Sporting: duas equipas titulares, um plantel e nenhum onze definido
Onze jogos oficiais disputados, 21 jogadores lançados como titulares e um puzzle tático ainda longe de estar totalmente resolvido. O arranque da época 2026/2027 em Alvalade tem sido marcado por uma invulgar rotatividade implementada por Rui Borges. Num Sporting que atravessou uma profunda renovação no plantel — na sequência da saída de várias peças nucleares no final da temporada passada, como Diomande, Hjulmand, Morita, Pedro Gonçalves ou Trincão —, o treinador leonino tem aproveitado cada compromisso para testar opções, ajustar dinâmicas e gerir o esforço do grupo.
Ainda sem ter entrado em ação nas Taças de Portugal e da Liga, os leões já utilizaram quase dois onzes distintos desde o início da época. Há experiências por praticamente todos os setores, da baliza ao ponta de lança, mas falta uma equipa-base consolidada. Um dado traduz, com total clareza, este processo em construção: até ao momento, a única ocasião em que Rui Borges repetiu a equipa inicial de um jogo para o outro aconteceu precisamente na Liga dos Campeões, entre os duelos com Lens e LASK.
Paralelamente às saídas e entradas no mercado, a recente transição tática do 4x2x3x1 para o 4x3x3 — Braga marcou esse ponto de viragem nas ideias do treinador — tem exigido novos encaixes e características distintas. No entanto, a constante rotação não obedece apenas a motivos táticos.
Com um plantel mais profundo e soluções de qualidade equivalente em vários setores, a equipa técnica tem aplicado uma gestão física rigorosa. O objetivo passa por reduzir o desgaste acumulado e evitar que a equipa pague a fatura do esforço físico numa fase mais adiantada e decisiva da temporada, como, de resto, aconteceu nas últimas épocas, com vários jogadores a serem obrigados a parar por lesão.
VAGAS POR PREENCHER
Olhando para o mapa de utilização, apenas cinco futebolistas marcaram presença nas 11 partidas já realizadas esta temporada: Altimira, Doumbia, Geny Catamo, Fresneda e Luis Suárez. Contudo, estar presente em todos os encontros não significa ter a titularidade assegurada em todos eles. Se reforços como Altimira e Doumbia parecem ter ganho estofo de indiscutíveis, tal como os laterais Fresneda e Maxi Araújo, subsistem ainda vários focos de incerteza.
Essa procura por um onze estável é visível em zonas onde a concorrência continua intensa. Na baliza, a recente entrada de Kaique acrescentou nova possibilidade à discussão pela titularidade. No eixo defensivo, os regressos iminentes de Ibrahima Ba e Debast podem voltar a baralhar as contas e ameaçar a continuidade das combinações entretanto utilizadas e que continuam debaixo de fogo, casos de Eduardo Quaresma e Gonçalo Inácio. No meio-campo, há uma vaga por preencher ao lado de Altimira e Doumbia, dois jogadores que parecem ter conquistado uma posição privilegiada nas escolhas do treinador. Essa terceira vaga está ainda em aberto, com nomes como Zalazar, Flávio Gonçalves, João Simões ou Pedro Lima a estarem na linha da frente para serem soluções.
Também o corredor esquerdo tem sido palco de experiências. Flávio Gonçalves, Luís Guilherme e, mais recentemente, Irankunda já foram testados nessa zona, sinal de que Rui Borges continua a avaliar qual o perfil que melhor responde às necessidades da equipa. Boa notícia? A variedade de soluções que permite ajustar características e comportamentos idealizados pelo treinador em cada jogo.
UM QUINTETO À ESPREITA
Do atual plantel verde e branco, escasseiam os jogadores que ainda não sentiram o sabor da titularidade. De resto, contas feitas, apenas cinco integram esse lote reservado: Pedro Lima, Jesse Derry, Rafael Nel, Zekri e Nuno Santos. Com o calendário a apertar e a exigência de rotatividade a manter-se elevada, estes cinco elementos (à exceção de Nuno Santos, lesionado de longa duração e que só poderá ter utilização bem mais à frente) surgem na linha da frente para integrar as escolhas iniciais nos próximos compromissos, frente a Académico de Viseu (Liga), amanhã, e Marítimo (Taça da Liga), logo na terça-feira, jogo em que Rui Borges muito provavelmente irá trocar... 11 jogadores e lançar muito sangue novo oriundo da formação.
Curiosamente, apesar da perceção de uma rotação constante em Alvalade, as contas globais mostram uma utilização total mais contida quando comparada com a concorrência direta. O Sporting utilizou até ao momento 24 futebolistas no total nas duas competições em que participou, Liga e Champions (21 como titulares), um número inferior ao do FC Porto (que já utilizou 25 jogadores) e do Benfica, equipa com mais jogos esta época face às eliminatórias da Liga Europa, que já colocou em campo 33 jogadores nesta fase inicial da temporada.
Ao fim de 11 jogos, Rui Borges já experimentou quase duas equipas, mas continua sem uma base totalmente definida. A profunda renovação do grupo, a adaptação ao 4x3x3, a concorrência em setores-chave e a gestão física explicam esta alternância numa fase ainda prematura da época.
Os sinais de continuidade começam, ainda assim, a surgir, com algumas posições aparentemente mais estabilizadas, mas a intenção passa, a partir de agora, por transformar a quantidade de opções em estabilidade competitiva. Porque se ter 21 titulares é sinal de profundidade, por outro lado, encontrar o onze que melhor conjuga rendimento, equilíbrio e continuidade será o que o técnico pretende para dar identidade a este novo Sporting. Essa falta de consistência tem sido, aliás, uma das justificações para um arranque marcado por muitos altos e baixos que têm penalizado a equipa.