Rui Borges e Frederico Varandas, treinador e presidente do Sporting, respetivamente - Foto: Imago
Rui Borges e Frederico Varandas, treinador e presidente do Sporting, respetivamente - Foto: Imago

Sporting: dores de crescimento ou de permanência?

'Desportiva_MENTE' é o espaço de opinião em A BOLA de Liliana Pitacho, psicóloga e docente no Instituto Politécnico de Setúbal

Frederico Varandas promoveu uma verdadeira revolução no plantel do Sporting. Saíram jogadores determinantes, chegaram novas soluções e a equipa viu alteradas muitas das referências que sustentavam o seu jogo. Perante uma renovação desta dimensão, seria irrealista esperar uma equipa imediatamente estável, totalmente entrosada e imune a oscilações de rendimento. As chamadas dores de crescimento são naturais quando se reconstrói quase tudo.

Contudo, sofrer golos nos últimos minutos, sobretudo quando se dispõe de uma vantagem curta, não é propriamente uma novidade trazida pela renovação do plantel. E é precisamente aqui que se torna legítimo perguntar se estamos apenas perante dores de crescimento ou diante de algo mais profundo: dores de permanência.

Ao longo do percurso de Rui Borges no Sporting, tem-se repetido uma dificuldade evidente na gestão das vantagens. Depois de marcar, principalmente quando o resultado permanece pela margem mínima, a equipa tende a baixar a intensidade da pressão, recua o bloco e perde capacidade para manter a bola longe da sua baliza. Em vez de continuar a controlar o jogo através da procura de novo golo, entrega progressivamente a iniciativa ao adversário.

O problema não está simplesmente em defender uma vantagem. Ao recuar excessivamente, o Sporting permite que o adversário cresça, ganhe confiança e se instale junto da sua área. Uma vantagem que deveria trazer segurança passa, assim, a produzir ansiedade.

É necessário identificar as razões deste padrão e, mais do que isso, corrigi-lo. Na época passada, Rui Borges já falava na necessidade de manter a concentração, o foco e a intensidade até ao apito final. Porém, a repetição do problema sugere que a explicação poderá não estar apenas em falhas individuais de concentração. Os jogadores mudaram. Os adversários também mudam, tal como variam a sua qualidade, estratégia e capacidade de reação. Mas, no meio de todas estas alterações, existe um fator que permanece: a liderança técnica e a forma como a equipa interpreta os momentos em que se encontra em vantagem.

Rui Borges tem, naturalmente, responsabilidade na construção das soluções. Não porque seja o único responsável por tudo o que acontece dentro do campo, mas porque um padrão recorrente deixa de poder ser explicado apenas pelas circunstâncias, pela juventude ou pela falta de entrosamento. Quando os protagonistas mudam e o comportamento coletivo permanece, torna-se indispensável olhar para as orientações transmitidas e para a mensagem emocional que chega à equipa.

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