Raphinha lesionou-se no segundo jogo do Brasil neste Mundial, diante do Haiti. Foto IMAGO
Raphinha lesionou-se no segundo jogo do Brasil neste Mundial, diante do Haiti. Foto IMAGO

Mundial: lesões musculares são o prato principal do boletim clínico da fase de grupos

'Tribuna livre' é um espaço de opinião em A BOLA aberto ao exterior, este da responsabilidade de Sérgio Loureiro Nuno, fisioterapeuta olímpico dedicado a 'performance' e recuperação de lesões desportivas; professor universitário; doutorado em Ciências da Saúde e Motricidade Humana

A fase de grupos do Mundial ficou marcada por algumas surpresas dentro das quatro linhas, mas também por um número significativo de lesões que afetaram várias seleções e condicionaram as aspirações de alguns dos favoritos ao título. Portugal, para já, teve apenas duas baixas nos primeiros jogos. Rúben Dias não estava apto na estreia na competição, enquanto Tomás Araújo esteve ausente no jogo intermédio da fase de grupos. Pelo menos, as confirmadas. Outras seleções têm tido mais dores de cabeça.

Já começou a fase a eliminar e o departamento médico de várias equipas torna-se tão importante quanto o desempenho em campo. Entre os casos mais preocupantes está o de Yéremy Pino, da seleção espanhola, que sofreu uma lesão na clavícula e está em dúvida para o resto da competição. A Espanha perde assim uma das suas principais armas ofensivas numa altura decisiva do torneio, apesar de os exames complementares terem descartado o diagnóstico de fratura. Mas não é caso único, no nosso vizinho ibérico. Nico Williams sofreu uma lesão muscular no adutor direito, na sequência de uma entrada dura frente ao Uruguai, e a sua disponibilidade para o resto da competição dependerá da evolução clínica. O jogador já tinha chegado ao Mundial com limitações físicas, depois de uma época marcada por várias lesões, tendo sido pouco utilizado na fase de grupos pelo treinador espanhol.

Outros jogadores de diferentes seleções também enfrentam problemas físicos, desde lesões musculares a traumatismos, obrigando os selecionadores a reajustar estratégias e a recorrer à profundidade dos seus plantéis.

O segmento mais afetado por lesão é a região da coxa. Uma parte considerável das lesões musculares na parte anterior da coxa consiste em contusões diretas, que podem ocorrer durante colisões. Em lesões diretas, a dor localiza-se no local do trauma e a gravidade é determinada pela quantidade de energia, superfície do impacto e estado contraído ou relaxado dos músculos durante o impacto. O diagnóstico precoce e o tratamento adequado são fundamentais para um resultado bem sucedido. Ao analisar o mecanismo da lesão e integrar as informações clínicas e de imagem, os responsáveis do departamento médico podem tomar decisões clínicas, muitas vezes ainda na fase aguda da lesão. Além disso, lesões ligeiras negligenciadas podem levar a incapacidade crónica e tempo prolongado fora da competição.

Por outro lado, as lesões nos músculos posteriores da coxa estão entre as lesões ortopédicas mais comuns em futebolistas. Estas lesões são particularmente frequentes em modalidades que exigem sprints e mudanças rápidas de direção e podem afetar de forma significativa o desempenho e a longevidade da carreira de um atleta. As implicações destas lesões vão para além do período de recuperação física. O retorno à atividade desportiva está dependente de diversos critérios multifatoriais que englobam força, mobilidade, flexibilidade e que dificilmente se conseguem num prazo tão curto como a duração do Campeonato do Mundo.

Há várias estrelas entre os atletas com lesão muscular na coxa: Raphinha (Brasil), Isak Hien (Suécia), Schlotterbeck (Alemanha), Recee James (Inglaterra) e Julian Ryerson (Noruega).

Raphinha sofreu uma lesão muscular na coxa durante a fase de grupos e está em dúvida para os próximos compromissos da seleção canarinha. A evolução nos próximos dias será determinante para perceber se o avançado poderá regressar ainda durante a competição, após a seleção hoje ter garantido os oitavos-de-final frente ao Japão.

A Suécia também teve uma má notícia, depois de confirmar a lesão de Isak Hien. O defesa central contraiu uma grave lesão muscular na coxa esquerda e ficou fora do torneio. A ausência de Hien representou uma baixa importante para a seleção sueca, que perdeu um dos seus principais pilares defensivos numa fase decisiva da competição. Por outro lado, o também central Schlotterbeck tinha ficado em dúvida para o resto do Mundial, sabendo-se porém que a Alemanha foi entretanto eliminada. Os laterais Recee James e Julian Ryerson também não deram boas notícias aos seus países. Recorde-se que James já tinha sofrido uma lesão muscular no mesmo local que o afastou dos relvados por quase dois meses. Thomas Tuchel contava com ele para titular, mas terá de readaptar as suas decisões. No caso da Noruega, parece que o jogador do Benfica Fredick Aursnes está mesmo predestinado a jogar a lateral direito. Após a lesão de Julian Ryerson, o destino voltou a colocá-lo ontem, frente à Costa do Marfim, numa posição em campo que tem sido tema de conversa, inúmeras vezes, em Portugal.

Para além das lesões musculares, já ocorreram outros problemas físicos ainda mais graves. Um exemplo é o do médio canadiano Ismael Koné, que sofreu uma fratura na perna esquerda (tíbia) durante o jogo frente ao Catar, após uma entrada de Assim Madibo. O jogador já foi operado com sucesso, mas ficou automaticamente afastado do resto do torneio. Apenas deve voltar aos relvados no início de 2027.

Noutro sentido, nem sempre um diagnóstico prévio confirma o pior cenário. É o caso de Édouard Mendy, guarda-redes do Senegal. O antigo jogador do Chelsea esteve em Jeddah a ser reavaliado da lesão sofrida contra a Noruega. Havia suspeita de uma rotura ligamentar no joelho, mas até ao momento não foi confirmada e o guarda-redes já solicitou o regresso para poder voltar a tempo de acompanhar o jogo da sua seleção contra a Bélgica.

Voltando ao caso de Portugal, as aspirações da seleção passam, em grande medida, pela capacidade de manter os seus principais protagonistas no máximo rendimento. O dinamismo de Nuno Mendes, que é de longe o melhor lateral esquerdo do Mundo mas não tem sido a locomotiva que já mostrou há uns meses, a intensidade e o vai-e-vem proporcionados por Vitinha e João Neves, o regresso de Bruno Fernandes e Bernardo Silva aos níveis exibicionais demonstrados na Premier League e a disponibilidade física dos homens da frente poderão ser fatores determinantes para o percurso português neste Mundial. Num torneio tão exigente, a condição física e a capacidade de manter os jogadores-chave em pleno rendimento podem fazer a diferença entre uma campanha histórica e uma eliminação prematura.

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