«Estou a ganhar 3-2 ao cancro e falta um quarto de hora para o fim»
Stefano Bellè, antigo médio italiano que atualmente treina os juvenis do Ortona, partilhou, numa entrevista à Gazzetta dello Sport, a sua história de vida, marcada pela luta contra um cancro no pâncreas.
«Voltei aos relvados aos 44 anos. Em fevereiro de 2020, jogava pelo Piazzano, na Primeira Categoria [sétima divisão]. Divertia-me, marcava muitos golos. Como naquele maldito domingo em que fiz um bis. Comecei a sentir-me mal logo após o jogo. Durante meses, fiz consultas, exames e análises até chegar o diagnóstico: cancro no pâncreas», contou o antigo jogador de 49 anos ao jornal italiano.
Seguiu-se o desafio mais importante de todos, fora das quatro linhas, para o antigo ala de Lazio, Pescara, Frosinone e Ancona: «Depois de mais de 200 jogos entre a Serie B e a C, não esperava ter de enfrentar esta batalha. Estou a ganhar por 3-2 e falta um quarto de hora para o fim, o pesadelo já passou. Suportei ciclos terríveis de quimioterapia e depois fui operado. Cheguei a pesar 45 quilos, os médicos tinham-me dado três meses de vida.»
Formado na Lazio, foi campeão nos juniores em 1995 numa equipa que tinha nomes como Nesta e Di Vaio — «Tive a sorte de estar num grupo de campeões: Marchegiani, Protti, Nedved, Beppe Signori» — e destaca a amizade com Igor Protti, que resistiu ao tempo: «E também à doença. A mesma dor une-nos, estamos constantemente em contacto. Ele está na fase mais aguda, tento dar-lhe força, tal como os meus ex-colegas fizeram comigo quando estive em risco de vida.»
«O desporto deu-me muitos amigos que nunca me deixaram sozinho. Reagi graças ao apoio deles e ao amor da minha família: a minha mulher, Melissa, e os nossos filhos, Giorgia, Alessandro e Leonardo. Eu costumava dizer que para o meu funeral seriam precisas três igrejas para acolher toda a gente. Por isso, terão de me aturar por muito mais tempo.»
Ao olhar para trás, recorda o momento mais difícil: «O medo de não conseguir invadiu-me logo após o diagnóstico. O cancro no pâncreas é frequentemente recorrente. Pode voltar, apesar dos tratamentos e da operação. A percentagem de sobreviventes nestes casos é de 4 por cento e eu meti na cabeça que tinha de conseguir. Nunca perdi a esperança.»
E nesta luta que trava há seis anos, agradece ao futebol, que lhe deu tudo. «Até a oportunidade de descobrir a doença. Se não tivesse jogado aquela partida na Primeira Categoria, talvez não estivesse aqui. Após os primeiros exames em Termoli, o Dr. Caracino e o meu sogro, Rocco Valentinetti (radiologista), aconselharam-me a procurar tratamento no hospital San Raffaele, em Milão. Lá, encontrei dois anjos da guarda: os doutores Belfiori e Crippa. Outro agradecimento vai para os médicos Giacomo Rando e Guido Patriarca. Salvaram-me a vida», recordou.
Apesar do histórico dramático na família, conseguiu ultrapassar as adversidades, foi operado em fevereiro de 2021 e já estava de volta à ação nos relvados no verão: «Durante a terapia e antes da operação, tive muitos pensamentos negativos. A minha mãe, o meu pai, a minha irmã, o meu cunhado: nenhum deles conseguiu vencer a doença. Agarrei-me à fé. E, no final, consegui.»