Benfica em AG (DR)
Benfica em AG (DR)

A pergunta sem resposta na AG do Benfica

'Para lá da linha´

Sou de uma geração estranha: vivi metade da minha vida sem internet e telemóveis, metade com eles. Tive de me adaptar a essas novas tecnologias dia a dia. Sou, também, daquela primeira geração que já não sabe coser à máquina, mexer em eletricidade, fazer uma bainha ou desmanchar um carro, e telefona do smartphone ao pai, ao sogro, ou alguém que saiba. Coisas mais ou menos simples que nos tornam embrutecidos para muitas coisas, esquisitinhos a clicar em botões para tudo, a ver vídeos no YouTube sobre como colocar um aspirador a funcionar ou como descalcificar a máquina do café, especialistas em nada, no fundo.

Daí aquela sensação de liberdade que muitos sentiram naquele dia do apagão do ano passado, em que algumas horas sem energia obrigaram muitos ao regresso a algumas coisas simples, sem depender de tecnologia, como ligar o telemóvel à airfryer para fazer o jantar.

Acompanhei há dias a Assembleia Geral do Benfica para ser discutido o projeto para revitalizar a zona envolvente ao estádio da Luz, a construção do Benfica District. Em vez de apenas ir ao futebol, pretende-se que os adeptos passem lá o dia a viver, conviver, gastar. E em família. Escritórios, hotel, teatro, centro comercial, pavilhão maior, estádio maior, tudo em grande. 

Depois de uma apresentação do arquiteto e de vários milhões de euros terem sido atirados de um lado para o outro, houve lugar a perguntas dos sócios, que depois seriam respondidas. E a primeira foi desconcertante. O sócio não quis saber se vai haver muitas ou mesmo muitas derrapagens, para que serve um centro comercial junto ao maior shopping da cidade, como se vai encher o pavilhão semana a semana, nem sequer quando é que a equipa de futebol vai ganhar muitos jogos e ser campeã, a pergunta sacramental nestas reuniões. Não.

Quis saber quando é que haveria uma sala de convívio para os sócios. Um pedido tão singelo, tão longe da megalomania, que até gerou silêncio no pavilhão. Um regresso relâmpago a um tempo mais simples, sem espetáculos de luzes led e DJ no estádio - outra das queixas de alguns sócios, por acaso. O que é certo é que a questão ficou sem resposta. E isso diz muito. Implica um tempo que não volta, sem que saibamos muito bem para onde seguimos.