José Mourinho, 63 anos, regressou ao Real Madrid após primeira passagem de 2010 a 2013 - Foto: Imago
José Mourinho, 63 anos, regressou ao Real Madrid após primeira passagem de 2010 a 2013 - Foto: Imago

José Mourinho nunca foi personagem

'Bar Nilo' é o espaço de opinião em A BOLA de Luís Aguilar, comentador desportivo

O principal erro está naquilo que muitos entendem por sinceridade. Durante mais de duas décadas muitos perguntaram quem era Mourinho por detrás de Mourinho. Quem existia para lá do Special One, que correu pela linha lateral em Old Trafford, que arrebatou troféus e competições, que transformou conferências de imprensa em combates e temporadas inteiras em batalhas com todos aqueles que atravessassem o seu caminho. A pergunta sempre partiu de uma certeza: aquilo não podia ser tudo. Tinha de existir outro Mourinho. E existe.

O documentário da Netflix, que estreou esta semana, deixa-o aparecer algumas vezes. Está lá quando fala do pai e a voz muda. Está nos silêncios, em certas memórias, na consciência das ausências. Está até na dura e extraordinária admissão de que a família provavelmente se diverte mais quando ele não está.

Mourinho sabe. Sabe o que ganhou e o que perdeu. Sabe o que futebol lhe exigiu. Sabe que uma vida construída em torno de uma profissão deixa inevitavelmente outras vidas à espera. A diferença é que Mourinho não parece considerar que nos deva mais do essa admissão. E talvez seja esse o problema. Não para ele. Mas para quem vê.

Vivemos numa época que transformou a exposição numa prova de autenticidade. Já não basta sentir. É preciso mostrar que sentimos. Não basta sofrer. É necessário explicar o sofrimento. Não basta ter fragilidades. Espera-se que as identifiquemos, que falemos sobre elas, que as partilhemos e, de preferência, que exista uma câmara por perto quando o fazemos.

Criámos uma estranha equivalência entre vulnerabilidade e verdade. Quem se expõe é autêntico. Quem se protege está a representar. Mourinho recusa essa lógica. Não porque seja incapaz de sentir, mas porque acredita numa ideia que se tornou quase antiquada: há coisas que são só nossas. E não temos obrigação de partilhá-las.

Muitas das críticas feitas ao documentário, pelos viciados no consumo da vida alheia, foi que não conheceram o verdadeiro Mourinho. Esperavam a lágrima longa, a confissão, o arrependimento. Queriam o momento em que o Special One desapareceria finalmente e ficaria apenas José, desarmado diante da câmara. Mas por que razão teria de fazê-lo?

Mourinho mostra algumas partes. Depois fecha a porta. Isso não significa que não exista nada atrás dela. Significa apenas que a porta é dele. Alguém que percebeu muito cedo que um treinador moderno não gere apenas futebolistas. Gere ambientes, narrativas, atenção, medo e confiança. Uma conferência de imprensa pode ser tão útil como um treino. Uma frase pode retirar pressão dos seus e colocá-la no outro lado.

E, por isso, e com esse objetivo em mente, construiu uma armadura. Mas uma armadura não prova que não exista um homem lá dentro. Prova precisamente o contrário. As armaduras existem porque os homens podem ser feridos.

Mourinho parece ter aprendido cedo que demonstrar fraqueza não era o seu caminho. Há quem possa discordar. Quem possa pensar que a ideia pertence a outro tempo, a outra educação, a outra conceção de liderança. Mas também podemos conceder-lhe uma coisa bastante simples. É uma escolha legítima. Tão legítima como a escolha de quem decide contar tudo.

O problema é que a nossa cultura deixou de olhar para estas duas opções da mesma maneira. A exposição passou a ser coragem. A reserva tornou-se suspeita. Queremos entrar nas casas, nos casamentos, nos quartos, nas depressões, nas inseguranças. Queremos saber o que alguém sentiu quando perdeu, quando foi despedido, quando o pai morreu. E chamamos profundidade ao acesso.

Num mundo de tanto voyeurismo, é refrescante haver alguém tão mediático que nos nega uma parte ele. Diz-nos: «Até aqui, bem-vindos. O resto não vos pertence.» Num percurso profissional filmado e catalogado desde o início, é bom que a personagem principal desta história conserve alguma coisa para si.

O futebol, porém, Mourinho entrega-nos. Sem qualquer barreira. Mostra a sua relação obsessiva com o jogo, o treino, a preparação, a atenção a todos os detalhes. E, claro, a vitória. O futebol não ocupa um espaço equilibrado na sua vida. Provavelmente nunca ocupou. E aqui que surge outro desconforto para muitos dos que assistem.

Admiramos pessoas extraordinárias, mas preferimos imaginar que chegaram ao extraordinário vivendo vidas perfeitamente ordinárias. Queremos o resultado sem olhar demasiado para o preço. Não é preciso glorificar esse preço. Muito menos recomendar que alguém o pague. Mourinho fez escolhas. Algumas terão magoado pessoas, como também ele foi magoado no processo. Outras terão custado momentos que não regressam. Ele é o primeiro, sem máscaras, com toda a sinceridade, a mostrar essa consciência. Mas consciência não tem de significar arrependimento. Também aqui muitos querem uma confissão que nunca chega. Porque gostariam que Mourinho olhasse para as taças e concluísse que nenhuma valeu o preço de tantas guerras. Seria uma situação agradável para quem vê e julga à distância. Mas não seria verdade. A verdade é o que Mourinho oferece a cada momento do documentário dividido em três partes. É a vida que escolheu.

Isso não significa que não exista ternura. Existe. Aparece quando fala do pai. Aparece nas relações com alguns jogadores. Aparece naquele vínculo quase inexplicável que tantos homens que trabalharam com ele continuam a sentir décadas depois. Materazzi não chorou no Bernabéu abraçado a uma personagem. Drogba não fala de uma personagem. Os jogadores do Inter não atravessaram uma época inteira emocionalmente agarrados a uma invenção publicitária. Mas a humanidade de Mourinho nunca foi incompatível com a brutalidade da sua ambição. Faz parte dela.

É possível amar profundamente e trabalhar obsessivamente. É possível sentir culpa e voltar a fazer exatamente a mesma escolha. É possível saber que a família é mais leve na nossa ausência e, ainda assim, ter a família no topo de tudo. Não é uma lição de vida. E a ideia não é essa. Não há filosofia barata ou a ideia de que o meu caminho é o único. Nada disso. É apenas uma vida.

O problema, uma vez mais, não está na forma como Mourinho partilha, mas no complexo de quem assiste. Há qualquer coisa de estranho na forma como observamos pessoas extraordinariamente bem-sucedidas. Admiramos o resultado e depois ficamos incomodados quando descobrimos o processo. Queremos a Champions, mas não queremos as noites ser dormir. Queremos Michael Jordan sem a crueldade competitiva, Cristiano Ronaldo sem a disciplina quase patológica, Guardiola sem a loucura dos arranhões na cabeça. Queremos génio em horário de expediente. E quando o mesmo não aparece, dizemos que não é real, que é personagem. Porque é mais cómodo do que admitir uma verdade e um caminho completamente diferentes do nosso.

Numa sociedade que transformou a intimidade em conteúdo e a vulnerabilidade em espetáculo, existe dignidade em alguém continuar a acreditar que nem todas as lágrimas precisam de audiência. Mourinho não nos deve a sua fragilidade. Não porque tenha medo de que descubramos quem ele é. Mas porque entende, e bem, que ninguém tem esse direito.

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