A final: onde todos querem chegar
Antes de mais, uma nota que não é consensual, mas é real: o 3.º lugar é competitivamente mais honroso do que o 4.º. Num mundo de performance, o objetivo tem de ser sempre atingir o máximo rendimento possível. Nunca disputei um jogo de 3.º lugar, mas imagino a dificuldade emocional que é, após a frustração de falhar uma final, voltar a ativar os jogadores para competir. Ainda mais numa seleção nacional, onde a motivação não é financeira. É egóica, identitária, ligada ao país, à família, ao respeito e ao desejo de ficar na história.
Mas o que é, afinal, estar numa final de uma competição de seleções?
Não é fácil lá chegar. Muito poucos o conseguem. Apenas três treinadores portugueses atingiram uma final da CAN: Carlos Queiroz, José Peseiro e Nelo Vingada. Tive o privilégio de fazer parte da última final da AFCON 2024, ao serviço da Nigéria. E isso marca-nos para sempre.
Jogámos contra a Costa do Marfim, uma seleção que protagonizou uma recuperação notável. Esteve praticamente fora nos oitavos-de-final, conseguiu o apuramento, mudou de treinador e alterou completamente o enquadramento competitivo. A responsabilidade passou claramente para os jogadores, com protagonismo forte do adjunto, e o efeito foi imediato. Resultou. Acabaram campeões.
Minutos antes de entrarmos em campo para a final, em Abidjan, o que mais me impressionou foi a moldura humana no estádio. Algo verdadeiramente esmagador. A determinada altura do jogo, sentia dores de cabeça com o barulho constante do apoio costa-marfinense. Foi uma final emotiva, intensa, bem jogada, com oportunidades de parte a parte. Como uma final deve ser.
Depois de termos vencido a África do Sul nas meias-finais, pairava no ar uma sensação clara de dever cumprido: chegámos à final. Mas isso não basta. O maior desafio passou a ser este: transformar o “chegámos” em “vamos ganhar”. Não permitir que os níveis de ativação baixassem, não aceitar a ideia inconsciente de missão cumprida.
Para além da estratégia de jogo, tivemos de gerir tudo o que rodeia uma final: media, adeptos, figuras do governo a quererem proximidade com os “heróis”, impacto das famílias, solicitações constantes. A nossa preocupação passou a ser reduzir ruído, proteger os jogadores e recentrar tudo na missão. Nada tinha sido conquistado ainda.
É exatamente essa sensação que Marrocos e Senegal irão sentir hoje. Muito ruído, enorme pressão, dificuldade em manter foco e concentração, e a consciência clara de que ainda não há nada ganho.
Comecei a caminhada na Seleção da Nigéria com um sonho simples: ser campeão da CAN. Chegámos à final. Saí melhor treinador. Melhor líder de contextos. E, acima de tudo, conheci-me melhor a mim próprio.
No futebol — e na vida — tudo é possível.