Pedro Proença, presidente da Federação Portuguesa de Futebol - Foto: FPF
Pedro Proença, presidente da Federação Portuguesa de Futebol - Foto: FPF

Um congresso por um futebol português moderno, transparente e competitivo

#Minuto 92 é o espaço de opinião de Ricardo Gonçalves Cerqueira, jurista, gestor de empresas e sócio do FC Porto

O 1.º Congresso do Futebol Português terminou com uma ambição clara relativamente ao ecossistema desportivo nacional: construir, de forma partilhada, um roteiro estratégico de crescimento e afirmação para a próxima década. Este encontro foi, por isso, um exercício de governança colaborativa que juntou Associações Distritais e Regionais, Liga Portugal, clubes e demais agentes desportivos, com um propósito claro: tornar o futebol nacional mais sustentável, mais inclusivo e mais competitivo.

A fotografia de conjunto é nítida: regista-se um consenso alargado sobre a urgência de reformas estruturais. A primeira — e talvez a mais simbólica — é a centralização dos direitos audiovisuais. O tema não é novo, mas ganha aqui novo fôlego. Sem uma política de distribuição mais justa e previsível das receitas televisivas, continuar-se-á a alimentar um ciclo de assimetrias que fragilizam a competitividade interna e condenam muitos clubes a uma sobrevivência intermitente. A centralização, quando bem regulada e acompanhada de mecanismos de solidariedade, pode ser o motor de uma redistribuição virtuosa, com impacto direto na qualidade das competições e na sustentabilidade do sistema nacional de competições profissionais.

Interligado a este tema, está o novo modelo de financiamento da Federação Portuguesa de Futebol. A ideia de uma conjugação de vontades articulada entre Associações, Liga e clubes é tão necessária quanto exigente. Equidade não é sinónimo de uniformidade: é a capacidade de distribuir recursos em função de necessidades, mérito e impacto social, mediático, desportivo.

A ambição deve, por isso, ser de dupla face: estabilizar financeiramente quem cumpre a sua função formativa e social no território e, ao mesmo tempo, premiar a excelência competitiva que projeta o país lá fora.

Também no capítulo competitivo assumem-se escolhas com consequências. Reformular quadros competitivos, reequacionando as ligas profissionais, a Taça de Portugal e a Supertaça — esta última com a possibilidade de um formato Final Four a realizar no estrangeiro — é uma opção que deve ser medida à luz de dois critérios: proteção do ranking europeu e a valorização do produto futebol. Deslocalizar a Supertaça para o exterior pode criar receita e visibilidade, mas só fará sentido se não desertificar o calendário interno nem afastar os adeptos de uma festa que é, antes de mais, doméstica. A mesma prudência vale para as competições organizadas pela FPF, da Liga 3 ao Campeonato de Portugal e às provas do futebol de formação: simplificar, clarificar e criar percursos de progressão desportiva coerentes é mais importante do que multiplicar formatos.

A harmonização regulamentar surge, aqui, como peça essencial. A aplicação transversal das boas práticas da FIFA e da UEFA pode reduzir zonas cinzentas, aumentar a transparência e facilitar a interoperabilidade entre estruturas. Regulamentos claros e alinhados diminuem litigância, aceleram decisões e reforçam a confiança — um capital tão desportivo quanto económico.

Há, felizmente, espaço para pensar o futuro para lá do jogo de 90 minutos. O Plano Estratégico da FPF, com enfoque no futebol feminino, no futsal e no futebol de praia, identifica três vetores de crescimento com provas dadas. O feminino precisa de profundidade competitiva, estabilidade financeira e calendários que estimulem a competitividade; o futsal é já uma bandeira internacional que merece consolidação estrutural; o futebol de praia, nicho de excelência, exige continuidade e investimento criterioso. A apresentação do Plano Nacional de Arbitragem, ancorado em recrutamento, formação, retenção e proteção, é outro passo decisivo. Sem arbitragem valorizada e credível, todo o edifício treme; com ela, ganha-se qualidade de jogo, transparência e tranquilidade social.

No domínio do reforço das qualificações, a Universidade do Futebol é uma iniciativa que pode transformar o capital humano que gravita em torno do universo do futebol. Uma licenciatura em futebol, ancorada em ciência, tecnologia e prática, permitirá a profissionalização da indústria e a aproximação o saber ao alto rendimento e à gestão em contexto desportivo.

No plano económico, escrutinar clubes e sociedades desportivas é proteger a concorrência, a transparência entre os diversos stakeholders e reforçar a confiança de investidores. Mecanismos eficazes de supervisão, regulação e gestão de risco não são inimigos do espetáculo; são garantias de um mercado saudável e financeiramente sustentável. O caminho faz-se com regras claras para todos os intervenientes, desde o licenciamento ao fair play financeiro, passando por políticas de prevenção de fraude e de conflitos de interesse.

Importa, contudo, não perder de vista o coração do jogo: as pessoas/ os adeptos. Medidas centradas em jogadores, treinadores, dirigentes, árbitros, adeptos e famílias — na promoção do fair play, da ética, do respeito, da integridade e multiculturalidade — não são ornamentos morais; são infraestruturas culturais. Um ambiente de respeito atrai público, fideliza patrocinadores e protege a marca do futebol português. Projetos como o Walking Football e o programa 'Jogam Todos' mostram que a inclusão pode ser programática e mensurável: do envelhecimento ativo à iniciação, o futebol deve ser uma linguagem comum que não exclui por idade, género, condição física ou origem social.

O balanço deste 1.º Congresso é, por isso, positivo e promissor, ainda que o verdadeiro desafio se inicie a partir de agora. As estratégias ganham-se quando conhecem a luz do dia da implementação: governança participada, metas claras, calendários realistas, indicadores públicos e prestação de contas periódica. No Congresso definiram-se prioridades e apontaram-se instrumentos. Compete a todos aqueles que assumem responsabilidades de liderança no futebol português, transformar este consenso em execução e resultados efetivos.

Sinal Mais
Competições europeias: FC Porto, SC Braga, Sporting e Benfica com desempenhos notáveis nas competições europeias, permitiram o reforço da posição de Portugal no ranking da UEFA.