A batalha por ser o…último classificado!
Ser último não orgulha ninguém nos dias de hoje, mas nem sempre foi assim e o estatuto de lanterna vermelha chegou a desencadear autênticas guerras no Tour!
Durante vários anos, a competição para ser o último era tão ou mais renhida do que para vencer! Parece louco? E é.
Mas, nas décadas de 50, 60 e 70, alguns corredores perceberam que terminar em último podia ser financeiramente muito mais vantajoso do que ser primeiro. Sem prémios chorudos, os ciclistas que terminavam o Tour como lanterna vermelha tornavam-se figuras populares. Eram convidados para inúmeros critérios pós-Tour — corridas de exibição muito bem pagas — porque o público queria conhecer «o homem que nunca desistiu».
Em muitos casos, o último classificado chegava a ganhar mais dinheiro nesses critérios do que alguns que tinham terminado a meio da classificação geral.
Perante a oportunidade, o fenómeno teve consequências inesperadas e começaram as batalhas pela última posição, com alguns corredores a gerir deliberadamente o esforço para não ultrapassar determinados adversários na classificação geral.
Valia tudo.
O cachet dos critérios era excelente e o lanterna vermelha era uma celebridade. Havia corredores que fingiam avarias, outros escondiam-se atrás dos carros da caravana, perdiam tempo deliberadamente, controlavam a vantagem sobre o penúltimo, enfim, todas as estratégias eram válidas e a imprensa francesa até lhe chamava «a corrida vista por trás».
Ao ponto de obrigar a organização do Tour a mudar as regras e endurecer os controlos dos tempos-limite, passando a eliminar com maior rigor quem chegava demasiado atrasado.
O mito argelino
Há histórias extraordinárias de lanternas vermelhas, quase cinematográficas, como a de Abdel-Kader Zaaf. É provavelmente a lanterna vermelha mais famosa de sempre.
Zaaf era um ciclista argelino que corria pela seleção francesa nos anos 50, numa época em que a Argélia ainda era território francês. Na etapa entre Perpignan e Nimes, no Tour de 1950, escapou juntamente com Marcel Molinès e chegou a ter cerca de 20 minutos de vantagem.
O calor era infernal.
A história que correu durante décadas dizia que um espetador lhe ofereceu uma garrafa de vinho em vez de água. Zaaf, alegadamente sem perceber, bebeu, embriagou-se, deitou-se debaixo de uma árvore e, quando acordou, montou-se na bicicleta mas no sentido contrário da corrida. Esta é uma das histórias mais repetidas no Tour, mas alguns historiadores franceses dizem que o que aconteceu foi diferente e apontam antes para uma combinação de desidratação extrema, insolação e consumo de anfetaminas — naquela altura comuns no pelotão. Foram os viticultores da zona que o refrescaram com líquido, o que ajudou a alimentar a lenda do vinho.
Outro episódio envolve o inglês Tony Hoar no Tour de 1955.
Na altura, os ingleses eram uma raridade absoluta na prova e Hoar rapidamente percebeu uma coisa: a classificação geral interessava muito menos do que a notoriedade.
À medida que o Tour avançava, apercebeu-se de que o último classificado recebia tanta atenção da imprensa francesa como muitos corredores do top 20.
No seu livro de memórias, In the Mood for Cycling, recorda que começou a ouvir falar dos cachets pagos pelos critérios pós-Tour e percebeu que a Lanterne Rouge era quase uma personagem, mas acabou por terminar penúltimo, falhando por pouco a última posição.
Mais tarde confessaria que talvez tivesse sido um erro porque o último era quem recebia mais convites para correr durante o verão.
Foi isso que cedo, ainda nos anos 30, perceberam rapidamente Pierre Matignon e Marcel Wilhelm, dois corredores pouco conhecidos, que decidiram que a luta era pela popularidade do último classificado.
Durante várias etapas começaram praticamente a marcar-se um ao outro e enquanto os favoritos atacavam na frente, eles faziam contas atrás.
Se um perdia quinze minutos, o outro tentava perder vinte. Se um sofria uma avaria, o outro deixava-se ficar.
Os jornalistas franceses começaram a brincar dizendo que existia um Tour paralelo, disputado atrás do carro-vassoura.
Mais recentemente, em 1983, o suíço Gilbert Glaus quase foi eliminado por querer chegar em último. Nesta altura, a organização já desconfiava dos corredores que tentavam terminar em último e Glaus terá passado parte do Tour a controlar cuidadosamente a classificação geral para conservar a última posição. Só que exagerou e numa etapa nos Alpes aproximou-se tanto do tempo-limite que quase foi eliminado. Acabou por escapar, mas perdeu, entretanto, a lanterna vermelha.
Já neste século, Wim Vansevenant ganhou um estatuto ímpar: é o único tricampeão da lanterna vermelha, depois de entre 2006 e 2008 ter terminou o Tour em último lugar. Era um gregário de luxo da equipa Rabobank e passava dias inteiros a puxar pelo líder nas montanhas, ia buscar bidões, protegia os chefes de fila do vento e, quando terminava o trabalho, deixava-se ficar para trás. Quando lhe perguntaram se procurava ser lanterna vermelha respondeu, com humor. «Prefiro dizer que fui o último dos que conseguiram chegar a Paris.»
A BOLA viajou a convite da Velux