Um grande senhor
Bruno Lage é uma brisa agradável que o futebol respira com prazer, não por causa das inovações técnico-táticas que trouxe, e trouxe algumas, mas devido à diferente abordagem dos temas que lhe têm sido colocados, através de um jeito natural e sincero, que vem de dentro, excluindo da retórica insinuações pouco claras ou interpretações dúbias que de alguma forma possam contribuir para alimentar a gritaria que ocupou o lugar da discussão viva (porque são coisas bem diferentes) na maioria dos programas de debate.
Ele explica e os adeptos agradecem, por lhes falar de futebol com uma linguagem despretensiosa e entendível, além de valorizar princípios de sã rivalidade e boa convivência, frequentemente maltratados pelos tribalistas que apoiam o velho e gasto conceito que manda ganhar nem que seja com um golo com a mão…
Lage impôs-se pela sua simplicidade, de início desconsiderada por se ver nele a imagem de um homem bom, a antítese do herói moderno, que deve ser arrogante, truculento, do tipo não tenho medo de ninguém e possuidor de outros atributos que conduzem à edificação de um falso líder, porque líder que é líder não precisa de ameaçar nem de avisar que é ele quem manda, quem decide, quem ordena. Exerce a sua autoridade com discrição e firmeza e impõe-se com a naturalidade que a liderança lhe confere.
Ao contrário do que se sugere, nenhum subalterno (leia-se jogador) gosta de ver o seu superior (treinador) gabar-se na praça pública do seu poder, da sua sabedoria ou da sagacidade das duas decisões.
Adimensão universal do futebol, associada à sua inigualável visibilidade, naturalmente que suscita oportunidades de negócio e a comunicação não poderia ficar de fora. Trata-se de um meio auxiliar de extrema utilidade, sem dúvida, a não ser que, na ânsia de tornar algum cliente notado, se perverta a essência da mensagem, tornando-a artificial e fútil.
As pessoas sabem destrinçar se o mensageiro é genuíno ou se tem um discurso meio alinhavado, com duas ou três frases decoradas em nome da força da palavra.
Há quem aplauda este método, mas duvido da eficácia do produto. Um político pode dizer o que lhe dá jeito e não o que sente, mas um treinador tem de acreditar no que diz (e no que faz!), uma virtude representada, felizmente, em todas as gerações.
Não é um problemas de idades, é mais uma questão de valores, defendidos e preservados tanto por Bruno Lage, acabadinho de chegar, como por Vítor Oliveira, a aproximar-se do patamar da reforma, se bem que o Vítor Manuel, nas nossas noites de fim de semana em A BOLA TV, me repreenda de cada vez que, por distração, o reformo, porque, como orgulhosamente sublinha, vai ser treinador até morrer. Percebo-o, é como os jornalistas, só deixarão de o ser quando a cabeça não der para mais…
Trago Vítor Oliveira à colação, não por ter vencido o FC Porto no regresso do Gil Vicente à Liga. Nem ele precisa de mais elogios. No entanto, quando os bons exemplos se esfumam, os atropelos se repetem, a inveja alastra e os mestres em comunicação reles proliferam quase transformando o futebol em antro de pessoas pouco recomendáveis, é gratificante poder falar de alguém que, resistindo a ventos e marés, construiu uma carreira feita de sacrifício, humildade, saber, competência e seriedade.
Sem se colocar jamais em bicos de pés, nem invejar a sorte do vizinho, escolheu o seu caminho, definiu os seus objetivos e divisou o sucesso. Tudo conseguido pela força de trabalho honesto. Onze promoções à Liga principal ao serviço de dez emblemas diferentes. Notável, histórico, muito difícil de igualar.
A emigração é, hoje, destino provável para jovens, e menos jovens, que querem seguir a profissão ou, simplesmente, ter vida para formar família. Há trinta anos talv
ez ainda não existisse estrangeiro no horizonte dos treinadores portugueses. Por isso, foi mais difícil e resistiram os verdadeiramente bons.
Vítor Oliveira é um deles. Pelos resultados, sim, mas, sobretudo, pela maneira como sempre o vi, um senhor, um grande senhor. Que diz o que pensa, com a sua voz de trovão, em absoluto respeito pela dignidade alheia.
PS 1 - Faz agora dois anos que Benfica aplicou 5-0 ao Belenenses (19 de agosto de 2017). Desde aí, o saldo é negativo: uma derrota (0-2) e dois empates (1-1 e 2-2), este último já no consulado de Bruno Lage. Fica o aviso.
PS 2 - O FC Porto joga hoje a segunda da mão da 3.ª pré-eliminatória da Liga dos Campeões. Aposto na sua passagem ao play-off e em segunda vitória frente a um oponente russo, que a tornará duplamente valiosa em função do ranking da UEFA.
PS 3 - Não sei se há crise no Sporting, mas se dizem que há a culpa não é da equipa, nem do treinador, nem de Bruno Fernandes. Se querem responsáveis, procurem na estrutura envolvente.