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Um telefonema de Trump para Infantino «desbloqueou» Balogun e gerou controvérsia no Mundial
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, estava a ser uma figura discreta ao longo do Mundial 2026, até ter ligado a Gianni Infantino, presidente da FIFA, para pedir a revisão da suspensão de um jogo aplicada ao avançado dos Estados Unidos Folarin Balogun, na sequência da expulsão no jogo com a Bósnia e Herzegovina.
No domingo, o The Athletic revelou que Balogun estaria afinal disponível para o encontro dos oitavos de final frente à Bélgica, depois de a comissão disciplinar independente da FIFA ter decidido suspender o castigo. O presidente Trump reagiu, agradecendo à FIFA, mas soube-se depois que tinha havido uma intervenção americana direta na decisão.
A agência AP e o The Athletic apuraram então que Trump e elementos da administração abordaram o caso Balogun com Infantino no início da semana passada.
A administração recrutou advogados, em colaboração com Howard Lutnick, secretário do Comércio, e Scott Goodwin, um doador da U.S. Soccer e gestor de fundos de investimento. Os materiais legais foram depois enviados para a federação norte-americana de futebol.
Goodwin, que já tinha ajudado a U.S. Soccer a angariar fundos para o salário do selecionador Mauricio Pochettino, minimizou o seu papel na rede social X: «A comunicação social está a exagerar drasticamente o envolvimento de QUALQUER pessoa de fora da U.S. Soccer e da sua equipa jurídica neste processo. Como 300 milhões de outros americanos, fiquei irritado com a decisão do cartão vermelho e inspirado pela resposta da equipa. Contactei a U.S. Soccer (como muitos outros fizeram) e disseram-me que estavam a tratar do processo com o Comité Disciplinar Independente da FIFA e que esse processo precisava de seguir o seu curso.»
A proximidade entre figuras do governo e a FIFA é notória. Lutnick esteve sentado ao lado de Infantino durante o jogo contra a Bósnia, e os dois têm mantido encontros recentes. Marco Rubio, secretário de Estado, afirmou que a seleção dos EUA «foi 'lixada' com aquele cartão vermelho» e apelou a «um processo de recurso». Andrew Giuliani, diretor executivo da Task Force da Casa Branca para o Mundial, também esteve ativamente envolvido, trabalhando com os advogados e procurando atualizações junto da FIFA e da U.S. Soccer.
Balogun recebeu um cartão vermelho direto por uma falta sobre Muharemovic, da Bósnia e Herzegovina, no jogo dos 16 avos de final que os coanfitriões venceram por 2-0.
Depois de o Comité disciplinar independente da FIFA ter decidido suspender o castigo, o presidente Trump reagiu prontamente na sua rede social, a Truth Social, agradecendo à FIFA «por fazer o que era correto e reverter uma grande injustiça!».
Este episódio levanta novamente questões sobre a relação entre Infantino e Trump, especialmente porque os estatutos da FIFA exigem neutralidade política e proíbem interferências governamentais. A relação entre os dois já gerou controvérsia no passado, nomeadamente depois de Infantino ter criado um Prémio da Paz da FIFA para atribuir a Trump durante o sorteio da fase de grupos do Mundial. Além disso, a FIFA abriu um escritório na Trump Tower, em Nova Iorque, pagando assim renda a uma propriedade da família Trump.
«Dia das mentiras na FIFA»
A decisão da FIFA de suspender o castigo de um jogo a Folarin Balogun, permitindo que o avançado norte-americano defronte a Bélgica nos oitavos de final do Campeonato do Mundo, gerou uma onda de choque e críticas, especialmente por parte da federação belga.
Apesar das regras, a federação norte-americana avançou. Na manhã seguinte ao jogo, após receber a notificação formal do comité disciplinar da FIFA, a U.S. Soccer respondeu, argumentando que a expulsão foi incorreta e a suspensão injusta. A sua argumentação, desenvolvida nos dias seguintes, focou-se na utilização excessiva de imagens em câmara lenta e «freeze-frames» pelo VAR na análise do lance ao árbitro de campo, uma tese também defendida por ex-árbitros na comunicação social.
Enquanto trabalhava nos bastidores, a U.S. Soccer optou por uma postura pública de discrição. O próprio Balogun, ao falar à imprensa, evitou polémicas, afirmando querer ser um bom exemplo para «as crianças, rapazes e raparigas, que estão a ver» e mostrar-lhes «a forma correta de lidar com as coisas».
A decisão da FIFA, que não anulou o cartão mas suspendeu o castigo, apanhou todos de surpresa, incluindo a própria seleção dos EUA. O defesa Chris Richards confessou que, inicialmente, o plantel duvidou da veracidade da notícia, questionando se não seria «gerada por inteligência artificial». Christian Pulisic acrescentou: «Vi um grande sorriso no rosto dele. É ótimo para nós. Estamos entusiasmados por ter um jogador tão bom connosco».
A reação do lado belga foi diametralmente oposta. A Federação Belga de Futebol (RBFA) emitiu um comunicado no domingo, declarando-se «surpreendida com a decisão da FIFA» e informando que está a «investigar todas as opções possíveis», tendo-lhe sido concedido o direito de recorrer.
O selecionador belga, Rudi Garcia, foi ainda mais cáustico na sua conferência de imprensa. «Não sabia que o dia 5 de julho era igual ao dia 1 de abril [dia das mentiras] na FIFA», ironizou. «Acho que nos devemos remeter ao comunicado da minha federação. A federação não se defende a si mesma, não defende a seleção nacional — defende o futebol em geral. Defende a sua integridade. Defende a sua ética».
Por sua vez, o selecionador dos EUA, Pochettino, que sempre considerou que a expulsão «nunca foi um cartão vermelho», defendeu a medida. «Para mim, não há muito debate aqui, embora eu compreenda a perspetiva da Bélgica e o ponto de vista do Rudi», disse.
Na sequência da polémica, o jornal The Athletic revelou que a Bélgica solicitou uma explicação formal sobre os motivos que levaram à anulação da suspensão de Balogun. Embora a FIFA reitere a independência do seu comité disciplinar, esta não é a primeira vez que a organização é alvo de críticas severas pela flexibilidade na aplicação dos seus próprios regulamentos.
Além disso, o mesmo Artigo 27.º do código disciplinar, agora invocado no caso de Balogun, já tinha sido utilizado no início do ano para suspender dois dos três jogos de castigo de Cristiano Ronaldo, após um cartão vermelho contra a República da Irlanda. Essa decisão permitiu que o capitão português estivesse disponível para os dois primeiros jogos de Portugal na fase de grupos do Mundial.
As reações à mais recente controvérsia não se fizeram esperar. Stale Solbakken, selecionador da Noruega, foi contundente após a sua equipa eliminar o Brasil nos oitavos de final, no domingo. «Tenho de ser honesto, foi um grande erro da FIFA. Esta não é uma boa conclusão para o que aconteceu», afirmou.
«Ele viu um cartão vermelho. O VAR concluiu que era vermelho e foi expulso. Isso significa que deveria ser suspenso por um jogo. É uma decisão má, má, má, má. Tenho pena dos EUA. Se eles ganharem, esta decisão ficará em segundo plano. Não é bom para o desporto».
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