O português que chora em Miami a dor da tragédia na Venezuela
MIAMI — Há uma geografia da dor que nenhuma distância consegue apagar. Sentado no coração vibrante de Miami Beach, rodeado pelo desfile incessante de turistas que procuram o sol da Florida, o senhor Manuel Rodrigues personifica o verdadeiro paradoxo da diáspora.
O cenário em redor convida à leveza, mas os olhos deste português, natural de Vila Nova de Gaia, cravam-se no telemóvel com o peso de quem tem o coração sitiado pela tragédia. Há escassos dias, a Venezuela, o país que o acolheu durante décadas e onde construiu uma vida, foi sacudido pelo sismo mais devastador do último século.
A contagem oficial do horror é um soco no estômago: os dados fidedignos apontam para pelo menos 1.719 mortos, mais de 5.034 feridos e uma mancha assustadora de milhares de desaparecidos na sequência do duplo terramoto de magnitudes 7.2 e 7.5 que colapsou quase oitocentos edifícios em Caracas e La Guaira.
Para Manuel, cada número é um rosto, cada réplica é um arrepio que lhe percorre a espinha. «Muita tristeza, porque também tenho lá dois irmãos. Tenho uma na Candelária e tenho outro mais novo na Trinidad. Mas, graças a Deus, não aconteceu nada com eles. O maior desastre foi em La Guaira», desabafa.
O tom de voz mistura o sotaque nortenho com a cadência castelhana acumulada ao longo dos anos. A sua vida lê-se como um roteiro de partidas e reencontros. Deixou Portugal e o aconchego de Gaia com apenas 17 anos, rumo a uma Venezuela próspera, onde formou família com uma cidadã venezuelana.
Teve três filhos: um vive no Chile e os outros dois acompanham-no em território americano. Na Venezuela, Manuel viveu durante quase 20 anos, uma vida inteira de trabalho antes de a crise o forçar a nova mudança: está em Miami há oito anos.
Hoje, Manuel Rodrigues é o encarregado geral e a alma tática da Moises Bakery, uma padaria mítica cujo proprietário, Joaquim Braz, não pôde estar presente durante a nossa reportagem por motivos de agenda. Ali, naquele balcão onde as bandeiras se cruzam, Manuel opera milagres diários que servem de conforto a uma comunidade ferida.
É ele quem comanda a produção de iguarias que fundem o melhor de dois mundos. Pelas suas mãos experientes passam as arepas fumegantes, os tequeños dourados e as empanadas tradicionais, mas também o perfume das bolas de Berlim e dos pastéis de nata.
Naquele espaço, Manuel encontra mais venezuelanos do que portugueses, tornando-se uma espécie de conselheiro e farol de estabilidade para os emigrantes que ali entram em busca de um sabor que os lembre de casa. No entanto, a montra de doces e salgados serve agora de pano de fundo para um luto partilhado.
A comunidade chora uma destruição sem precedentes e Manuel sofre com o tormento de ver o país de adoção cair num abismo de escombros. «A nível da população, a maioria dos edifícios na parte de La Guaira e do aeroporto, aquilo foi... Aquilo é falta de administração, porque são edifícios que não sofreram testes de solo e, então, aquilo estava mal construído», lamenta.
«As notícias dizem que são painéis, como cartão, e tudo se partiu. É como uma casa de papel, puro cartão. Verdade que nunca se tinha visto nada assim», lamenta o gaiense.
A dor de ver uma nação ser fustigada pela natureza quando já se encontrava de joelhos devido à crise humanitária é o que mais custa a digerir atrás do balcão de Miami Beach. Manuel resume o fado venezuelano com uma lucidez desarmante: «A Venezuela a sair de um problema e logo aparece outro. Ainda no sábado tornou a mover-se a terra, 5.2 de magnitude. É difícil, os edifícios que resistem vão acabando por cair».
Quando a notícia do duplo sismo rebentou, o pânico instalou-se na padaria. Manuel não esconde as lágrimas daquele dia negro. «Foi o pior. Eu pus-me a chorar, a minha filha também, porque ela também tem lá muitas amigas da universidade. Ela licenciou-se na Venezuela e tem muitas recordações, muitas amigas e companheiros que perdeu naquele desastre. É muito triste», recorda.
O futebol como penso rápido
O futebol, esse elemento catalisador de paixões e distrações, surge quase como um penso rápido para uma alma em carne viva. Manuel confessa que não falha um único jogo de Portugal neste Campeonato do Mundo, tendo sofrido na pele com o nulo heróico arrancado frente à Colômbia.
O foco agora muda para a Croácia e para a eliminatória que se segue em Toronto, um desafio que espera ver coroado de sucesso, embora deixe um aviso tático ao selecionador Roberto Martínez sobre o uso de Cristiano Ronaldo.
«Eu estou de acordo que o Cristiano jogue a primeira parte ou a segunda parte, mas que mude, que o treinador mude. Que ponha um rapaz mais jovem, para dar mais força», atira. «Compreendemos que ele é uma figura, mas já não é o mesmo de há vinte ou trinta anos. Esperemos que Portugal ande para a frente», acrescenta com convicção.
Ao fechar a porta da Moises Bakery, com o sol a despedir-se de Miami Beach, Manuel Rodrigues deixa uma mensagem de esperança e união: «Foi um prazer. Um abraço para Portugal e para as famílias de todos nós. Adeus». A nossa pátria cabe toda num abraço imenso e transatlântico de fé e coragem.