Se Rui aprovou Cabral, tudo bem
P ODE ser uma ideia em colisão com a realidade histórica, mas um jogo em que se decide um título sugere que se olhe os intervenientes com o respeito que ambos merecem, principalmente quando se defrontam o campeão nacional e o vencedor da Taça de Portugal. Com os pratos da balança nivelados, por se tratar da abertura oficial da temporada 2023/2024, Benfica e FC Porto, na extensão do que foi o último campeonato, partem para a conquista da Supertaça Cândido de Oliveira cada qual com os seus argumentos, lado a lado, e no fim erguerá o troféu quem for mais competente.
Não vejo que qualquer outra conclusão deva extrair-se, embora reconheça que, por força da chegada de Rui Costa à presidência, da contratação um treinador alemão com novas ideias e da conquista do tão almejado título 38, se instalou uma onda de entusiasmo no seio da família benfiquista como há muito não se via. O que é natural, e com idêntica naturalidade deve entender-se que no lado portista tudo estará a ser feito para alcançar um objetivo de sentindo contrário, vislumbrando na vitória a fórmula mais rápida e eficaz para reforçar a sua posição e fazer baixar os níveis de regozijo entre os benfiquistas, tanto mais que os registos incentivam essa estratégia: desde que a Supertaça foi inventada, o FC Porto vê no Benfica o seu melhor cliente (em doze jogos venceu onze), mas a tradição tem a importância que se lhe quiser atribuir.
Do mesmo modo que o FC Porto teve de esperar dezasseis anos para inscrever o seu nome na lista de vencedores da Taça da Liga, também o Benfica, agora em novo ciclo da sua vida, pode muito bem, se tiver arte e força para isso, dar um sinal dessa mudança na Supertaça, triunfando e recusando continuar a fazer o papel de finalista simpático de cada vez que defronta o dragão.
A venda de Gonçalo Ramos, além de inteligente e necessária, foi um negócio interessante do ponto de vista dos valores que se conhecem. Quanto ao plano de pagamento, compreendo mal, mas é por ignorância minha.
Este Gonçalo é o mesmo que há um ano esteve com um pé fora, sem que alguém chorasse a sua saída. Eu, que não sou inventor de estrelas, por mais de uma vez, nas noites divertidas de A BOLA TV, defendi que o Benfica precisava de um avançado que metesse medo, por ver em Gonçalo Ramos um jovem indeciso, ora instável ora aplicado, mas longe de ser um avançado de referência. No espaço de um ano, porém, valorizou-se imenso, justificando os 80 milhões do negócio com o PSG. Daqui em diante, não adivinho se dentro de um ano ou dois terá cotação de mercado superior ou se, em termos de evolução, está próximo do seu limite. Não sei, nem a tal exercício me atrevo, mas há quem seja capaz de o fazer.
Gonçalo saiu, é assunto encerrado, presumo. O brasileiro Arthur Cabral, 25 anos, a representar a Fiorentina desde meio da época 2021/2022, foi ontem noticiado como seu sucessor. O pai do jogador confirmou a operação, informado pelo próprio filho, e o site de A BOLA apurou que, apesar dos vários nomes apontados à Luz, Arthur Cabral foi sempre a primeira opção para reforçar o ataque. Segredo bem guardado, cada vez mais raro, mas uma surpresa, pelo menos para mim, confesso, exatamente por causa dos nomes que foram lançados ao vento.
Por vir de onde vem, a Fiorentina, Rui Costa teve intervenção no processo, mas depois de tanto se ter falado no interesse da águia pelo argentino Lucas Beltrán, 22 anos, e de há dois ou três dias ter sido tornado público o desejo da mesma Fiorentina na contratação do ponta de lança argentino, saber-se ontem que o Benfica fica com Arthur Cabral, a troco de 20 milhões, mais cinco por objetivos, dá ares de uma espécie de convergência de interesses entre os dois clubes, faltando apenas saber quem ficou com o melhor bocado…
Bem ou mal, a vaga de Gonçalo Ramos vai ser preenchida. Pode dar-se o caso de o Benfica ter adquirido o jogador certo para o lugar certo, mas é preciso que as pessoas se convençam disso, porque a primeira reação é de apreensão, apenas atenuada pela confiança de que Rui Costa é merecedor. O nome do jogador não empolga, mas se mereceu aprovação presidencial está tudo bem.
DEPOIS de Perin, lembram-se?, que passou um dia por Lisboa, da contratação de Helton Leite, entretanto transferido a meio da época transata, sem esquecer Bruno Varela, que saiu para o Vitória de Guimarães, finalmente, o Benfica terá encontrado um concorrente para Vlachodimos.
Anatoly Trubin, ucraniano, 22 anos, dez milhões, mas com o Shakhtar a reservar 40 por cento de futura mais-valia. Não se trata de um guarda-redes caro, nem barato, depende da qualidade. É alto, jovem e se alimenta pretensões não virá para ser suplente, pelo menos no pensamento dele. O que é bom. Vlachodimos não vai gostar? Paciência, a verdade é que o Benfica conseguiu solucionar um problema que já tinha barbas…