Farioli: o discípulo de De Zerbi que ilumina a Côte d'Azur
Francesco Farioli (Foto: MAXPPP/IMAGO)

Farioli: o discípulo de De Zerbi que ilumina a Côte d'Azur

INTERNACIONAL30.01.202410:00

No segundo classificado na liga francesa mora um dos técnicos mais prometedores da atualidade; Nice é uma das defesas mais sólidas da Europa; é a sua terceira temporada apenas como técnico principal

34 anos, italiano, natural de Florença. Francesco Farioli tem sido, ao longo da presente temporada, um dos nomes mais vezes repetido por quem segue mais atentamente o futebol internacional. Para os outros, ainda poderá ser um desconhecido, porém há algo no seu currículo que deveria chamar de imediato a atenção: o jovem foi responsável pelo trabalho de guarda-redes do Benevento e do Sassuolo na altura de Roberto De Zerbi, um dos treinadores da moda.

Não foi futebolista profissional, mas cedo quis treinar. Após várias experiências, inclusive no Catar, na Academia Aspire, foi na Turquia que começou a chefiar equipas técnicas. Primeiro, no recém-promovido Karamguruk, que levou ao oito lugar, e depois no Alanyaspor, que bateu o seu próprio recorde de pontos conquistados e terminou no quinto posto. Deixou o país após o brutal sismo de fevereiro do ano passado. Na universidade de Coverciano (Centro Técnico Federal da FIGC, a federação italiana) garantiu o nível UEFA Pro e chegou, no último verão, ao Nice.

O emblema da Côte d’Azur é o segundo classificado da Ligue 1, a seis pontos do PSG, e o cenário até poderia ser melhor, não fossem três derrotas inesperadas em dezembro e janeiro, nas visitas a Nantes (2-1) Le Havre (3-1) e Rennes (2-0). Mesmo assim, é a segunda defesa menos batida de uma Big Five, com 11 golos consentidos em 19 jogos, apenas mais um do que o Inter de Milão. Já o ataque tem sido menos expressivo, com apenas 20 tiros certeiros, o pior registo entre os nove primeiros da tabela gaulesa. 

Festa do golo no Nice (Imago)

Na sua caminhada esta temporada, já venceu o PSG no Parque dos Príncipes (2-3), o Mónaco no Louis II (0-1) logo na ronda seguinte e o Rennes, em casa (2-0).

Princípios de jogo

Farioli distribui habitualmente os jogadores por três esquemas: o 4-4-2 o 4-1-4-1 e o 5-4-1, neste último caso, com a descida de Youssouf Ndayishimiye para o eixo. No entanto, um desdobramento específico durante as partidas é muitas vezes fundamental para garantir um maior equilíbrio, com a descida de um dos 8 para criar um duplo-pivot e assim libertar o outro. 

Terem Moffi (Foto: IMAGO / PanoramiC/IMAGO)

Defensivamente, o Nice é muito eficaz a retirar o adversário do corredor central e a comprimir o espaço, forçando turnovers em áreas adiantadas. A equipa sabe quase de forma instintiva quando deve chegar-se à frente ou baixar, alternando entre bloco baixo, médio e alto conforme o rival e o momento. No primeiro caso, ajuda ter a solidez do jogo aéreo de Dante, Todibo (sim, esse) e o guarda-redes Bulka.

Pressiona na sequência de gatilhos pré-estabelecidos muito bem definidos e em movimentos que pretendem anular não só o portador como linhas de passe (sombras de pressão), seja posicionamentos mais largos com bola por parte dos adversários ou posturas corporais menos corretas. A pressão é sempre coletiva, a contrapressão (reação à perda) feroz.

A primeira fase de construção está bem oleada e é extremamente paciente, à imagem de… De Zerbi. O objetivo é atrair e quebrar a forma do adversário, procurando libertar sempre um terceiro homem. Os centrais separam-se, com Bulka a funcionar como pivot. Os laterais podem ficar baixos para atrair a pressão e manter um bom número de unidades para uma boa circulação em segurança; ou meterem-se por dentro para isolar os alas diante do opositor direto para o 1x1. Verticalizar em ataque rápido é o objetivo e, quando não o consegue, o ataque posicional ainda carece de consolidação. 

Ataque elétrico

«O Nice é uma equipa de guerreiros, com e sem bola», garante Farioli. Tem razão.

Há muita energia no meio-campo com Khephren Thuram, Hicham Boudaoui e Morgan Sanson, fundamental para o desencadear de sprints elétricos até ao último terço e constante aparecer nas entrelinhas para ataques rápidos. A sua presença nas alas para apoio ajuda a gerar superioridades numéricas e favorecer a atuação dos extremos, sempre bem altos e a toda a largura para o 1x1.

Jeremie Boga é muito perigoso nesse capítulo. Mais físico, Gaetan Laborde pode ir para dentro para finalizar ou oferecer apoio no jogo aéreo, seja como referencia para bolas longas e assim segurar a bola ou em cruzamentos para a área. O 9 é o internacional nigeriano Terem Moffi, um portento atlético, que alia a competência na finalização ao discernimento para baixar e ligar ou aproveitar o espaço se não o acompanharem. Explosivo e poderoso, é muito difícil de conter. 

Jean-Clair Todibo (Foto: IMAGO / PanoramiC)

O intercâmbio posicional entre os três da frente ajuda a aumentar o nível de ameaça no ataque, sobretudo, como se referiu antes, em situações de transição ofensiva.

O que realmente impressiona em Farioli é a facilidade com que todas as suas ideias foram assimiladas em meses. O Nice é uma equipa de autor. De um jovem de 34 anos, com escassa experiência no campo e também a tomar decisões desde o banco. Porque, apesar de tudo, é a sua terceira época enquanto técnico principal. No entanto, ao olhar-se para a forma como a equipa joga, nada o faz crer.