Ruído e processo
Num dia em que se celebram as crianças — e tudo o que nelas é ainda promessa e esboço — importa lembrar que também os processos de construção passam por fases preliminares que não devem ser confundidas com o produto final.
Num tema tão decisivo para o futuro do Futebol Profissional em Portugal, como a chave de distribuição das receitas provenientes da comercialização centralizada dos direitos de transmissão televisiva e multimédia, essa distinção é essencial: entre o ruído que acompanha qualquer processo e o processo em si, que exige responsabilidade, escuta, alinhamento e maturação.
Desde a tomada de posse da atual Direção Executiva, há pouco mais de um ano, tem sido precisamente isso: um processo de construção permanente, alimentado por um diálogo contínuo com todos os envolvidos, por ajustes e, em alguns casos, anulações.
É natural que assim seja. Tomar qualquer esboço de trabalho como verdade consumada seria não apenas precipitado, seria redutor face à exigência de um processo que está a tomar forma.
Um ponto, porém, merece ser clarificado com precisão: a proposta que será submetida à Assembleia Geral da Liga Portugal, no próximo dia 8 de junho, traduz já uma redução muito relevante face ao atual rácio de dispersão, aproximando-o dos padrões europeus, e assume, desde logo, o compromisso de uma convergência ainda maior no ciclo seguinte. É aqui que o trabalho da Liga Portugal deve ser lido: não nas fases preliminares do processo, mas na construção paciente de uma solução mais equilibrada, mais competitiva, mais robusta.
Porque a centralização não pode limitar-se ao cumprimento formal de um imperativo legislativo. Tem de traduzir a construção substantiva de um novo modelo de valorização coletiva, um modelo que reforce a concorrência, premeie o mérito desportivo e social, introduza racionalidade na distribuição e aumente a atratividade do produto futebol, sem expropriar Clubes e Sociedades Desportivas da legítima fruição do valor dos seus ativos.
A solução ótima passa por conciliar solidariedade com mérito, equidade com incentivo, visão coletiva com respeito pelos direitos dos seus titulares, numa arquitetura objetiva, transparente e exequível. Até porque centralizar não é nivelar: é elevar o conjunto sem amputar as partes.