«A cultura polaca é parecida à russa»
Tomás Tavares, 24 anos, nado e criado no Benfica, já tem um currículo recheado de passagens por diversas paragens. Agora está no líder da Liga polaca, o Wisla Plock e apesar de estar em processo de recuperação em Portugal duma lesão, conta-nos como é viver naquele lado da Europa, perto duma Ucrânia em guerra e num país com uma cultura parecida à russa.
— Tem um pouco de mistura dos vários sítios onde estive. É frio, como na Rússia. As pessoas também são parecidas e a cultura um pouco parecida com a cultura russa. Mas é tranquilo. Já estou habituado a viver fora de Portugal há algum tempo, Por isso, e é uma adaptação fácil, seja onde for. Vivo sozinho.
— Os hábitos deles são próximos dos nossos?
— Creio que sim. Não sei de outros hábitos que possam ter, porque acabo por estar no clube e depois ir para casa e estar mais com os jogadores que não são polacos quando estou mais fora do clube . Assim, hábitos mais diferentes, ainda não reparei.
— Sente se muita a proximidade da Ucrânia, que está em guerra e é mesmo ao lado?
— Até agora não senti nada. Na cidade onde estou também estamos mais no centro do país e não é assim tão perto da fronteira.
— E a população polaca, é mais pró russa ou pró ucraniana?
— Para ser sincero, julgo que pende mais para o lado ucraniano. Aliás, hoje em dia, a maior parte das pessoas na Europa já o é. Não são a favor de do conflito que está a ver e por isso apoiam a Ucrânia. Acho que seja assim, mas não é uma coisa que seja muito falada. É apenas a minha opinião em relação ao que possam pensar.
— Como é que se ambientou ao clima muito frio?
— Já tinha estado na Rússia, portanto. Mas esta época ainda não passei muito frio porque começou ali em meados de novembro e depois o campeonato parou no início de dezembro. Posteriormente, quando voltámos estivemos na Turquia a fazer o estágio de na pré-época de inverno. Por isso agora continua tal. Continua a estar assim um frio agressivo, mas é uma coisa a que nos habituamos quando estamos a treinar. Nota-se os primeiros dez minutos; depois o corpo aquece.
— Gosta da comida polaca ou nem sequer prova?
— Quando comemos no clube, sim. Mas também sou suspeito porque em Portugal come-se bastante bem, tal como em Espanha que é aqui ao lado. Por isso, é difícil habituar-nos a outra.
— Há notícia de que uma parte da população polaca é xenófoba. Já sentiu isso?
— Dirigido a mim nunca. Mas já disseram casos que aconteceram, o que pode tornar o país mais complicado nesse sentido. Mas até agora é no clube e na Liga. As pessoas são, tranquilas e não senti, não senti nada de nada desses problemas.
— Os polacos têm algum hábito estranho?
— O que me dá a parecer é que não comem, pelo menos não comem tanto e tantas vezes como nós. É estranho. Também nós, portugueses, costumamos sempre comer bem e várias vezes.
— Os polacos são fanáticos por futebol, como se diz?
— O que eu tenho visto nos jogos, seja qual for o estádio, está sempre bem compostos e o ambiente é bom.
— A Liga polaca é melhor ou pior que o nossa?
— Não sei se é melhor ou pior Dizer se é melhor ou pior não sei, mas penso que é um bom campeonato. Fiquei surpreendido com o ambiente nos estádios e com a qualidade das equipas e isso vê-se pelos jogadores que de lá saem, como por exemplo a deste miúdo que o FC Porto contratou [Pietuzevski]. É uma liga que tem diversas equipas nas competições europeias, os primeiros lugares vão sempre aos play-offs e costumam entrar na Liga Europa e na Conferência. É um bom campeonato, principalmente também para os jogadores mais jovens que podem dar um salto para outras ligas, maiores.
— O Wisla Plock está em primeiro. Acredita que o título é possível?
— Sim, agora é uma coisa que talvez seja seja mais possível do que no início da época, quando o campeonato ainda não tinha começado, porque é uma equipa que normalmente fica ali a meio da tabela, mais ou menos. Porém, pela primeira volta que fizemos, pelos jogadores que lá estão ou por reforços de qualidade que possam chegar é um objetivo que está nas nossas cabeças. Mas só poderemos estar focados nisso se pensarmos jogo a jogo e se fizermos o nosso trabalho.
— Passou de lateral para médio defensivo. Porquê?
— Foi uma decisão do treinador. Disse que me conhecia e que as minhas características e qualidades podiam ser aproveitadas a médio defensivo. E a verdade é que sinto-me bem. Claro que tive o período da adaptação no início ali aquelas duas, três semanas de treinos e de jogos. Mas agora posso dizer que me sinto bastante confortável e a equipa também com confia em mim naquela posição. Porém, tanto posso jogar a lateral como a médio que não sou propriamente um jogador de correrias.
— Gosta mais ou menos de jogar a médio?
— Não gosto mais nem menos. Como dizem os futebolistas estamos contentes quando jogamos. Joguei toda a vida a lateral, mas agora sinto-me confortável a médio defensivo. Mas seja a lateral, seja a médio darei sempre o melhor de mim.
— Como que foi apreender movimentos e posicionamentos novos?
— As pessoas de fora não vêem, mas a exibição de vídeos de lances quer dos treinos, quer de jogos ajuda muito, nem que seja em coisas mínimas. Pelo menos a mim auxiliou-me muito no posicionamento e nos movimentos. E depois também um pouco do meu conhecimento e perceção do jogo. Mas foi sem dúvida a parte mais chata, digamos assim, da de da mudança de posição, porque a lateral não tem tantos posicionamentos diferentes. Mas com o passar do tempo foi-se tornando um hábito e uma coisa natural também me posicionar nos espaços certos só mais atrás como mais à frente.
— Como comunica com os companheiros de equipa e com o treinador?
— Tanto o treinador principal como os adjuntos falam inglês. E os jogadores também, e que sem dúvida é uma é uma ajuda para qualquer comunicação entre todos. E também estão lá alguns jogadores que falam espanhol e o próprio Matchói [Djaló, ex-P. Ferreira] que fala português. É o meu melhor amigo no plantel.