Teste mental superado
A Seleção Nacional de andebol tem vindo a afirmar-se de forma consistente no panorama internacional, não apenas pelos resultados, mas pela alteração do lugar psicológico que passou a ocupar nas competições. Deixou de ser outsider para ser percecionada como igual, o que altera inevitavelmente as expectativas, sobretudo internas.
O empate frente à Macedónia do Norte colocou em suspenso a passagem à main round e contrariou essa expectativa. Quando surge um desfasamento entre o que se espera de si próprio e o resultado obtido, instala-se um desconforto psicológico que pode gerar bloqueio e ansiedade ou funcionar como motor de reorganização interna.
Do ponto de vista psicológico, este resultado colocou a Seleção Nacional num contexto clássico de ameaça ao rendimento: elevada exigência externa, ambiente hostil e memória recente de um resultado aquém do esperado. Jogo decisivo com a Dinamarca, tetracampeã do mundo, com uma identidade competitiva consolidada e reconhecida pela sua robustez física e força mental. O cenário torna-se, ainda, mais intenso por ser em Herning, no Jyske Bank Boxen, um verdadeiro templo do andebol dinamarquês.
É aqui que se torna relevante observar como a equipa responde. A forma como Portugal entrou neste jogo revela o mindset coletivo. Em vez de procurar reparar o erro anterior, a equipa reorganizou-se em torno daquilo que controla: processo, comportamento e identidade. Esta resposta é coerente com os princípios da teoria da autoeficácia coletiva, que sustenta que o desempenho de equipas depende da crença partilhada na sua capacidade.
Não se trata de confiança individual somada, mas de uma convicção coletiva construída ao longo do tempo. Houve regulação emocional, paciência e compromisso com o plano, indicadores claros de maturidade psicológica. As equipas com elevada autoeficácia mantêm coesão, mesmo em zonas (resultados) de desconforto. Importa ainda referir o papel da identidade social da equipa, quanto mais forte o sentimento de pertença ao grupo, maior a probabilidade de os atletas colocarem o nós acima do eu, sobretudo em contextos de ameaça.
Esta vitória não é apenas um feito competitivo, mas um marcador psicológico. Reforça a crença interna de que esta equipa é capaz de responder quando o caminho se complica e a margem de erro diminui. Este tipo de experiências constrói memória emocional positiva, essencial para fases mais avançadas da competição, onde a diferença entre equipas se joga, muitas vezes, mais na mente do que no talento. Este é um crescimento que está feito e consolidado, independentemente dos resultados futuros ou da classificação final.
No alto rendimento, vencer não é apenas uma consequência do que se faz em campo. É o resultado de uma organização psicológica coletiva que permite transformar a adversidade em foco, o erro em aprendizagem e a pressão em desafio.