A 'veterana' da liga espanhola que é líder em Portugal: «Título? Queremos sonhar»
O verão de 2026 precipitou uma mudança inédita na carreira de Núria Mendoza, após 12 épocas na primeira liga espanhola. A defesa central aterrou na linha mais recuada do Torreense, que partiu para a primeira paragem para compromissos de seleções na liderança da Liga e nos oitavos de final da Taça Europa. Domingo é dia de visitar o Sporting, em duelo a contar para a quarta jornada.
Núria Mendoza efetuou balanço de primeiros meses no Oeste, antecipou duelos decisivos contra os candidatos ao título e abriu a porta à conquista de troféus em entrevista a A BOLA.
— Como é que tem sido o processo de adaptação a Portugal?
— Tem sido muito fácil e agradável. As minhas colegas de equipa têm-me ajudado muito desde que cheguei e até dizem que parece que estou aqui há dois ou três anos. Não podia estar mais contente, estamos a ganhar. Desde que cheguei à equipa e à cidade tem sido muito fácil, estou muito feliz por ter vindo.
— Porque é que decidiu sair do futebol espanhol pela primeira vez aos 30 anos e rumar ao Torreense?
— Queria uma experiência nova, sair da minha zona de conforto e nada melhor do que o Torreense, ainda por cima com a qualificação europeia. Era o momento ideal para vir. Vim para aqui com a máxima vontade, ambição e, sobretudo, com o desejo de poder ajudar a equipa e o clube em tudo o que possa dentro da minha experiência. Vim para ajudar o clube a continuar a ganhar.
— A participação na Champions pesou na decisão que tomou?
— Sim.
— Aconselhou-se com a Tatiana Pinto, com quem jogou no Levante, antes de dar este passo?
— Tenho uma relação muito especial com a Tatiana, temos uma amizade muito boa desde que estávamos no Levante. É uma grande amiga e disse-me para vir sem nenhuma dúvida, que ia estar muito bem e iam cuidar muito bem de mim. A verdade é que ela tinha muita razão, porque não podia pedir melhor.
— Que Torreense encontrou este verão após uma época na qual conquistaram a Supertaça e a Taça de Portugal?
— Mudaram algumas jogadoras, mas há uma base, o mister é o mesmo e isso torna tudo mais fácil. Estamos a trabalhar e a cimentar hábitos que nos façam competir melhor do que anteriormente.
— Esperavam estar em primeiro na Liga e em grande na Europa nesta fase da época?
— Acabamos por sonhar sempre e ter grandes objetivos. Temos de continuar com os pés no chão, mas estou contente pela forma como continuamos a progredir. Estamos a trabalhar muito bem e os resultados estão à vista. Vêm aí jogos e um mês duro, mas vamos disputá-los com a máxima confiança.
— Sporting, SC Braga e Benfica são os adversários do Torreense nas próximas três jornadas. Estes testes podem ditar o rumo da campanha do clube na Liga?
—São jogos importantes para saber em que posição vamos ficar. Queremos estar com as equipas dos lugares cimeiros, com o Sporting, com o Benfica, e isso passa por competir nestes jogos. No final da época isso determinará o quão bem ou mal estivemos. Mas é algo que está distante, falta muito. Depois deste mês podemos ver se estamos mais perto ou mais longe, oxalá estejamos mais perto. Encaramos este mês com muita vontade.
— Têm o objetivo de alcançar mais do que o terceiro lugar?
— Temos o objetivo de estar e lutar com as equipas dos lugares cimeiros. O tempo, como se costuma dizer, coloca cada um no seu devido lugar. Nós queremos sonhar, sobretudo com trabalho, que é a base da equipa do Torreense. É não parar de lutar e veremos onde acabamos.
— A temporada começou com a estreia do clube na Champions contra a Juventus (1-2). Sobressairam as dores da eliminação ou os bons sinais que deixaram para a temporada?
— A verdade é que doeu um pouco porque estivemos muito bem , tivemos ocasiões para empatar e levar o jogo para um prolongamento ou eventuais penáltis. Estivemos perto, mas há que saber contextualizar. Agora é trabalhar para continuarmos a vencer na Taça Europa.
— A Núria marca logo no primeiro jogo na prova, diante do Kolos Kovalivka...
