As Taças que combatem a macrocefalia
O Vitória Sport Clube, depois de um percurso brilhante, em que derrotou o FC Porto no Dragão e o Sporting e o SC Braga, em Leiria, todos de ‘virada’, tornou-se no chamado ‘campeão de inverno’, e levou a Taça da Liga, pela primeira vez, para a cidade-berço.
Valerá a pena refletir um pouco sobre esta competição, mal-amada desde a primeira hora, que em cada época só é valorizada por quem ergue o troféu. Para as comparações que se seguem, o triunfo vimaranense não é contabilizado, porque ainda não são conhecidos os vencedores da Liga e da Taça de Portugal na época em curso.
Desde 2007/08, época em que a Liga de Clubes, então presidida por Fernando Gomes, inaugurou a competição, conquistaram a Taça em disputa, até 2024/25, Benfica (9), Sporting (4), SC Braga (2), FC Porto, V. Setúbal e Moreirense e, fora dos três grandes, estiveram na final Paços de Ferreira, Gil Vicente, Rio Ave, Marítimo (2) e Estoril. Se compararmos com a Taça de Portugal, no mesmo período, os resultados não são muito diferentes. Entre 2008 e 2025, a prova-rainha do nosso futebol foi ganha por FC Porto (7), Sporting (4), Benfica (2), SC Braga (2) e Académica, Desportivo das Aves e Vitória Sport Clube. Quer isto dizer que, nas 18 edições em causa, os três grandes ficaram com a Taça da Liga em 14 ocasiões, e com a Taça de Portugal em 13; também é confirmado o estatuto de D’Artagnan do SC Braga, vencedor de duas edições em cada uma das Taças.
Tratando-se de duas competições com formatos diferentes, com a Taça da Liga a surgir com um modelo que teoricamente seria muitíssimo favorável aos três grandes, a verdade é que o que se apura na comparação não é substancialmente diferente.
Haverá ainda para dizer que, enquanto nas 18 épocas analisadas, V. Setúbal, SC Braga, Moreirense, Académica, Vitória Sport Clube e Desportivo das Aves, levantaram troféus nacionais nas Taças, no que à I Liga diz respeito, a divisão de títulos foi feita entre os suspeitos do costume: FC Porto (8), Benfica (7) e Sporting (3).
Numa altura em que estão em cima da mesa do futebol português dossiers relevantíssimos, nomeadamente os que dizem respeito à venda centralizada dos direitos televisivos e à reformulação dos quadros competitivos profissionais, será bom refletirmos na melhor forma de impedir que o fosso entre os três grandes – com o SC Braga isolado entre o pelotão da frente e o pelotão de trás - e os outros continue a alargar-se. São prova do desequilíbrio absurdo vigente os 21 pontos que, em 17 jornadas, separam o primeiro do quarto classificado da I Liga, ou, mesmo, os 11 pontos que distam entre o terceiro e o quarto. Aqui a questão é sempre a de se saber como revitalizar a classe média, afinal a que define, com o advento da Liga Conferência, boa parte do posicionamento português no ‘ranking’ da UEFA. Dando mais dinheiro aos mais ‘pobres’, através da centralização? Ainda não se conhece a fórmula de repartição nem o montante global... Criando um modelo de competição que mantenha interesse até ao fim e proporcione mais receitas de bilheteira e possa criar um produto vendável internacionalmente? A maioria dos clubes parece não estar para aí virada e os ‘grandes’ têm-se revelado surpreendentemente passivos... Temas que podem vir à baila no I Congresso do futebol, no fim de janeiro.