Benfica protestou castigo
a Jhon Durán após expulsão polémica
do avançado colombiano
diante do Santa Clara - Foto: Miguel Nunes
Benfica protestou castigo a Jhon Durán após expulsão polémica do avançado colombiano diante do Santa Clara - Foto: Miguel Nunes

Jhon Durán: a verdade foi tomar banho

'Bar Nilo' é o espaço de opinião em A BOLA de Luís Aguilar, comentador desportivo

No futebol português, até o silêncio devia levar advogado. Nunca se sabe o que pode dizer. Uma pessoa está calada e já vai a caminho do túnel. Outra abre a boca, ninguém percebe o que disse, mas o relatório percebe tudo. Sobretudo a necessidade de justificar o cartão que já saiu do bolso.

Jhon Durán foi expulso por Cláudio Pereira no final do Santa Clara-Benfica. No relatório, surgem palavras impercetíveis à equipa de arbitragem. Palavras que terão ajudado a propagar o conflito. Não se percebe o conteúdo. Percebe-se a culpa. É uma capacidade extraordinária. Como condenar um livro sem conseguir ler o texto.

Convém fazer uma pausa. Um gesto pode ser ofensivo sem legenda. Uma provocação não precisa de palavrões. Mas um relatório precisa de factos. Da descrição concreta do que aconteceu. Se o árbitro não percebeu as palavras, não pode pedir-nos que aceitemos a ofensa por intuição. O cartão vermelho não é um teste de fé.

Também nos Açores, em abril de 2025, o mesmo árbitro expulsou Conrad Harder. Entre as explicações apareceu um «yeah» provocatório. Cláudio Pereira descreveu também um salto sobre um adversário e atribuiu ao então jogador do Sporting o início do conflito. O resto das palavras não lhe foi percetível. Já havia, portanto, dificuldades de receção. A emissão dos cartões funcionava bem.

Harder cumpriu um jogo de suspensão. Meses depois, o Tribunal Arbitral do Desporto anulou o castigo por violação do direito de defesa. Não decidiu que todos os gestos eram inocentes. Decidiu que o processo não respeitara esse direito. A diferença interessa. Como interessa o calendário. Quando a decisão chegou, o jogo já estava cumprido. A justiça devolveu-lhe uma presença que já lhe tinha sido tirada.

Antes disto, houve Sérgio Conceição num jogo do FC Porto em Paços de Ferreira. E houve Nuno Almeida. Segundo contou o treinador, o árbitro explicou-lhe que o expulsara pela cara. Ficou para a história «o olhar fulminante». É preciso atribuir a versão a quem a contou. E, mais tarde, o próprio árbitro negou essa versão. Mas também não é difícil imaginar um futebol em que a expressão facial constitui matéria disciplinar. Alguns treinadores teriam de entrar de costas.

Conceição nunca foi um menino de coro. Nunca precisou de o ser para ter direito a uma expulsão bem fundamentada. É esse o problema dos antecedentes. Dão muito jeito a quem tem preguiça de examinar o presente. Já gritou antes. Deve ter gritado agora. Já insultou antes. Deve ter insultado agora. Uma reputação transforma-se numa folha de cadastro. Depois basta preencher a data.

Mário Branco também não precisa de auréola. No caso de Famalicão, os insultos não foram a parte desmentida pelo diretor geral do Benfica. A falsidade estava na aproximação física que Gustavo Correia descreveu e que as imagens de videovigilância contrariaram. O dirigente não se aproximou nem foi travado por polícias ou assistentes. Aquela cena existia no relatório. Nas imagens, não.

O árbitro manteve inicialmente a versão. Depois reconheceu um lapso de identificação. O Conselho de Disciplina não deu como provada a intenção de falsear os factos. Deu como violados os deveres de rigor, exatidão e verdade.

Consequência? Essa tal repreensão. Cabe numa palavra. Já os efeitos de um relatório falso, têm outro tamanho. E podem ser nefastos para o visado.

Nada disto limpa o ambiente em que trabalham os árbitros. O futebol português produz suspeita em quantidade industrial. Uma semana trabalha um dos grandes. Na seguinte trabalham dois. Quando é preciso, trabalham os três. Mudam os comunicados. Mantém-se a fábrica. O erro de quem apita, quando existe, serve para explicar a derrota, desvalorizar a vitória alheia e preparar a próxima jornada.

Os três grandes ocupam a conversa toda. Os programas. As capas. Os corredores onde se decide. Até a indignação precisa de FC Porto, Benfica ou Sporting para ter direito a horário nobre. O resto do futebol espera. Se um clube de menor dimensão é prejudicado, ninguém quer saber. Falta-lhe gente suficiente a gritar para que o prejuízo exista na discussão pública.

Neste ruído, o árbitro entra em campo com a sentença preparada por milhões de adeptos. Há insultos. Há ameaças. Há dirigentes que confundem liderança com licença para intimidar. Há treinadores que fazem do quarto árbitro um empregado do seu mau humor. Defender a arbitragem desta violência é uma obrigação. Não exige que se defenda toda a frase escrita por um árbitro.

Também dentro do setor falta proteção. Falta quem ajude a corrigir sem abandonar. Quem exija rigor sem transformar cada erro numa execução pública. Mas proteger um árbitro não pode significar proteger uma versão contra os factos. Isso deixa-o mais sozinho na decisão seguinte. E entrega aos incendiários o fósforo de que precisavam.

Jogadores, treinadores e dirigentes abusam. Muitas vezes. Não abusam por decreto em todas as ocasiões. Alguns árbitros parecem esquecer essa diferença quando se sentam a escrever. O apito já acabou. Há tempo. Há uma cadeira. Há a possibilidade de dizer: «Não vi bem, não ouvi. Enganei-me.»

Em vez disso, por vezes, aparece a literatura. O jogador cumpre. O treinador cumpre. O relatório fica. A verdade desaparece.

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