Morte na Volta: mais uma sexta-feira no asfalto
A minha manhã de sexta-feira começou com o sobressalto banal de quem vive nas estradas portuguesas. À saída de casa, quando me deslocava para o meu carro, dei de caras com um motociclista a circular descontraidamente, numa moto de alta cilindrada, em sentido proibido.
Pouco depois, numa viagem de mais de 300 quilómetros, confirmei que esse pequeno sobressalto era apenas a introdução de uma norma não escrita. Ao longo de todo o percurso, a ignorância intencional das regras (quando é que aprendemos a conduzir à direita nas autoestradas?) e o desrespeito pela prioridade dos outros repetiram-se quase a cada quilómetro. Sobre velocidade não há ninguém inocente em Portugal.
Na passada quarta-feira, o ministro da Administração Interna, Luís Neves, utilizou uma expressão dura, para descrever o panorama rodoviário nacional: vivemos uma «guerra civil» nas estradas. Ao anunciar que o novo Código da Estrada pode criminalizar a condução acima dos 180 km/h e reforçar substancialmente a fiscalização nas zonas urbanas, o Governo reconhece o que é evidente para todos. Porque todos conhecemos quem tenha morrido num acidente. O problema é que as leis chegam sempre tarde para quem fica pelo caminho.
Finlay Tarling tinha apenas 19 anos. Corria com as cores da sua equipa na Volta a Portugal em bicicleta, alimentando o sonho de uma carreira no ciclismo profissional. O seu futuro foi ceifado numa fração de segundo porque, alegadamente, um condutor decidiu ignorar as indicações das autoridades. Um jovem atleta, protegido apenas pelo seu capacete e pela sinalização de uma competição oficial, acabou vítima do absoluto desprezo que muitos condutores nutrem pelas ordens mais elementares de segurança.
A tragédia de Finlay Tarling não pode ser isolada sob o carimbo do «azar» ou de um «incidente lamentável». Porque é reflexo da mesma mentalidade que vejo à porta de minha casa, na autoestrada ou nas vias nacionais. E que você também vê. É a cultura do «passo eu primeiro» - a sério que nos chateamos por dois metros e meio de alcatrão? - , do «o sinal é para os outros».
Portugal tem mesmo um problema grave, estrutural e sangrento nas suas estradas. O diagnóstico do ministro está correto, mas a mudança exige mais do que radares e coimas: exige uma profunda alteração de mentalidade. Enquanto continuar a imperar o egoísmo ao volante, o país continuará a somar lutos. Para a família do jovem ciclista galês, este dia ficará marcado para sempre pela dor irreparável; para a Volta, como um dos episódios mais trágicos da sua História; para Portugal, infelizmente, como mais uma sexta-feira.