William Gomes assinou um golo de bandeira. Foto Rogério Ferreira/Kapta +

Uma parte para os pontos e outra para gerir forças (crónica)

Vitória tranquila do FC Porto, por números que podiam ter sido mais expressivos, perante um Moreirense que só por uma vez, num remate ao poste com 2-0 no marcador, se atreveu a tentar reentrar no jogo. Para ver e rever o golo à William Gomes de… William Gomes

O Moreirense, que se apresentou no Dragão muitos furos abaixo daquilo que fez ao longo da época (oitavo lugar, 35 pontos, em zona segura), foi o adversário ideal para um FC Porto metido em trabalhos reforçados, primeiro com a eliminatória frente ao Estugarda, quarto na Bundesliga, e depois com a visita ao SC Braga, quarto na I Liga. Deve dizer-se desde já que o FC Porto fez exatamente aquilo que as equipas que querem gerir esforços devem fazer: entrar forte, sentir conforto no resultado, e a seguir definir qual o ritmo de jogo que mais lhe interessa.

E ainda houve outra circunstância a favor de Farioli, que mexeu em oito pedras relativamente ao jogo na Alemanha, que foi um banco rico em soluções, em contraste absoluto com a penúria vivida por Botelho da Costa. A verdade é que, quando o técnico italiano sentiu que a sua equipa, no segundo tempo, começou a levantar demasiado o pé do acelerador, foi buscar sangue novo que devolveu o protagonismo aos dragões. 

O gato e o rato

Com as duas equipas a iniciarem a partida em 4x3x3, com dinâmicas diferentes, os donos da casa mais com um 4x1x2x3 e os forasteiros apostando num 4x2x1x3, a diferença fez-se bela abordagem inicial ao jogo. Cedo se percebeu que a estratégia do Moreirense (quiçá condicionada pelos jogadores que o treinador tinha à disposição) não era, de todo, a mais adequada para o adversário em presença. Numa partida em que o Moreirense precisava de esticar o jogo na frente, criando algumas preocupações aos centrais portistas, a equipa apresentou-se sem ponta-de-lança de raiz; e quando se percebeu, quase de imediato, que a pressão do FC Porto era muitíssimo mais forte do que a capacidade dos minhotos saíres de trás a jogar, estes insistiram no risco e pagaram caro por isso.

Em primeiro lugar porque deixaram a Diogo Costa uma primeira parte muito descansada; depois, porque da ação de Varela, Froholdt e Gabri Veiga, muito bem apoiados por Pepê, Gul e Pietuszewski, que rapidamente se colocavam atrás da linha da bola, resultaram inúmeras perdas de bola, duas das quais resultaram em golos do FC Porto, num primeiro tempo em que os dragões dispuseram, fazendo as contas por baixo, de cinco oportunidades flagrantes para marcar. 

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No melhor período do FC Porto, destaque para o muito jovem Pietuszewski, que rematou para defesa incompleta de André Ferreira, aproveitada por Gabri Veiga para abrir o ativo, e a seguir, com um remate em arco, de belo efeito, assinou ele mesmo o 2-0. Depois, numa exibição de mais a menos, foi-se apagando, e acabou por sair por lesão.

Mas foi uma primeira parte quase embaraçosa para o Moreirense, que regressou do intervalo disposto a dar outra imagem a quem foi ao Dragão ou viu o jogo no sofá. É que os primeiros 45 minutos terminaram com 10-0 em remates, 3-0 em cantos e 64/36 em posse de bola…

Algum Moreirense

O segundo tempo começou com algum aburguesamento do FC Porto, que deve ter pensado que podia, desde logo, viver dos rendimentos e deixou de pressionar com eficácia da primeira parte. Como consequência, bons executantes como Afonso Assis, Alanzinho, Landerson ou Rodri Alonso, sentiram que tinham espaço para executar a sua arte e passaram a equilibrar mais as operações, enquanto os donos da casa se mostravam mais expectantes. Foi preciso apanharem um susto, quando Landerson fez estremecer o poste direito da baliza de Diogo Costa (53) e logo a seguir o guarda-redes do FC Porto teve de se aplicar para deter um remate de meia-distância, para que os comandados de Farioli começassem novamente a fazer pela vida. 

O banco do FC Porto

A partir dos 55 minutos o técnico italiano foi buscar munição ao banco (Pietuszewski, lesionado, por Borja Sanz e Deniz Gul por Moffi) e os níveis de pressão voltaram a subir, para azar do Moreirense. Botelho da Costa refrescava a equipa (66), com o jovem inglês Jimi Gower, e ao mesmo tempo Farioli mandava a jogo Mora e Pablo Rosário (este entrou para o lugar de Zaidu, que viu um cartão amarelo muito benévolo aos 58 minutos).

Estes argumentos diferentes fizeram com que se passasse a adivinhar o terceiro golo do FC Porto, que esteve para acontecer aos 69 minutos, quando André Ferreira fez a defesa da noite para deter um remate de Moffi, mas só sucedeu, em forma de obra-prima, por William Gomes (entrado aos 72 minutos) que a nove minutos do final do tempo regulamentar pegou na bola da direita, ganhou ângulo entrando na grande área, e desferiu um remate que foi entrar onde a coruja dorme, naquele que foi o momento da noite que valeu o preço do bilhete.

Nesse instante, se houvesse ainda alguma dúvida (mas essas foram desaparecendo à medida que Farioli ia ao banco buscar novos trunfos), ter-se-ia dissipado. O FC Porto, com uma exibição competente, nunca deu verdadeiras hipóteses a um Moreirense que encarou o jogo, do ponto de vista estratégico, com demasiada leveza. Porque no futebol há tempos para tudo. Para construir e para destruir. E nunca se deve cair no pecado de destruir por se querer construir…