Roberto Martinez fala aos jogadores de Portugal durante uma pausa para hidratação - Foto: IMAGO

36 graus no Canadá?!

Crónica diária sobre o dia a dia do jornalista João Pimpim na cobertura do Mundial 2026

PALM BEACH — Dizer adeus a Palm Beach Gardens, após 22 dias de uma rotina tão intensa quanto inesquecível, assemelha-se a fechar um capítulo de pura vertigem jornalística.

Atrás de nós fica o quartel-general de Portugal nesta fase do Mundial, uma engrenagem diária tricotada entre conferências de imprensa milimétricas, treinos matinais da Seleção de Portugal sob o olhar atento de dezenas de jornalistas e diretos televisivos com a pulsação a bater no limite.

Mas o verdadeiro corpo desta Route 66 fez-se na estrada: duas maratonas transcontinentais de ida e volta a Houston, milhares de quilómetros queimados no ar em direção a Miami para devorar a mística da Ocean Drive, caçar reportagens de ambiente e registar um vox pop carregado de histórias. Guardaremos na retina aquela fauna urbana absolutamente incrível, a flora inebriante, a imensidão das praias, a areia fina e o mar tépido.

Ficam as memórias intemporais de um piquenique noturno na praia, banhado por lua cheia colossal e o susto transformado em poesia ao ver foguetões a rasgar o céu da Florida. O corpo habituou-se ao calor implacável, à humidade asfixiante, a esse ar espesso que quase se tornava comestível e ao suor constante.

Partimos agora para não voltar, pelo menos no que resta deste torneio. As saudades já começaram a morder o espírito antes mesmo de entrarmos no avião, mas o destino seguinte chama por nós com uma ironia climática deliciosa.

Em Toronto, para onde ruma agora a caravana nacional, espera-se um fenómeno meteorológico perfeitamente excecional. As previsões apontam para a semana mais quente de todo o ano no Canadá, com as temperaturas a rondarem uns impensáveis 36 graus e uma humidade muito mais elevada do que o padrão normal da região.

Lá se vai a doce ilusão de encontrar um fresquinho balsâmico para as pernas dos jogadores e para o cabedal dos repórteres. Mas a verdade é precisamente esta: a aventura excitante, imprevisível e tão incrivelmente rica de fazer a cobertura de um Mundial vive destas mutações constantes. É um privilégio absoluto, o verdadeiro serviço de uma vida inteira entregue à paixão das palavras e do asfalto vivo.

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