Diogo Costa analisou a exibição do FC Porto após a derrota com o PSV e expressou opinião sobre aspetos do jogo que considera necessário melhorar — Foto: CATARINA MORAIS/KAPTA+
Diogo Costa analisou a exibição do FC Porto após a derrota com o PSV e expressou opinião sobre aspetos do jogo que considera necessário melhorar — Foto: CATARINA MORAIS/KAPTA+

A gaiola dourada dos jogadores profissionais de futebol

O futebolista profissional é simultaneamente trabalhador, património económico, ativo comercial, figura pública e representante de uma instituição. Estas cinco condições, que fazem dele um privilegiado aos olhos da sociedade, podem transformar-se numa prisão dourada, incompatível com o exercício pleno da sua liberdade individual. 'Choques de Realidade' é o espaço de opinião de Rui Pedro Soares, consultor

Oexemplo mais flagrante da condição de escravos de luxo dos jogadores profissionais de futebol ocorre quando, ciclicamente, um clube anuncia, como castigo por maus resultados ou exibições, a realização de um estágio que os impede de dormir nas suas próprias casas.

Não há outra profissão em que semelhante punição seja considerada admissível.

Seria aceitável que o dono de uma empresa castigasse um administrador por maus resultados, obrigando-o a dormir fora de casa? Que um arquiteto fosse impedido de regressar ao convívio da família por ter perdido um concurso? Ou que um pasteleiro, por não lhe ter saído bem um bolo, fosse obrigado a passar a noite na pastelaria?

O futebol criou uma categoria extraordinária de trabalhadores: alguns são dos mais bem pagos do mundo, mas espera-se que vivam com restrições à sua liberdade que seriam intoleráveis para quem ganha o salário mínimo.

Os jogadores são tratados como adultos pelas responsabilidades que assumem e como menores pelos direitos que lhes são reconhecidos.

Trabalham frequentemente seis dias por semana, com períodos de descanso condicionados pelas exigências das competições.

E alguém se preocupa em saber se os jogadores que participaram no Mundial conseguiram efetivamente usufruir dos 22 dias úteis de férias a que têm direito, tal como a generalidade dos trabalhadores portugueses?

Espera-se que não manifestem publicamente posições políticas, religiosas ou sobre qualquer assunto suscetível de dividir os adeptos ou desagradar aos patrocinadores.

São obrigados a prestar declarações quando prefeririam permanecer em silêncio, mesmo depois de uma derrota humilhante, no cumprimento de obrigações regulamentares cuja violação pode originar sanções.

E, paradoxalmente, espera-se que permaneçam calados quando desejariam explicar, com honestidade intelectual, as verdadeiras razões pelas quais alguma coisa correu mal.

No futebol, o direito ao silêncio transforma-se frequentemente num dever de silêncio, enquanto a liberdade de expressão dá lugar à obrigação de falar.

Os episódios desta semana com Bruno Fernandes e Diogo Costa são particularmente esclarecedores.

Depois das derrotas de Manchester United e FC Porto na UEFA Champions League, ambos os capitães analisaram as exibições das suas equipas e expressaram opiniões sobre aspetos do jogo que consideraram necessário melhorar.

Bruno Fernandes questionou a abordagem tática da equipa, designadamente a falta de pressão sobre o adversário. Diogo Costa observou que os adversários começam a perceber a forma de jogar do FC Porto e defendeu a necessidade de arriscar mais.

Não insultaram ninguém, não puseram em causa a dignidade dos treinadores, nem deixaram de assumir as suas responsabilidades.

Mas bastou expressarem opiniões sobre futebol para se gerar polémica, como se os jogadores fossem os únicos intervenientes no espetáculo impedidos de analisar aquilo que acontece dentro das quatro linhas.

O futebolista profissional é simultaneamente trabalhador, património económico, ativo comercial, figura pública e representante de uma instituição.

Estas cinco condições, que fazem dele um privilegiado aos olhos da sociedade, podem transformar-se numa prisão dourada, incompatível com o exercício pleno da sua liberdade individual.

E a partir de que valor de remuneração deve um trabalhador abdicar das suas liberdades individuais?

A relação dos jogadores com os adeptos encerra outra contradição particularmente reveladora.

O adepto reivindica para si uma liberdade praticamente ilimitada: critica treinadores, insulta dirigentes, contesta jogadores e pronuncia-se sobre tudo o que acontece no clube.

Mas considera frequentemente inadmissível que um jogador exerça essa mesma liberdade, criticando uma decisão do clube, respondendo às acusações dos adeptos ou manifestando uma opinião diferente da sua.

Confunde-se o respeito pela instituição com a submissão pessoal, como se representar um clube implicasse renunciar ao direito de pensar, discordar ou expressar opiniões próprias.

Paradoxalmente, quem assiste ao espetáculo considera ter mais direitos sobre a liberdade de expressão do que quem o protagoniza.

Os adeptos admiram os jogadores e celebram os seus feitos. Mas são também eles que ajudam a construir e a vigiar as grades da gaiola dourada em que vivem.

Aplaudem-nos pelo talento que os torna extraordinários, mas exigem-lhes uma obediência que lhes retira o direito de serem pessoas comuns.

O futebol deve evoluir no sentido de reconhecer aos seus profissionais as liberdades e os direitos que a sociedade conquistou para os restantes trabalhadores.

Pela sua extraordinária influência social, pela capacidade de mobilizar milhões de pessoas e pelo exemplo que representa para as novas gerações, o futebol tem uma responsabilidade que ultrapassa largamente as quatro linhas.

Deve estar na vanguarda da sociedade, não na sua retaguarda. Deve estimular o diálogo, não impor o silêncio.

Promover a liberdade de pensamento, não exigir a uniformidade das opiniões. Ensinar a respeitar a diferença, não castigar quem discorda.

Num tempo em que a intolerância perante opiniões divergentes ameaça substituir o diálogo pela imposição do silêncio, o futebol deve contribuir para inverter esse caminho, em vez de o acompanhar.

O progresso não consiste em retirar liberdades a quem ainda as tem, mas em alargá-las a quem não as pode exercer plenamente.

O futebol não deve ensinar a sociedade a viver em gaiolas douradas, deve ajudar a abrir as portas de todas as gaiolas.

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