«Na arbitragem tem de terminar o 'hoje sou profissional, amanhã não sou'»
— O que é que uma entidade externa para conduzir a arbitragem fará de diferente daquilo que faz o Conselho de Arbitragem atualmente?
— O foco. Uma entidade externa será muito aquilo que é atualmente a secção profissional do Conselho de Arbitragem. Deve focar-se no futebol profissional. O Conselho de Arbitragem da Federação Portuguesa de Futebol é transversal desde o futebol profissional até à segunda divisão de iniciados, tanto no futebol como no futsal, na liga BPI, primeira, segunda, terceira, quarta divisão. Ou seja, é uma quantidade de jogos muito mais alargada, uma visão muito mais alargada, muito mais holística. A entidade externa vai focar-se apenas e só no futebol profissional, tratar aqueles árbitros 24 horas por dia como profissionais da área, com estruturas totalmente profissionais, treinadores profissionais, preparadores físicos profissionais, psicólogos profissionais, uma unidade de saúde e performance totalmente profissional, de forma que os árbitros possam apenas e só focar-se naquilo que é a sua atividade. Num futebol altamente profissionalizado a arbitragem não pode continuar neste limbo. ‘Sou profissional, não sou, sou profissional algumas vezes, outras vezes não sou’. Acelerarmos o processo para a entidade externa irá ajudar muito neste processo.
— Sabendo-se que isso depende de uma revisão legal do regime jurídico das federações desportivas, quando acha crível que se possa avançar para essa entidade?
— Eu não coloco datas, porque não depende apenas da vontade da Liga, da Federação, da APAF, as entidades que vão estar envolvidas no processo. Como não depende apenas e só destas entidades, vai depender, como disse muito bem, de uma alteração ao regime jurídico das federações desportivas, irá necessitar de uma alteração à lei, é algo que não depende de nós, acho que será muito vago estarmos a colocar datas. Agora, estas entidades que eu disse e o próprio Conselho de Arbitragem devemos fazer a nossa parte e depois, a nível político, Federação e a Liga poderem fazer a sua força para que os passos se vão dando e acelerando esse caminho. Da parte do Conselho de Arbitragem é tentarmos, pouco a pouco, aproximar-nos dessa fase, começar a alargar o número de árbitros, irmos dando mais condições. Este caminho pode ir sendo feito de uma forma paralela, debaixo do Conselho de Arbitragem e da secção profissional tal e qual existe atualmente.
— O que estuda a Comissão Não Permanente de Arbitragem da FPF? O Luciano teve alguma influência na escolha das pessoas?
— Isso passou completamente ao lado do Conselho de Arbitragem. Essas comissões foram criadas pela direção da Federação, o Conselho de Arbitragem não teve qualquer escolha, não teve qualquer ligação, nem sobre temas, nem sobre pessoas. É algo completamente da Federação e passou ao lado do Conselho de Arbitragem.
— Para terminar, tinha aqui uma espécie de provocação, no bom sentido: o facto de o Presidente da Federação ser um ex-árbitro, para mais um ex-árbitro altamente conceituado, facilita a ação de um Conselho de Arbitragem ou, pelo contrário, pode até de alguma forma ser um fator inibidor?
— Não, de todo. É legítima a pergunta, mas de todo. O Presidente sabe separar muito bem a função dele enquanto dirigente da Federação Portuguesa de Futebol e o Conselho de Arbitragem, a independência que o Conselho de Arbitragem deve ter. Até porque ele próprio lutou toda a vida, enquanto árbitro de futebol, por um Conselho de Arbitragem independente. Tem existido uma lealdade institucional e uma liberdade institucional, como não poderia deixar de ser, naturalmente, por parte do Presidente da Federação, uma coisa fantástica. Não tem existido o mínimo de interferência. Sempre que eu peço ou solicito ajuda para mais condições, para poder também chegar de alguma forma a algum lado, a Federação Portuguesa de Futebol está disponível para isso, dá-nos as condições necessárias. É óbvio que nós, arbitragem, queremos sempre mais. Tem existido essa abertura e tem existido essa separação, clara e óbvia, não tem existido promiscuidade nenhuma no sentido de alguma tentativa de interferência.
— Acredito que um dos seus desejos para 2026 seja ver João Pinheiro no Campeonato do Mundo…
— O nosso atual Presidente da Federação Portuguesa de Futebol foi o último árbitro a estar num Mundial. Portanto, também para a própria Federação Portuguesa de Futebol e para o Presidente será muito gratificante ele perceber que a arbitragem caminha num sentido de curto, médio prazo, para conseguirmos voltar a ter uma arbitragem reconhecida. Felizmente, estamos a conseguir dar esse passo. E é muito pouco valorizado, muito pouco valorizado. Nós somos o país da Europa com mais árbitros internacionais, com o mesmo número de Espanha, de Itália, etc. Somos o segundo país do Mundo, à nossa frente só está o Brasil, com mais árbitros FIFA e valorizamos muito pouco isso. Este ano voltámos a ter mais três árbitros FIFA e isso demonstra o caminho que está a ser feito a nível de credibilização internacional. As pessoas lá fora também respeitam muito os nossos árbitros, confiam muito na nossa arbitragem e nos nossos dirigentes, inclusive eu próprio também fui convidado para fazer parte do painel de desenvolvimento onde estão os principais presidentes dos conselhos de arbitragem da Europa. Se o nome do João Pinheiro não sair, vão dizer que a arbitragem portuguesa não tem peso, que os nossos árbitros não prestam, mas estas conquistas que fomos conseguindo nestes oito meses, a presença do João Pinheiro numa final europeia, a presença no Mundial, agora dois árbitros de futsal no Europeu, tivemos uma árbitra, a Catarina Campos, presente no Europeu feminino, tivemos a Filipa Prata no Mundial de futsal, o Sérgio Soares considerado o melhor árbitro do mundo e presente no Mundial de Futebol Praia.
— Mas acredita que o João Pinheiro estará no Mundial?
— Eu acredito, acredito muito que o João Pinheiro estará no Mundial.
— É fácil adivinhar outro desejo seu para 2026, mas vou deixar o Luciano exprimi-lo. O que pediria aos clubes e aos agentes do futebol para 2026?
— Essencialmente pedia tranquilidade, responsabilidade. O nosso futebol tem pessoas de bem, muitas pessoas de bem. Temos dos melhores dirigentes que existem no futebol mundial. Temos os melhores treinadores, os melhores jogadores e acreditem que também temos os melhores árbitros que existem a nível internacional. O que eu pedia era apenas compreensão, nos deixassem também trabalhar, dessem tempo. Não pode ser normal todo este barulho à volta da arbitragem, em apenas oito meses de um Conselho de Arbitragem. Não é isso, de todo, que vai fazer-nos desviar do nosso caminho, mas é importante darem-nos condições. Tranquilidade. Respeitem o futebol, respeitem-nos, porque nós também respeitamos qualquer clube, independentemente das nossas decisões. Nós temos de tomar decisões, tal como também tomam os presidentes dos clubes, contratar o A, contratar o B, contratar o Z. Quando as coisas não correm bem, nós temos que assumir, e este Conselho de Arbitragem tem humildade para assumir os seus erros, dar um passo atrás, ajustar. Só gostávamos é que, para a opinião pública, e quando é para fazermos barulho, se pensasse mais no futebol e no seu todo.