Vimos um OVNI no céu da Florida

Entre fatias de chouriço e mornas cabo-verdianas à beira-mar, um picnic noturno em Jupiter Beach transformou cinco jornalistas exaustos em crianças diante de um espetáculo espacial

PALM BEACH — Depois de 21 dias consecutivos a morder o pó da estrada, com o sono transformado numa miragem distante e o corpo fustigado pelas viagens de ida e volta a Houston, a engrenagem do Mundial concedeu-nos um armistício. 

Semanas de loucura: entrevistas feitas em cima do joelho, diretos televisivos com o fuso horário a morder os calcanhares e uma produção industrial de conteúdos para o papel, para o site e para as redes sociais. O jornalismo de trincheira exige tudo, mas há um momento em que a alma clama por um poiso.

Esse poiso foi Jupiter Beach, na franja pacífica de Palm Beach. À medida que a noite caía e em Portugal se inaugurava a madrugada, eu, o Miguel, o André, a Patrícia e a Charlotte, nossas companheiras de trabalho nesta aventura, decidimos estender uma manta na areia e celebrar o privilégio do silêncio. 

Sobre a mesa improvisada, montámos um altar de resistência heróica e saudades domésticas: chouriço, queijo e pão. Enquanto partilhávamos os sabores (parecidos aos) da pátria sob um luar maravilhoso, com uma lua cheia colossal a pratear o Atlântico e o calor tropical a envolver-nos o cabedal, o cansaço acumulado começou finalmente a evaporar-se.

Foi então que o cosmos resolveu oferecer-nos um golpe de teatro. Do nada, transformámo-nos em crianças apontando para o infinito. Uma bola de fogo colossal rasgou o céu noturno, arrastando um rasto luminoso e denso que parecia desenhado à mão por um Deus caprichoso. Seguiu-se uma pequena explosão silenciosa no éter e um segundo rasto, mais contido mas perfeitamente visível, manteve-nos em estado de choque e frisson durante minutos que pareceram eternos.

Naquele instante, fomos crentes. Era um OVNI, literalmente um objeto voador não identificado que desafiava a nossa mundana rotina de relvados e conferências. O mistério (e a identificação que anulou a ideia de OVNI) durou até a internet nos devolver à terra: era o lançamento do Falcon 9, da Space X, disparado a partir do centro espacial John F. Kennedy, a uns escassos 180 quilómetros a norte da nossa praia. 

A ficção científica deu lugar à engenharia espacial, mas a poesia daquela rota intemporal ficou gravada na nossa Route 66 de forma mágica e única.

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