11 de setembro: o dia em que o Boavista calou Anfield no meio do caos
11 de setembro de 2001.A consternação que pautou o dia após os atentados terroristas nos EUA contrastou totalmente com a alegria que invadiu a noite do Boavista. Os axadrezados, campeões nacionais em título, estrearam-se na edição 2001/02 da Liga dos Campeões com um resultado histórico em Anfield Road, uma das catedrais do futebol europeu.
O Boavistão empatou na casa do Liverpool (1-1), mas sonhou com um feito ainda maior quando Elpídio Silva inaugurou o marcador aos 3’. O antigo avançado brasileiro recordou um dia «especial» em termos pessoais e «triste pelas circunstâncias» em conversa com A BOLA. «Foi um sonho realizado jogar na Champions League e estrear-me com um golo num palco daqueles, principalmente com o Boavista», frisou.
Silva não esqueceu, ainda assim, o impacto de um dia «negro». A euforia axadrezada, parcos minutos depois das 20h, contrastou com a apreensão que invadiu o grupo, cerca de seis horas antes. O antigo avançado, ainda no hotel, não se apercebeu imediatamente do que tinha acontecido às 13h48 de Liverpool: «Estava de fones. A televisão passava as imagens [do atentado], só que estava distraído e não me apercebi. Mas depois caiu a ficha. Ficámos aflitos.»
O antigo avançado, que em Portugal também representou SC Braga, Sporting e Vitória SC, admitiu que o plantel «pensava que o jogo não ia acontecer.» «Houve um burburinho mas depois chegou a mensagem de que ia acontecer. Mesmo assim, concentrámo-nos e fizemos um grande jogo», realçou.
Cumprido um minuto de silêncio em memória das milhares de vítimas, era tempo de a bola rolar. Silva abriu as hostilidades com um golo para a história, pouco tempo depois: «Era daqueles avançados que me concentrava em poucas oportunidades. Pensava sempre: se não fizer golo na primeira oportunidade, na segunda vou marcar. Ganhei a bola a um defesa central de quase dois metros [Sami Hyypia] e marquei. A equipa técnica e os jogadores do Liverpool não estavam a acreditar no que estava a acontecer.»
Michael Owen restabeleceu um empate com um remate em jeito, à passagem da meia hora, mas Silva, hoje com 51 anos, realçou o mérito da defesa axadrezada, que «neutralizou quase todas as jogadas» a caminho de um «resultado justo».
O ambiente de festa em Anfield antecedeu o regresso à realidade, abalada pelo que acontecera horas antes em Nova Iorque, Elpídio detalhou uma partida de viagem até à cidade do Porto marcada por «muita segurança», «aflição» e «medo de que acontecesse alguma coisa». «A tensão estava sempre no ar», admitiu.
A receção calorosa dos adeptos já em solo luso «começou a tirar o peso» a uma viagem emocional.
A campanha de classe na Liga dos Campeões
O sonho do Boavista na Liga dos Campeões só estava a começar. As panteras terminaram a fase de grupos no segundo lugar, à frente de Dynamo Kiev e Borussia Dortmund, e garantiram a qualificação para a fase seguinte, onde acabaram por cair.
«Tínhamos um grupo muito unido. O Jaime Pacheco conseguiu formar um grupo de formiguinhas. Toda a gente corria, toda a gente marcava», frisou Elpídio. O então goleador axadrezado assinou mais três golos na prova, um dos quais diante dos reds, em casa.
O Bessa foi palco de mais um empate entre Boavista e Liverpool, a 24 de outurbo do mesmo ano: «Na segunda volta também fizemos um grande jogo. Marquei dois golos em dois jogos. Mostrámos quem era o campeão português.»
A «tristeza» pelo presente e futuro do clube
O Boavista foi o único clube que Elpídio Silva representou em mais de 100 partidas. No total, foram 108 entre 200 e 2003, pontuadas com 41 golos e 9 assistências. Um dos homens que ajudaram a engradecer a história das panteras olha com «tristeza» para um presente sem glória e que tem o futuro como mera viagem.
A última viagem a Portugal partiu o coração ao antigo goleador: «Faço sempre questão de visitar o Boavista. Senti-me muito mal. É muito triste ver um clube campeão, que fez grandes épocas na Champions League assim, mas espero que isso um dia possa mudar.»
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