— Fiquei muito feliz, porque a bola parada é um aspeto que trabalhamos muito. Saírem coisas no jogo que se trabalham nos treinos é muito gratificante.
— Até onde é que pode chegar o Torreense na Taça Europa?
— Ainda estamos muito longe, pensar mais além dos oitavos [contra o Sparta Praga] seria um erro. Antes temos jogos muito importantes da Liga e temos de estar focadas nisso. Haverá tempo de pensar no jogo em Praga, sabendo que vamos dar tudo para trazer para Torres Vedras um bom resultado e continuar a lutar para podermos passar. A Taça Europa é uma competição muito complicada, com equipas boas, muito fortes e físicas que jogam de igual para igual.
— Como é que tem sido a relação dos adeptos com a equipa nesta caminhada?
— Para nós é muito importante ver o Manuel Marques cheio, os adeptos dão uma energia como o 12.º jogador, que esperamos ter na próxima ronda, é fundamental. Nas vezes que jogámos em casa, os adeptos compareceram.
— O Torreense e o Benfica são os únicos clubes portugueses com equipas masculinas e femininas ainda em prova na Europa...
—O clube está a fazer as coisas muito bem, tanto no feminino como no masculino, e tem demonstrado isso. É um enorme orgulho que o nome do Torreense esteja por toda a Europa.
— Ganhar um troféu com o Torreense é um objetivo pessoal?
— Sim! Individualmente, se ajudar a equipa já vou ser feliz. É tentar ganhar tudo o que pudermos.
Da «espinha encravada» ao «pé esquerdo de ouro» da 'rainha'
— O que guarda após mais de 250 jogos e 12 anos no futebol espanhol?
— Não imaginava algo assim. Com muito esforço e muito trabalho consegui ter tantos jogos [270] na primeira divisão. Recordo-me de quando ganhámos a Copa de la Reina na Real Sociedad [2018/19], foi dos momentos mais bonitos que vivi. Para mim vai além do futebol, é sobretudo sobre as pessoas especiais que conheces. Quando terminar, é com isso que vou ficar. Acabei de chegar ao Torreense, mas já encontrei pessoas que sinto que vão ser para sempre, porque desde o primeiro minuto tornaram tudo muito fácil e tornaram-se muito especiais.
— É possível parar o Barcelona na Liga F?
— É muito difícil! São jogadoras muito boas e é difícil pará-las. Chegou a um ponto em que mentalmente as equipas já não sabem o que fazer. Vamos ver se este ano alguma equipa consegue dificultar-lhes mais um bocado a vida e equilibrar mais a corrida, tendo em conta as mudanças de jogadoras que tiveram.
— O seu percurso começa no lado azul de Barcelona, no Espanhol, onde coincidiu com Alexia Putellas…
— Já se via que era uma grande jogadora, tinha um pé esquerdo de ouro. Ela demonstra que, quando as lesões a respeitam, é de topo.
— Sente alguma mágoa por nunca ter jogado pela seleção principal espanhola?
— Tens sempre essa ambição. Fiquei sempre um pouco com essa espinha encravada de não ter podido estar lá ou, em algum momento, de ter estado perto e não ter sido chamada. Mas o futebol é assim, é continuar a trabalhar.
— Quais as principais diferenças que identifica entre o futebol espanhol e o português?
— O futebol espanhol já leva mais anos, tem uma base mais sólida. O nível pode ser diferente.
— Há uma valorização maior do futebol feminino por parte do público em Espanha?
— Talvez falte um pouco o apoio dos adeptos e facilitar o acesso às cidades desportivas, às vezes estão longe das cidades. Acho que falta um pouco mais de visibilidade para que as pessoas vão ver os jogos e haja mais adeptos. Nos últimos anos em Espanha perdeu-se um pouco a vontade dos adeptos de virem ao estádio.
— O que é que pode explicar essa tendência?
— Não sei, mas houve uma quebra e há que voltar outra vez a potenciar. Quando, por exemplo, o Barcelona abre o Camp Nou, vê-se que as pessoas têm vontade, que apoiam as raparigas. Outras equipas da liga têm de fazer o mesmo para que a liga possa crescer ainda mais e ganhar mais visibilidade.