo para a Madeira, e ter um jogo difícil como este, num campo que é difícil para toda a gente, num jogo que se tornou ainda mais difícil, em função de não termos feito golo... Porque também há uma coisa que parecia, ou que podia parecer, o negativismo que tem acompanhado o Benfica. Antes do golo do Nacional, o Barreiro falha um golo de baliza aberta. E o Nacional, que não faz um único remate à baliza, vai lá e faz golo. Isto, normalmente, no Benfica que eu vim encontrar, seria a machadada final no jogo. E para eles não foi. O Barreiro falha o golo, fazemos o erro lá, o Nacional faz o golo, faltam 20 minutos, que nós sabíamos que não iam ser 20, sabíamos que iam ser 7 ou 8, porque da maneira como o jogo estava a ser gerido era isso que iria acontecer. Mas eles foram, e foram, e foram. E quando fazemos o golo do empate, eu acho que o segundo golo ia aparecer, porque a onda já estava grande.